{"id":18848,"date":"2021-03-07T10:11:22","date_gmt":"2021-03-07T13:11:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18848"},"modified":"2021-03-07T10:19:03","modified_gmt":"2021-03-07T13:19:03","slug":"lobato-neo-caboclo-empresario-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/lobato-neo-caboclo-empresario-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"LOBATO\u00a0 \u201cneo-caboclo-empres\u00e1rio\u201d (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Muitos cr\u00edticos desconhecem as sementes do ramo geracional dos evadidos das fazendas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cReina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d foi o livro que inaugurou minha vida de leitor e, agora, a alegria de saber do relan\u00e7amento em edi\u00e7\u00e3o preparada por Marisa Lajolo provocou retomadas. Eu era garoto ainda e encantado fiquei com as aventuras de L\u00facia, a menina \u201ccor de jambo\u201d, moreninha, como moreninho foi Lobato, neto bastardo da ex-escrava Anacleta do Amor Divino, amante do galhardo Visconde de Trememb\u00e9. Desde aquele ent\u00e3o, nunca me separei de Lobato e adulto tenho voltado a ele n\u00e3o apenas como leitor constante, mas tamb\u00e9m arriscando an\u00e1lises curtidas em instru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, valeparaibanas. Ningu\u00e9m viveria impunemente o esvaziamento declinante das vastas fazendas de caf\u00e9 e as derrocadas das cidades por ele condenadas como \u201cmortas\u201d. Ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Livro-Narizinho.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18849\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Livro-Narizinho.jpg\" alt=\"\" width=\"318\" height=\"438\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Livro-Narizinho.jpg 318w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Livro-Narizinho-218x300.jpg 218w\" sizes=\"auto, (max-width: 318px) 100vw, 318px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Primeira leitura de JC Sebe Bom Meihy<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Emoldurando Lobato em um quadro de classe social sem sa\u00eddas f\u00e1ceis, parece fundamental entender as raz\u00f5es do jovem rapaz formado antes de se mudar para S\u00e3o Paulo e de publicar o conto \u201cIdeias de Jeca Tatu\u201d, em 1918. Num lance geral, resenhando os muitos livros sobre ele, sinto falta de exames de seu perfil talhado na cultura valeparaibana. De modo geral &#8211; com raras exce\u00e7\u00f5es &#8211; tudo \u00e9 mostrado como se Lobato j\u00e1 nascesse adulto, brasileiro nacionalista, sem ser credor de um caipirismo de garras cravadas em sua hist\u00f3ria pessoal, familiar e em contexto espec\u00edfico. E explica-se isso, pois, a reputa\u00e7\u00e3o de personagem p\u00fablico cresceu na surdina de seu jeito de se mostrar, sem revelar a sombra alongada de suas origens. Monteiro Lobato soube contornar o legado \u201cneo-caboclo-empres\u00e1rio\u201d e deixou-se exibir metido a burgu\u00eas, mais exibido como neto do Visconde do que da av\u00f3 negra. E como adentrar em seus escritos sem tais considera\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Historiador de of\u00edcio, taubateano cr\u00f4nico, sinto-me convidado a repensar os fundamentos da gera\u00e7\u00e3o do jovem Lobato como express\u00e3o daquela elite do Vale do Para\u00edba Paulista. Remeto-me assim a um grupo que, internando frustra\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, se posicionou desajeitado na moderniza\u00e7\u00e3o do mercado nacional capitaneado por S\u00e3o Paulo. Condenar o campo e elogiar o sucesso permitido pelos imigrantes, maldizer a agricultura e exaltar a m\u00e1quina, desprezar o caipira em favor do oper\u00e1rio, o obrigou a, despreparado, se fiar na talagar\u00e7a do capitalismo ascendente. E Lobato se perdeu no bordado do tempo moderno e modernista. Sob o signo for\u00e7oso da busca de espa\u00e7o social, a trilha poss\u00edvel o obrigou a ajustes nem sempre bem sucedidos ou, pelo avesso, em diversas ocasi\u00f5es mal resolvidos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-jovem.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18850\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-jovem-450x342.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"342\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-jovem-450x342.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-jovem-300x228.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-jovem-768x584.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-jovem.jpg 984w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Desde jovem, Lobato buscou ajustes nem sempre bem sucedidos\u00a0 ou at\u00e9 mal resolvidos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A sequ\u00eancia de algumas derrotas econ\u00f4micas explica mais do que as fal\u00eancias nos neg\u00f3cios, certo ardor por del\u00edrios que o alucinaram desde sempre: fabricar doces em compotas, ter restaurante em Nova York, publicar livros comest\u00edveis. Desatinos de um caipira que sonhou ser empres\u00e1rio e que, por for\u00e7a de um destino torto e de dif\u00edcil justifica\u00e7\u00e3o, acabou por ser nomeado \u201cadido comercial do Brasil\u201d em miss\u00e3o oficial do governo, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A formula\u00e7\u00e3o da hip\u00f3tese que sustenta explica\u00e7\u00f5es de Lobato pelo legado da cultura valeparaibana reponta como dupla cr\u00edtica historiogr\u00e1fica, ambas \u00e1cidas. A primeira se ampara na n\u00e3o exist\u00eancia de vigorosos estudos regionais, valeparaibanos, capazes de exponenciar os desafios vigentes em uma parcela da elite que se fez, no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, aflorada do mundo do caf\u00e9. Al\u00e9m desse argumento, o segundo perfilhamento cr\u00edtico remete aos estudos que projetam interpreta\u00e7\u00f5es vistas \u201cde fora\u201d, de segmentos que desconhecem as sementes do ramo geracional dos evadidos das fazendas. Assim, cabe propor a provoca\u00e7\u00e3o desse legado cultural nas alternativas econ\u00f4micas e nos textos cr\u00edticos e liter\u00e1rios do \u201ctaubateano rebelde\u201d. A fim de valorizar tal argumento, conv\u00e9m retra\u00e7ar o jovem advogado: educado em Taubat\u00e9, promotor p\u00fablico em Areias, SP, constituindo fam\u00edlia no Vale, e depois fazendeiro em Buquira at\u00e9 1917.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-preso-recortada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18852\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-preso-recortada.jpg\" alt=\"\" width=\"335\" height=\"237\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-preso-recortada.jpg 335w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Lobato-preso-recortada-300x212.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Preso em 1941 por acusar o Conselho Nacional do Petr\u00f3leo de defender empresas estrangeiras<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Consequ\u00eancia do insistente apagamento dessas influ\u00eancias pret\u00e9ritas, o que se tem \u00e9 um cacoete anal\u00edtico que orienta a leitura de Lobato como empreendedor intr\u00e9pido, uma esp\u00e9cie de baluarte da modernidade industrial, entranhado escritor nacionalista, isso e muito mais, tudo sem avaliar as frustra\u00e7\u00f5es que lastrearam seus fracassos sucessivos no mundo dos empres\u00e1rios. Em complemento, seu sucesso liter\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o se faz acompanhar de fatores de sua hist\u00f3ria pessoal, de toques do trato comum aos subalternos do Vale, por exemplo, caracter\u00edstica de um mundo frustrado, rec\u00e9m sa\u00eddo da escravaria. Pelo contr\u00e1rio, ali\u00e1s, o incessante enquadramento nas teorias do tempo mais perturba do que esclarece. E reduz tudo a simplismos exagerados.<\/p>\n<p>O resultado de montanhas de estudos sobre Lobato sem seu passado caipira tem proposto dilemas que complicam sua apreens\u00e3o hoje. A retomada do jovem Lobato, por sua vez, demanda exercitar a inevitabilidade do v\u00ednculo autor\/obra em seu contexto imediato, preso ao andamento da produ\u00e7\u00e3o dos escritos considerados em sua carga de valores. No galope de apagamentos, o que submerge \u00e9 a pot\u00eancia das tradi\u00e7\u00f5es incorporadas nas express\u00f5es de um autor que nunca deixou de ser valeparaibano. Talvez a incapacidade de Lobato de se livrar do remoto passado explique as experi\u00eancias que tentou ao longo de suas andan\u00e7as recheadas de vulnerabilidades: monarquista, comunista, georgista, taylorista&#8230; Eugenista num tempo, espiritualista em outro, Lobato provou de tudo, tudo, sem jamais deixar de ser um caipira no mundo que se movimentava al\u00e9m de seu eixo de controle. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel entender Lobato se o considerarmos um ser em processo de \u201cdescaipiriza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitos cr\u00edticos desconhecem as sementes do ramo geracional dos evadidos das fazendas \u201cReina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d foi o livro que inaugurou minha vida de leitor e, &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18857,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18848","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18848","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18848"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18848\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18854,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18848\/revisions\/18854"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18857"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18848"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18848"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18848"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}