{"id":18890,"date":"2021-03-21T12:01:42","date_gmt":"2021-03-21T15:01:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18890"},"modified":"2021-03-21T12:01:42","modified_gmt":"2021-03-21T15:01:42","slug":"sindrome-de-stendhal-ou-extase-prazer-e-odio-ante-a-beleza-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/sindrome-de-stendhal-ou-extase-prazer-e-odio-ante-a-beleza-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"SINDROME DE STENDHAL  ou EXTASE, PRAZER E \u00d3DIO ANTE A BELEZA  (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Sim, pode parecer estranho, mas h\u00e1 pessoas que sentem perturba\u00e7\u00f5es incontrol\u00e1veis frente a express\u00f5es de extrema beleza, em particular ante a obras de arte, monumentos, s\u00edtios hist\u00f3ricos ou naturais, pe\u00e7as e lugares \u00fanicos. A no\u00e7\u00e3o de culto ou rever\u00eancia consagrada funciona como esp\u00e9cie de mem\u00f3ria ou dep\u00f3sito de refer\u00eancias que postas \u00e0 prova atestam o melhor da civiliza\u00e7\u00e3o. E isto n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o raro como possa parecer \u00e0 primeira impress\u00e3o, visto que essas ocorr\u00eancias t\u00eam at\u00e9 registros c\u00e9lebres dos quais o seminal remete ao escritor franc\u00eas Stendhal que, ali\u00e1s, emprestou seu nome ao fen\u00f4meno: \u201cs\u00edndrome de Stendhal\u201d.<\/p>\n<p>Em not\u00e1vel livro escrito em 1817, <em>N\u00e1poles e Floren\u00e7a: uma viagem de Mil\u00e3o a Reggio<\/em>, o autor relatou o pr\u00f3prio estado de transcend\u00eancia sentido ao ver os afrescos de Giotto, pintados no teto da Bas\u00edlica de Santa Croce, em Floren\u00e7a. Vale a pena retomar a descri\u00e7\u00e3o de Stendhal ao dizer que sentiu \u201cpalpita\u00e7\u00f5es desordenadas\u201d motivadas pela \u201cformosura da imagem puxada em azul\u201d. Sem ter claro o que se passava, com emo\u00e7\u00f5es incontidas, descreveu padecer naquele instante de \u201cestremecimentos no corpo, o que em Berlim chamam de &#8216;nervos abalados&#8217;\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Stendhal.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18891\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Stendhal-450x288.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"288\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Stendhal-450x288.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Stendhal-300x192.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Stendhal.png 618w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal, emprestou seu nome \u00e0 s\u00edndrome<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Por l\u00f3gico, o tal deslumbramento n\u00e3o ocorre s\u00f3 em Floren\u00e7a e nem afeta apenas observadores famosos. Com o tempo, essa emo\u00e7\u00e3o se amiudou socialmente ganhando const\u00e2ncia, carreando carga de preocupa\u00e7\u00f5es comportamentais. Qualquer ser humano de sensibilidade fora do que se considera normal pode ser acometido desses enlevos, bastando que tenha melindres orientados para um tipo de percep\u00e7\u00e3o sobre o bom gosto consagrado. A exposi\u00e7\u00e3o contemplativa em face de situa\u00e7\u00f5es \u00fanicas provoca um circuito de identifica\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, capaz de inverter os limites de cotidianos pouco entusiasmantes.<\/p>\n<p>H\u00e1, sem d\u00favida, um fator que potencializa possibilidades: o contato direto com os est\u00edmulos que catalisam experi\u00eancias art\u00edsticas exemplares. O te\u00f3rico Walter Benjamin qualifica essas exposi\u00e7\u00f5es com a palavra \u201caura\u201d, ou seja, o impacto deslumbrado produzido pela rela\u00e7\u00e3o direta, pessoal, com a obra de arte ou com situa\u00e7\u00e3o relevante. A \u201ccircunst\u00e2ncia aur\u00e1tica\u201d \u00e9 ent\u00e3o potencializada em algumas pessoas que podem ter rea\u00e7\u00f5es surpreendentes como ficar paralisadas, ter crises de choro, perder a no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o ou tempo, e desmaiar em certos casos.<\/p>\n<p>Desde o crescimento do turismo no mundo moderno, em particular da segunda metade do s\u00e9culo passado em diante, tem havido significativo registros desses casos, fato que preocupa respons\u00e1veis por exposi\u00e7\u00f5es e mostras de arte, giros por lugares hist\u00f3ricos ou religiosos. Al\u00e9m dos contatos com pe\u00e7as exemplares e ambientes privilegiados, o cansa\u00e7o natural de roteiros r\u00e1pidos e o ritmo imprimido pelos programas exaustivos justificam esses acometimentos. De tal forma essas manifesta\u00e7\u00f5es t\u00eam se repetido que h\u00e1 um novo campo da psiquiatria que passa a cuidar do assunto. Em 1979, na It\u00e1lia, Graziella Magherini descreveu o fen\u00f4meno definindo sintomas relacionados a atordoamentos, taquicardia, palpita\u00e7\u00f5es que chegam a comprometer a consci\u00eancia da pessoa que, em certos casos, perdem o equil\u00edbrio, entram em p\u00e2nico. A dura\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno tamb\u00e9m \u00e9 detalhe cuidado, pois h\u00e1 casos de demora na retomada da normalidade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Capa-do-livro-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18892\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Capa-do-livro-1.jpg\" alt=\"\" width=\"185\" height=\"272\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Capa do livro de Graziella Magherini<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o humana com a beleza merece ser considerada em complexidades que v\u00e3o al\u00e9m da objetividade razo\u00e1vel. H\u00e1 dimens\u00f5es ainda pouco sondadas que implicam, por exemplo, a no\u00e7\u00e3o de sublime e a consci\u00eancia da racionalidade. O pr\u00f3prio Stendhal declarou que o contato que teve continha algo de \u201ccelestial\u201d, mas conv\u00e9m supor que o termo \u201csublime\u201d quase sempre \u00e9 vulgarmente considerado no superlativo positivo. Segundo Kant, por\u00e9m, o medo pode conter n\u00edvel de beleza eletrizante. Cabe, no entanto, imaginar que o maravilhoso provoca inclusive dist\u00farbios amedrontadores. Sabe-se, por exemplo, que seus efeitos despertam o que tecnicamente \u00e9 conhecido como \u201cchoque iconoclasta\u201d e inclusive leva pessoas a destrui\u00e7\u00e3o de objetos cultuados. Isso se d\u00e1 em diferentes campos, seja ante objetos de arte ou pe\u00e7as religiosas (sempre presente na mem\u00f3ria brasileira a tentativa impetrada por um fan\u00e1tico que, em 1978 tentou roubar a imagem de Nossa Senhora de Aparecida). S\u00e3o incont\u00e1veis os ataques feitos quadros e est\u00e1tuas famosas, mundo afora.<\/p>\n<p>Em situa\u00e7\u00f5es que se multiplicam n\u00e3o \u00e9 raro encontrar relatos de pessoas que ante a escultura de <em>Davi<\/em> de Michelangelo se imobilizam at\u00f4nitas; outros choram ao ouvir a <em>Nona Sinfonia<\/em> de Beethoven; j\u00e1 vi pessoas se ajoelharem no Museu do Prado frente a tela do <em>Cristo Crucificado<\/em> de Vel\u00e1squez. E quantos relatos h\u00e1 de del\u00edrio ao se deparar com o Monte Fugi, ou no Rio de Janeiro, com as express\u00f5es do contorno do Bondinho do Corcovado na nominada <em>Curva do \u00d3<\/em>. Vitrais s\u00e3o espelhos m\u00e1gicos para apreciadores e nesse quesito os da Notre Dame de Paris competem com os da Mesquita Nasir Al-Mulk de Shiraz no Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o desses deslumbres tamb\u00e9m tem crescido a \u201ccultura dos simulacros\u201d, ou seja, o exagero de reprodu\u00e7\u00f5es baratas de \u201cobras raras\u201d, fato que resulta no que Baudrillard chama de simulacros. Supondo a S\u00edndrome de Standhal, no entanto, o efeito fica ainda maior quando o contraste se evidencia de maneira a produzir maior choque.<\/p>\n<p>H\u00e1 estudos recentes afeitos aos acessos a obras de museus e passeios variados pela internet e a quest\u00e3o que se coloca \u00e9 sobre a sensibilidade na era das m\u00e1quinas. Quais ser\u00e3o as escolhas que faremos na rela\u00e7\u00e3o com o extraordin\u00e1rio? Ter\u00e3o vigor os estudos sobre \u201cS\u00edndrome de Stendhal\u201d, ou a arte perder\u00e1 a for\u00e7a de culto?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, pode parecer estranho, mas h\u00e1 pessoas que sentem perturba\u00e7\u00f5es incontrol\u00e1veis frente a express\u00f5es de extrema beleza, em particular ante a obras de arte, monumentos, &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18893,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18890","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18890"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18890\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18894,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18890\/revisions\/18894"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}