{"id":18930,"date":"2021-04-04T09:01:42","date_gmt":"2021-04-04T12:01:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18930"},"modified":"2021-04-04T09:01:42","modified_gmt":"2021-04-04T12:01:42","slug":"nelson-rodrigues-oswaldo-montenegro-e-drummond-ou-quando-eu-fiz-60-anos-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/nelson-rodrigues-oswaldo-montenegro-e-drummond-ou-quando-eu-fiz-60-anos-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"\u201cNELSON RODRIGUES, OSWALDO MONTENEGRO E DRUMMOND\u201d  ou  Quando eu fiz 60 anos JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Na contram\u00e3o das bobagens que se diz sobre a \u201ceterna juventude\u201d, fa\u00e7o ecoar Nelson Rodrigues sugerindo virtudes no amadurecimento. N\u00e3o se trata de algo panflet\u00e1rio, diga-se de vez. N\u00e3o mesmo. Esconde-se por traz do conselho \u201c<em>envelhe\u00e7a logo<\/em>\u201d, mais do que a usual picardia rodrigueana. Muito mais. O avan\u00e7o da idade como sabedoria \u00e9 li\u00e7\u00e3o solene, contradi\u00e7\u00e3o absoluta de balelas do tipo \u201cmelhor idade\u201d, \u201cvinho velho \u00e9 mais gostoso&#8230;\u201d Mas como saber qual o momento da virada? Como, se manuais n\u00e3o existem? E debelo a simplifica\u00e7\u00e3o da vida contabilizada em duas parcelas opostas que elencam a soma de acertos X erros. Sempre meditei a esse respeito e foi assim que me vali de uma trilha dada por Oswaldo Montenegro na can\u00e7\u00e3o \u201c<em>Metade<\/em>\u201d, e em minha melhor metade interior identifiquei a explos\u00e3o existencial contida no verso \u201c<em>porque metade de mim \u00e9 partida\/ mas a outra metade \u00e9 saudade<\/em>\u201d. Explico-me&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Nelson-Rodrigues.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18931\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Nelson-Rodrigues-338x450.jpg\" alt=\"\" width=\"338\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Nelson-Rodrigues-338x450.jpg 338w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Nelson-Rodrigues-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Nelson-Rodrigues-768x1023.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Nelson-Rodrigues-1153x1536.jpg 1153w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Nelson-Rodrigues.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Nelson Rodrigues sugeria envelhecer logo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Aprendi atribuir \u00e0 passagem dos 59 para os 60 anos o marco divisor de minha exist\u00eancia. Sim, como se sinalizasse uma fra\u00e7\u00e3o quim\u00e9rica e n\u00e3o medida em cronos, fazer 60 anos me equivaleu \u00e0 mais s\u00e9ria decis\u00e3o sobre meu devir. A carreira do pret\u00e9rito, perfeito ou imperfeito, exigiu pondera\u00e7\u00f5es existenciais, que, afinal, ajudaram supor uma parada, algo como um respiro bilacquiano no tal \u201c<em>mezzo del camim<\/em>\u201d. Metade id\u00edlica sim, porque pode-se imaginar bons anos de uma velhice anunciada depois de um passado fora do <em>script<\/em> esperado. E bem-aventurados os podem optar entre ser um anci\u00e3o desses \u201clegaizinhos\u201d, velhinhos bons, com riso no olhar experiente e plenos de casos para contar. Quem n\u00e3o ousa acatar a quebra do tempo, em oposi\u00e7\u00e3o, haver\u00e1 de ser daqueles vov\u00f4s curtidos em ranzinzices, velhos chatos, pesados, reclam\u00f5es. E sabem o que \u00e9 pior nesse jogo da vida? Alguns nem notam e vivem continuidades son\u00e2mbulas.<\/p>\n<p>No meu caso, a fra\u00e7\u00e3o se deu em dado momento, na exata passagem dos 59 para a os 60 anos, precisamente na v\u00e9spera do meu anivers\u00e1rio. Por l\u00f3gico, esta pondera\u00e7\u00e3o n\u00e3o veio gratuita e isto ali\u00e1s carrega uma historinha com ares de pretenciosa. Conto: naquela virada da noite em que completaria minha sexta d\u00e9cada, resolvi fazer uma pesquisa sobre pessoas nascidas no 15 de mar\u00e7o e foi assim que (re)encontrei Oswaldo Montenegro \u2013 claro, muito mais jovem, vindo ao mundo em 1965. Vasculhando um pouco a vida dele soube que em 1999 havia escrito uma outra can\u00e7\u00e3o que mesmo extra\u00edda de um contexto mais amplo, mexeu definitivamente com minha sensibilidade.<\/p>\n<p>\u201c<em>Lista<\/em>\u201d \u00e9 nome da pe\u00e7a e isso foi disparo para uma decis\u00e3o que tomei exatamente naquela investida: fazer uma declara\u00e7\u00e3o de amor \u00e0 minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria e assumir meu ju\u00edzo sobre quem e com quais coisas queria pavimentar o resto de meus dias.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Drummond.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18932\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Drummond-450x258.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Drummond-450x258.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Drummond-300x172.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Drummond.jpg 610w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Drummond dizia que a felicidade est\u00e1 numa caixa de bombom<\/strong><\/p>\n<p>Com a \u201c<em>Lista<\/em>\u201d em mente, como que prestando conta a mim mesmo, olhei meu plantel de parentes e amigos e quase que rezando fiz \u201c<em>uma lista de grandes amigos<\/em>\u201d, pessoas que \u201c<em>mais via h\u00e1 dez anos atr\u00e1s<\/em>\u201d, e seguindo o andamento do bardo me perguntei \u201c<em>quantos voc\u00ea ainda v\u00ea todo dia\/<\/em><em> Quantos voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o encontra mais?<\/em>\u201d. Fiz uma brincadeira \u00edntima e me dei autoridade para semanas depois dar dimens\u00e3o ao tal envelhecimento rodrigueano.<\/p>\n<p>Inventei um motivo, lan\u00e7amento de livro, e para a solenidade fiz o que devia: separei de conhecidos casais, s\u00f3 as unidades queridas; deixei de fora os indesejados oficiais, pessoas com as quais convivia sem tanto (ou nenhum) querer; pessoalmente, dispensei tr\u00eas \u201cautoridades superiores\u201d e lhes disse, olho no olho, o que sentia a respeito de cada situa\u00e7\u00e3o opressora vivida; respondi a duas cartas que amargavam sil\u00eancio e soltei o verbo libertar na base do \u201cn\u00e3o quero nunca mais\u201d.<\/p>\n<p>Houve algo complementar e de voca\u00e7\u00e3o sublime, pois, sobretudo, escolhi tentar ser melhor com conta acertada sobre o trajeto j\u00e1 cumprido. Devo dizer que n\u00e3o cheguei \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o alguma. N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, mas desde ent\u00e3o estou progressivamente mais tranquilo e cultivo a generosidade como virtude mais exigente de meu lugar no mundo. No mais, vivendo as gra\u00e7as de ter respeitado os mandamentos dos 60 anos, retomo Drummond ao dizer que \u201c<em>h\u00e1 duas \u00e9pocas na vida, a inf\u00e2ncia e a velhice, em que a felicidade est\u00e1 numa caixa de bombons<\/em>\u201d, estou saboreando minha guloseima anci\u00e3 como gosto de decis\u00e3o e coragem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na contram\u00e3o das bobagens que se diz sobre a \u201ceterna juventude\u201d, fa\u00e7o ecoar Nelson Rodrigues sugerindo virtudes no amadurecimento. N\u00e3o se trata de algo panflet\u00e1rio, &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18933,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18930","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18930"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18930\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18934,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18930\/revisions\/18934"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18933"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}