{"id":18901,"date":"2021-03-28T08:41:06","date_gmt":"2021-03-28T11:41:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18901"},"modified":"2021-03-28T08:41:06","modified_gmt":"2021-03-28T11:41:06","slug":"leituras-de-um-viuvo-sobre-viuvas-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/leituras-de-um-viuvo-sobre-viuvas-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"LEITURAS DE UM VIUVO SOBRE VIUVAS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Sim, confesso, \u00e9 muito esquisito ser vi\u00favo. Muito. Demais. A come\u00e7ar pelo verbo \u201cser\u201d que se coloca em condi\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia, no lugar de outro verbo, o \u201cestar\u201d. Ali\u00e1s, em termos verbais deve-se ter em mente a ag\u00eancia passiva, oculta por alguma elipse fantasmag\u00f3rica que, por sua vez, alinha outro verbo, terr\u00edvel, \u201cficar\u201d. Sim \u201cficamos\u201d vi\u00favos sem sequer sermos devidamente consultados. A viuvez \u00e9 uma condena\u00e7\u00e3o injusta, pois acarreta muitas vezes encargos pesados a quem foi vitimado por dores involunt\u00e1rias, impostas pelo que se chama destino. \u00c9 evidente que falo da regra, pois exce\u00e7\u00f5es existem, mas s\u00e3o casos a parte. E sobre n\u00f3s falam barbaridades extremas. Somos aproximados de choro, vela, azar, apontados como carentes. Basta um sol com chuva que \u201ctem casamento da vi\u00fava\u201d, mas h\u00e1 mais, pois na \u00cdndia a coitada tinha que acompanhar o marido morto no barco incendiado. No Brasil antigo, a legisla\u00e7\u00e3o a tornava vulner\u00e1vel e impunha a perda dos \u201cfilhos do leito anterior\u201d caso se casasse novamente. Houve per\u00edodo em que as heran\u00e7as eram passadas para os filhos pois as mulheres seriam incapazes de gerenciar bens. E a s\u00e9rie de piadas que projetam as mulheres vi\u00favas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de megeras vingativas ou senhorinhas necessitadas.<\/p>\n<p>Por certo, domina uma quest\u00e3o de g\u00eanero separando a aceita\u00e7\u00e3o de caos, pois existem muito mais vi\u00favas do que vi\u00favos. Em minha lista pessoal, a cada tr\u00eas mulheres um homem ficou s\u00f3, ainda que sejamos elencados na categoria \u201csexo forte\u201d e elas \u201csexo fr\u00e1gil\u201d. Foi com esta rala estat\u00edstica dom\u00e9stica que dei partida para entendimento da engenharia cultural constru\u00edda pela sociedade que, afinal, estabelece um imagin\u00e1rio sobre a mulher vi\u00fava. Pela literatura, foi f\u00e1cil definir um come\u00e7o: a opereta \u201cA Vi\u00fava Alegre\u201d escrita por Frans Leh\u00e1r . A pe\u00e7a taxada no diminutivo formal depreciado (opereta) j\u00e1 significava algo consequente, pois divergia do g\u00eanero \u00f3pera com aquela gravidade tr\u00e1gica, solene. No caso, foi em Paris que \u201cA Vi\u00fava\u201d estreou em 1904, como um elogio p\u00e2ndego \u00e0 divers\u00e3o, e assim logo se tornou uma esp\u00e9cie de matriz de todo g\u00eanero musical. O que se tem \u00e9 uma trama onde a rica vi\u00fava precisa ser conquistada a qualquer custo sen\u00e3o o pa\u00eds imagin\u00e1rio em que vivia estaria falido.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/nelson_rodrigues1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18903\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/nelson_rodrigues1-450x207.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/nelson_rodrigues1-450x207.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/nelson_rodrigues1-300x138.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/nelson_rodrigues1-768x352.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/nelson_rodrigues1-165x75.jpg 165w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/nelson_rodrigues1.jpg 865w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Nelson Rodrigues e a capa de sua obra &#8220;Vi\u00fava, por\u00e9m honesta&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mais tarde, no contexto brasileiro, Nelson Rodrigues estreou em 1957 o \u201cVi\u00fava, por\u00e9m honesta\u201d, sobre o acometimento exagerado de uma jovem que perde o noivo atropelado por um carrinho de sorvete. Classificado como farsa, a trama mostra um inconformado o pai que monta uma rela\u00e7\u00e3o engra\u00e7ada onde a viuvez \u00e9 apontada como algo bizarro, resolvida apenas quando a filha resolve sentar-se, pois durante todo enredo ela ficava ereta.<\/p>\n<p>A par dessas encena\u00e7\u00f5es, h\u00e1 um pequeno ros\u00e1rio de livros sobre a viuvez que implica a mulher, aqui ou no outro mundo. H\u00e1 um pouco de tudo, depoimentos, entrevistas, romances tr\u00e1gicos, conselhos. Na literatura brasileira, por\u00e9m, h\u00e1 um caso intrigante. Diria que o primeiro texto a sugerir desdobramento entre n\u00f3s foi \u201cEncarna\u00e7\u00e3o\u201d, livro p\u00f3stumo de Jos\u00e9 de Alencar. De 1877, o enredo d\u00e1 conta de um amor que continua depois da morte da amada. A transcend\u00eancia atrapalha a continuidade da vida do vi\u00favo que n\u00e3o consegue esquecer a primeira esposa. Alencar puxa uma trama em que a vi\u00fava assombra o marido e faz a desgra\u00e7a do segundo casamento.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/CAROLINA-NABUCOxDAPHNE-DU-MAURIER.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18904\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/CAROLINA-NABUCOxDAPHNE-DU-MAURIER-450x270.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"270\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/CAROLINA-NABUCOxDAPHNE-DU-MAURIER-450x270.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/CAROLINA-NABUCOxDAPHNE-DU-MAURIER-300x180.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/CAROLINA-NABUCOxDAPHNE-DU-MAURIER-768x461.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/CAROLINA-NABUCOxDAPHNE-DU-MAURIER.jpg 1086w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>At\u00e9 hoje permanece a pol\u00eamica se &#8220;Rebecca&#8221; \u00e9 ou n\u00e3o pl\u00e1gio de &#8220;A Sucessora&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Como se fosse continuidade, outro livro que dialoga com o caso da atormentada \u201cpresen\u00e7a ausente\u201d \u00e9 o intrigante \u201cA sucessora\u201d, de Carolina Nabuco, que conta a trajet\u00f3ria de uma pobre empregada dom\u00e9stica, Marina, que se casou com o abastado vi\u00favo Roberto Steen, e juntos partem da fazenda no interior para a vida na mans\u00e3o dele, no Rio de Janeiro. Desde a chegada, a ex-criada \u00e9 maldosamente contrastada com a \u201cinsubstitu\u00edvel senhora Alice\u201d, cuja mem\u00f3ria \u00e9 constante e desafiadora do amor do homem e da aceita\u00e7\u00e3o geral. \u201cA sucessora\u201d foi lan\u00e7ado em 1934, antes mesmo de um outro livro, sucesso mundial, publicado na Inglaterra em 1938 sob o tema, com o t\u00edtulo \u201cA Mulher Inesquec\u00edvel\u201d, assinado por Daphne du Mourier. A semelhan\u00e7a com o livro brasileiro \u00e9 incr\u00edvel e gera uma pol\u00eamica assaz intrigante, pois garante-se que Carolina fez a tradu\u00e7\u00e3o e a enviou para uma editora inglesa que teria deixado vazar, sugerindo pl\u00e1gio.<\/p>\n<p>Interessa ver que a situa\u00e7\u00e3o da viuvez ficou em evid\u00eancia de maneira a comprometer a continuidade da vida normal das pessoas. E os vi\u00favos ref\u00e9ns de saudade projetavam nas substitutas uma esp\u00e9cie de maldi\u00e7\u00e3o. O sucesso de Rebecca, a personagem inesquec\u00edvel de Daphny du Mourier, fez voos longos chegando ao cinema em obra de Hitchcock e vencendo o Oscar de 1941.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Daphny-du-Mourier-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18905\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Daphny-du-Mourier-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Daphny-du-Mourier-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Daphny-du-Mourier-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Daphny-du-Mourier-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Daphny-du-Mourier-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Daphny-du-Mourier-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Daphne du Mourie escreveu \u201cA Mulher Inesquec\u00edvel\u201d em 1938 na Inglaterra<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico que os textos sobre os vi\u00favos s\u00e3o tamb\u00e9m numerosos, mas eles integram os homens em c\u00edrculos de maior aceita\u00e7\u00e3o, s\u00e3o bem mais benevolentes. A literatura sobre a mulher mantem o controle dos destinos femininos e sobretudo a mant\u00e9m como objeto de riso, fragilidade ou mem\u00f3ria fantasma. Penso que a abordagem das vi\u00favas tem v\u00e1rios endere\u00e7os, mas garanto que para um vi\u00favo recolhido e convicto \u00e9 um bom consolo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, confesso, \u00e9 muito esquisito ser vi\u00favo. Muito. Demais. 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