{"id":18944,"date":"2021-04-11T12:15:33","date_gmt":"2021-04-11T15:15:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18944"},"modified":"2021-04-11T12:15:33","modified_gmt":"2021-04-11T15:15:33","slug":"vagabundas-utopias-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/vagabundas-utopias-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"VAGABUNDAS UTOPIAS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A doce imprud\u00eancia das escolhas palpiteiras; o perfume das suposi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As palavras t\u00eam hist\u00f3rias, algumas lindas, outras nem tanto, h\u00e1 tristes e engra\u00e7adas, espalhafatosas, acanhadas, mas sempre faiscantes em suas andan\u00e7as. Palavras s\u00e3o como novelas com enredos de amor e \u00f3dio, percal\u00e7os, intrigas, conex\u00f5es suspeitas, e falsas apar\u00eancias. Quando acessadas, elas se exibem com vontade de palco e n\u00e3o escondem protagonismos inquietantes. Como seres vivos, nascem, crescem, ganham contornos, e h\u00e1 as que fenecem deixando melanc\u00f3lica saudade: <em>sassaricando<\/em>, <em>fuzarca<\/em>, <em>chapuletada<\/em>. N\u00e3o nos esque\u00e7amos daquelas espertas que se transformam provocando mudan\u00e7as de sentido, sugerindo lugares adversos &#8211; sob este crivo, ali\u00e1s, o termo <em>destino<\/em> \u00e9 exemplo eloquente, pois nasceu como trajeto de um ponto a objetivo certeiro, algo do tipo tiro ao alvo, mas traidora na pr\u00e1tica, deixou-se transformar, fazendo do pr\u00f3prio <em>destino<\/em> uma possibilidade ou alternativa arriscada. Tudo, por\u00e9m, acontece num sopro variado entre o surgimento at\u00e9 pris\u00f5es nos dicion\u00e1rios que lhes s\u00e3o \u201csenten\u00e7as paralisantes\u201d, como garantia Garcia M\u00e1rquez.<\/p>\n<p>Imagino o cultivo das palavras plantadas nas lavouras de etn\u00f3logos, sem\u00e2nticos, morf\u00f3logos e demais especialistas nos mist\u00e9rios das l\u00ednguas. Profissionais dedicados esses, devem habitar uma confraria reclusa a exegetas que, muito exigentes, tratam tudo com solenidade e precis\u00e3o cir\u00fargicas. Afora essa corpora\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, a n\u00f3s, singelos amadores da l\u00edngua popular, sobra a leviandade de supor trajet\u00f3rias contempladas na superf\u00edcie de dizeres meio soltos, arranhados em pistas vagas, mas excitantes. Ah, a doce imprud\u00eancia das escolhas palpiteiras; ah, o perfume das suposi\u00e7\u00f5es!&#8230; Certamente isso h\u00e1 de soar heresia aos ortodoxos, mas a n\u00f3s pecadores do verbo comum \u00e9 algo divino. E tudo pode virar uma deliciosa aventura. Imaginar as hist\u00f3rias das palavras nos faz um pouco deuses, daqueles que libertam o livre arb\u00edtrio e nos deixam sondar o passado de cada voc\u00e1bulo em perambula\u00e7\u00f5es tontas.<\/p>\n<p>E para n\u00f3s exegetas libertinos h\u00e1 profundezas no raso trato das palavras soltas no cotidiano. Dentre cole\u00e7\u00f5es, confesso, uma me chama mais a aten\u00e7\u00e3o do que outras mil. Por certo, meu psiquiatra particular ter\u00e1 explica\u00e7\u00f5es freudianas para tanto, mas o verbo <em>vagabundear<\/em> me atrai de maneira irresist\u00edvel, e, sinceramente, acho que estou bem acompanhado nesta estranha idolatria. Sabe, formulei at\u00e9 trilha sonora a come\u00e7ar por \u201cAbrigo de vagabundo\u201d (Adoniran Barbosa), \u201cCora\u00e7\u00e3o vagabundo\u201d (Caetano), \u201cVai trabalhar vagabundo\u201d (Chico Buarque), e pensam que para por a\u00ed, n\u00e3o mesmo, lembremos do \u201cAstro vagabundo\u201d (Moraes Moreira), \u201cO vagabundo\u201d (Leo Magalh\u00e3es), e nessa ladainha, nem me deixou carente Renato Teixeira se declarando \u201c<em>errante, vagabundo<\/em><em>\/ assim eu vou vivendo\/ na dire\u00e7\u00e3o que o vento me levar\/<\/em><em>\u00a0desiludi mambembe\/<\/em><em>\u00a0de andarilho e bagual\/\u00a0sou marinheiro nesse pantanal<\/em><em>\/ errante vagabundo<\/em>\u201d.\u00a0E <em>vagabundeando<\/em> pelos significados me reencontro com <em>destino<\/em>, aquele mesmo que se perdeu na trajet\u00f3ria da meta exata. O suspiro desse entendimento, por sua vez, me faz buscar o ber\u00e7o latino do verbo \u201c<em>destinare<\/em>\u201d. \u00c9 exatamente na odisseia dada pelo desvio de rota que <em>vagabundear<\/em> achou-se no direito de virar verbo ut\u00f3pico.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lafargue-livro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18945\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lafargue-livro-257x450.jpg\" alt=\"\" width=\"257\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lafargue-livro-257x450.jpg 257w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lafargue-livro-172x300.jpg 172w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lafargue-livro.jpg 286w\" sizes=\"auto, (max-width: 257px) 100vw, 257px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Paul Lafargue, genro de Karl Marx, esconjurado por JC Sebe<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sinceramente, acho pobre filtrar olhares sobre a <em>vagabundagem<\/em> pelo sentido utilit\u00e1rio do mundo do trabalho industrial. Ser <em>vagabundo<\/em> \u00e9 muito mais do que simplesmente n\u00e3o produzir ou perder tempo. Os franceses s\u00e3o mais sensatos nesse sentido, pois na l\u00edngua de Flaubert <em>vagabundo<\/em> \u00e9 mais um estilo de vida do que propriamente n\u00e3o enquadramento em padr\u00f5es \u201cnormais\u201d. Nem \u00e9 exatamente pregui\u00e7a ou recusa de execu\u00e7\u00e3o de tarefas. Confesso pendor leviano para o exame do tema <em>vagabundo<\/em> sem respeito \u00e0 sua nobreza original, e at\u00e9 maldigo a sedutora s\u00e9rie de livros que concatenam o assunto na ordem burguesa. Esconjuro, por exemplo, a tese para muitos irresist\u00edvel de Paul Lafargue, genro de Marx, expressa no livro \u201cO direito \u00e0 pregui\u00e7a\u201d, e junto disparo contra outros ensaios que pontificam a confus\u00e3o entre <em>vagabundagem<\/em> e <em>\u00f3cio<\/em>. E assim engato cr\u00edtica ao texto \u201cO elogio ao \u00f3cio\u201d de Bertrand Russel, e tamb\u00e9m ao sucesso de \u201c\u00d3cio criativo\u201d de Domenico Masi, todos lidando com a <em>vagabundagem<\/em> de forma pejorativa. Nessa contram\u00e3o, ali\u00e1s, imagino nobreza no verbo vadiar que tem av\u00f4 latino\u00a0\u201c<em>vagativum<\/em>\u201d (lindo, n\u00e9?!), pura tradu\u00e7\u00e3o daquele que consciente peregrina sem destino. \u00c9 a\u00ed que o termo vagabundo se encontra com seu sentido cumprindo em um outro <em>destino<\/em>: ficar sem nada fazer sem culpa, sem compromisso, <em>sem len\u00e7o e sem documento<\/em>, liberto dos deveres prescritos nos contratos de trabalho, sem dever \u00e0 moral trabalhista ou \u00e0 economia produtivista. Utopia?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/domenico-de-masi-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18946\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/domenico-de-masi-5-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/domenico-de-masi-5-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/domenico-de-masi-5-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/domenico-de-masi-5-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/domenico-de-masi-5.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><em><strong>Domenico Masi, autor de &#8220;\u00d3cio criativo, lida com a vagabundagem de forma pejorativa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cDestino\u201d, \u201cvagabundear\u201d, \u201cmudan\u00e7a de sentido das palavras\u201d, \u201cconsci\u00eancia da vida\u201d, tudo numa dan\u00e7a de palavras que ritmam a din\u00e2mica da vida moderna&#8230; Pois \u00e9, ao perder a b\u00fassola da orienta\u00e7\u00e3o, <em>vagabundagem<\/em> afogou seu lugar rom\u00e2ntico, virou quimera, e isso explica esta busca <em>vagabunda<\/em> do entendimento da sociedade moderna que n\u00e3o tem mais tempo para <em>vagabundear<\/em> como nos velhos tempos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A doce imprud\u00eancia das escolhas palpiteiras; o perfume das suposi\u00e7\u00f5es As palavras t\u00eam hist\u00f3rias, algumas lindas, outras nem tanto, h\u00e1 tristes e engra\u00e7adas, espalhafatosas, acanhadas, &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18947,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18944","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18944","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18944"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18944\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18948,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18944\/revisions\/18948"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18944"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18944"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18944"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}