{"id":18881,"date":"2021-03-14T08:39:21","date_gmt":"2021-03-14T11:39:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18881"},"modified":"2021-03-14T08:43:37","modified_gmt":"2021-03-14T11:43:37","slug":"uma-janela-no-meu-tempo-pandemico-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/uma-janela-no-meu-tempo-pandemico-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"UMA JANELA NO MEU TEMPO PAND\u00caMICO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Transformei cuidadores em mestres de folguedos, como gravuras de Heitor dos Prazeres<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em pleno confinamento, imerso em sentimentos curtidos ao longo de mais de um ano restrito \u00e0s paredes de casa, decretei alforria aos pessimismos escravizados em minhas senzalas pessoais. Soltei as agonias enroscadas nas farpas do tempo pand\u00eamico e resolvi flanar, propor enredo \u00e0 hist\u00f3ria deste meu\/nosso momento extraordin\u00e1rio. Dei, consciente, ar a tanta fantasia que ensaiava mofo e nela aos enleios que insistiram em buscas de supostos campos de alfazema. Para tanto, por um bom momento, deixei quieto os notici\u00e1rios, desliguei informa\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas, apaguei dores por mortes de parentes, amigos, conhecidos ou n\u00e3o, e me permiti supor que estat\u00edsticas s\u00e3o po\u00e7\u00f5es de um feiti\u00e7o imaginado, fic\u00e7\u00e3o pura. Na mesma toada, dei corda \u00e0s ilus\u00f5es que transformavam contaminados em anjos barrocos, e cuidadores em mestres de folguedos, algo pr\u00f3ximo das gravuras de Heitor dos Prazeres, das m\u00fasicas infantis de Toquinho e do ballet de Cop\u00e9lia. E foi muito bom.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/poemas-adelia-prado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18882\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/poemas-adelia-prado-450x236.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/poemas-adelia-prado-450x236.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/poemas-adelia-prado-300x158.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/poemas-adelia-prado-768x403.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/poemas-adelia-prado.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Ad\u00e9lia Prado ouvida em sil\u00eancio declamando seus versos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Troquei recursos que abusam de sons por sonatas melodiosas, ouvi o mar imaginado, adivinhei matas em verdes plenos, dei acalanto \u00e0s flores convencionais, coloridas e perfumadas. Ouvi silente o sil\u00eancio e nele a mansa voz cat\u00f3lica de Ad\u00e9lia Prado declamando seu verso mais oportuno, \u201cJanela\u201d:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Janela, palavra linda\/<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Janela \u00e9 o bater das asas da borboleta amarela.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Abre pra fora as duas folhas de madeira \u00e0-toa pintada,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Janela jeca, de azul.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Eu pulo voc\u00ea pra dentro e pra fora, monto a cavalo em voc\u00ea,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Meu p\u00e9 esbarra no ch\u00e3o\/<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Janela sobre o mundo aberta, por onde vi<\/em><em> o casamento da Anita esperando nen\u00e9m,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>A m\u00e3e<\/em><em> do Pedro Cisterna urinando na chuva,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Por onde vi<\/em><em> meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai: minhas inten\u00e7\u00f5es com sua filha s\u00e3o as melhores poss\u00edveis.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00d4 janela com tramela, brincadeira de ladr\u00e3o,<\/em><em> claraboia na minha alma,<br \/>\nolho no meu cora\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>E esvaziado de ruins, pude gozar dos registros sobre meu distanciamento social cumprido. A solenidade do di\u00e1logo pessoal imp\u00f4s brandura e compaix\u00e3o. Periodizei etapas sob o crit\u00e9rio da busca de alternativas redentoras, e, com certo apre\u00e7o, reconheci o primeiro esfor\u00e7o: arrumar a casa, olhar os cantos do meu canto e reconhec\u00ea-los como lar: arm\u00e1rios refeitos, roupas dispensadas, revis\u00e3o de objetos descart\u00e1veis, diria que gastei os primeiros dois ou tr\u00eas meses driblando o medo trocando-o pela reorienta\u00e7\u00e3o caseira. Era como me preparar para uma visita \u00edntima, com o mais centrado encontro de mim com meu eu purificado. Dessa fase, talvez a li\u00e7\u00e3o maior tenha sido a constata\u00e7\u00e3o de que poderia viver com bem menos, sem alguns luxos tolos.<\/p>\n<p>Diria que meu segundo movimento foi estabelecer a\u00e7\u00f5es que me davam prazer e que poderiam me ligar a outras pessoas, sem riscos. E cozinhar virou um verbo conjugado diariamente, sob a pretens\u00e3o de ajudar duas vizinhas dependentes de assist\u00eancia. Foram meses de envios quase di\u00e1rios e estabelecimento de afetos que nutriram aquelas duas vidas que, infelizmente, chegaram a termo no m\u00eas passado. No pulso desse movimento, troquei a obriga\u00e7\u00e3o pela gostosura e me melhorei como cozinheiro. E cresci como gente tamb\u00e9m. Na mesma sanha, defini que elegeria alguns poucos amigos para conversas semanais. Logo eu que detesto telefone, me deixei atrair por uma experi\u00eancia que tanto conforto me trouxe. Optei por fazer diferen\u00e7a em um grupo de amigos de WhatsApp e me dediquei como causa amorosa, tentando encurtar dist\u00e2ncias e conhecer melhor quantos julgava saber.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sermoes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18883\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sermoes-317x450.jpg\" alt=\"\" width=\"317\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sermoes-317x450.jpg 317w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sermoes-211x300.jpg 211w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Sermoes.jpg 352w\" sizes=\"auto, (max-width: 317px) 100vw, 317px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ant\u00f4nio Vieira ajudou a povoar o pa\u00eds da mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Rendo gra\u00e7as a uma pr\u00e1tica que aprendi no confinamento do menino de um col\u00e9gio interno que fui: ler&#8230; Alguma luz divinal sugeriu que eu ordenasse algumas leituras de maneira a corrigir minha forma\u00e7\u00e3o sempre fragmentada. Proust se me apresentou e resolvi retomar p\u00e1gina, por p\u00e1gina os sete livros que comp\u00f5em \u201cEm Busca do tempo perdido\u201d. Nossa, foi uma viagem no pa\u00eds da mem\u00f3ria. Nova s\u00e9rie me plenificou bastante na visita dos \u201cSerm\u00f5es do Padre Ant\u00f4nio Vieira&#8221;. Foram meses perfilando entendimento e admira\u00e7\u00e3o. Senti-me mais maneirista que nunca justificando Pessoa ao coro\u00e1-lo \u201cimperador da l\u00edngua portuguesa\u201d. E passei para outra esfera ao ler tudo de Lobato, da obra infantil \u00e0 adulta. Devo dizer que neste quesito briguei com a cr\u00edtica, me vi convidado a perpetrar artigos e lastimar o que tentam fazer com o nosso \u201ctaubateano rebelde\u201d. Al\u00e9m dessas tr\u00eas s\u00e9ries, outros textos repontaram como brisa no escaldo de um ver\u00e3o louco.<\/p>\n<p>Escrevi muito. Muito. Mais do que nunca, pela escrita pude filtrar significados da passagem solit\u00e1ria pela pandemia. Essa foi\/tem sido outra grande li\u00e7\u00e3o, a consci\u00eancia da solitude. Trabalhando em casa, precisei aprender a dividir o tempo e n\u00e3o me permitir alucinar com a ast\u00facia de sua passagem. Minhas recentes fases t\u00eam sido dif\u00edceis, pois n\u00e3o h\u00e1 como disfar\u00e7ar a dor por tantos amigos que partiram. \u00c9 muito triste e esse imponder\u00e1vel me abate de jeito irremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas, se \u00e9 poss\u00edvel extrair alguma li\u00e7\u00e3o desta experi\u00eancia coletiva, se puder superar o desd\u00e9m de autoridades culpadas, e neste esfor\u00e7o recortar uma moral para a hist\u00f3ria da pandemia, com certeza diria que ela me valeu como a tal janela indicada por Ad\u00e9lia Prado, aquela de folhas que tanto se abrem \u201c<em>pra dentro e pra fora<\/em>\u201d e que, sobretudo, funcionam como \u201c<em>claraboia na minha alma, olho no cora\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. Estou aberto ao que vier. Purificado. Grato por chegar at\u00e9 aqui, esperan\u00e7oso de ir at\u00e9 l\u00e1, mas com a certeza de que fiz o melhor que pude abrindo minhas janelas \u201c<em>como asas de uma borboleta amarela<\/em>\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transformei cuidadores em mestres de folguedos, como gravuras de Heitor dos Prazeres Em pleno confinamento, imerso em sentimentos curtidos ao longo de mais de um &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18884,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18881","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18881"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18881\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18887,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18881\/revisions\/18887"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18884"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}