{"id":18817,"date":"2021-02-28T08:33:26","date_gmt":"2021-02-28T11:33:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18817"},"modified":"2021-02-28T08:33:26","modified_gmt":"2021-02-28T11:33:26","slug":"de-cu-pra-lua-e-outros-turpiloquios-jose-carlos-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/de-cu-pra-lua-e-outros-turpiloquios-jose-carlos-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"\u201cDE CU PR\u00c1 LUA\u201d E OUTROS TURPIL\u00d3QUIOS (Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o, n\u00e3o se trata de baixaria, jamais faria isso. Imagine&#8230; Pelo contr\u00e1rio, busco a reden\u00e7\u00e3o de algumas palavras, dizeres e express\u00f5es que s\u00e3o, por diferentes motivos, interditados e, no geral, tidos como avessos civilizat\u00f3rios. Em nome do refinamento imposto pela \u201cnorma culta\u201d, termos \u201cvulgares\u201d t\u00eam se distinguido das manifesta\u00e7\u00f5es depuradas pela chamada \u201cboa educa\u00e7\u00e3o\u201d. Com tens\u00f5es, o abismo se alarga entre o que se diz e o que se escreve, conferindo toler\u00e2ncias filtradas por diferen\u00e7as geracionais, de classes sociais e, sobretudo, de comprometimento erudito. \u00c9 l\u00f3gico que h\u00e1 nuan\u00e7as que calibram extremos (de Greg\u00f3rio de Matos a Jorge Amado, de Chiquinha Gonzaga a Dercy Gon\u00e7alves), exce\u00e7\u00f5es que, contudo, s\u00f3 confirmam a regra.<\/p>\n<p>Sabe-se que o palavr\u00e3o permeia todas as faixas, mas seu uso (cada vez menor) n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o liberado ou libertador como parece \u00e0 primeira vista. Imp\u00f5e-se ent\u00e3o entender enunciados circunstanciais: de quem e para quem, se entre emissores socialmente pr\u00f3ximos ou subalternos, se escritos ou verbalizados.<\/p>\n<p>Sabe-se que na fluidez das falas somos flex\u00edveis, mas quando escrevemos galgamos solenidades \u00e0s vezes perversas&#8230; \u00c9 l\u00f3gico que a l\u00edngua \u00e9 viva, male\u00e1vel, progressiva, mas se isso acontece em ambos os c\u00f3digos, no oral repontam permiss\u00f5es inconvenientes na transposi\u00e7\u00e3o grafada. Ali\u00e1s, \u00e9 na escrita, que a coisa pega mais. Nos deplor\u00e1veis manuais de reda\u00e7\u00e3o &#8211; guias impostos pelos importantes jornais (Folha, Estad\u00e3o, O Globo) \u2013 por exemplo, marcas da fala s\u00e3o proscritas como crimes (\u201ccacete\u201d, \u201cbicha\u201d, \u201cesporro\u201d e at\u00e9 \u201cmembro\u201d devem ser vetados).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Joao-e-dois-Pedros.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18818\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Joao-e-dois-Pedros-450x339.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Joao-e-dois-Pedros-450x339.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Joao-e-dois-Pedros-300x226.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Joao-e-dois-Pedros.png 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>N\u00e3o era refinado o linguajar da fam\u00edlia imperial no Brasil<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sei que a seguinte afirmativa \u00e9 pol\u00eamica, mas na chave do \u201clivre pensar\u201d ouso dizer que a nossa l\u00edngua portuguesa n\u00e3o \u00e9 bonita como ufanistas decantam, longe disso, ali\u00e1s. Cheia de \u201c\u00e3os\u201d e \u201c\u00e3es\u201d, terminantes em \u201cor\u201d, \u201car\u201d, \u201cir\u201d, o uso sugere rimas f\u00e1ceis demais, sem muitos mist\u00e9rios, plenas de solu\u00e7\u00f5es imediatas. Rendo tributo aos poetas lus\u00f3fonos que precisam de muito engenho e arte para dar vida \u00e0 brutalidade das palavras (Pessoa, Drummond, Chico Buarque, Jos\u00e9 Craveirinha e Lu\u00eds Carlos Patraquim que o digam). E mora na exalta\u00e7\u00e3o despudorada da l\u00edngua de Cam\u00f5es certa consci\u00eancia amb\u00edgua que condensa a pen\u00faria c\u00e2ndida contida no verso \u201c<em>\u00faltima flor do l\u00e1cio inculta e bela<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Devo dizer que, meditando sobre alguns pressupostos bilacquianos, encontro amparo na passagem em que ele, em vacilo freudiano, declara \u201c<em>amo-te, \u00f3 rude e doloroso idioma<\/em>\u201d. Em termos comparativos \u00e9 bom que, tendo o latim como matriz, sejam coroadas outras l\u00ednguas muito mais melodiosas e musicais como o italiano, franc\u00eas, espanhol e at\u00e9 o catal\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Fernando-Pessoa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18819\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Fernando-Pessoa-450x254.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Fernando-Pessoa-450x254.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Fernando-Pessoa-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Fernando-Pessoa-768x433.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Fernando-Pessoa.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Fernando Pessoa ajudou a dar vida \u00e0 brutalidade das palavras<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E tem mais, fomos colonizados por um segmento que, frente a fidelidade vernacular, tinha sim algumas exce\u00e7\u00f5es, mas que no geral era muito mal instru\u00eddo em termos de controle formal da l\u00edngua. A corte portuguesa que chegou ao Brasil em 1808 era constitu\u00edda de maioria analfabeta, gente de modos e de falar rude, chulo mesmo, e que maltratava a express\u00e3o oficial e, sobretudo, era dada a palavr\u00f5es que se multiplicavam em col\u00f3quios pouco corteses e at\u00e9, em muitos casos, escatol\u00f3gicos. Dona Carlota Joaquina que o diga. E sabe-se que Dom Pedro I tamb\u00e9m era dono de vocabul\u00e1rio nada condizente com a fantasia de qualquer nobreza. Ademais, numa sociedade escravocrata, a agress\u00e3o cotidiana exercitada n\u00e3o era apenas f\u00edsica, pelo contr\u00e1rio, era coerente com trato verbal.<\/p>\n<p>Houve sim um esfor\u00e7o incontest\u00e1vel de Dom Pedro II no sentido de mudar o perfil de nossa elite institu\u00edda. Chegado \u00e0 ci\u00eancia, devoto de lances da modernidade, o segundo imperador (1840 \u2013 1889) bem que tentou impor certo glamour que, contudo, ficou reduzido a pequeno grupo \u2013 nesse quesito, conv\u00e9m dar uma boa olhada na demora para a valoriza\u00e7\u00e3o das escolas no Brasil &#8211; inclusive na cria\u00e7\u00e3o das universidades que apenas repontaram na Rep\u00fablica. E n\u00e3o podemos nos esquecer que o tempo colonial nos imp\u00f4s um ger\u00fandio cr\u00f4nico, persistente e perturbador (\u201ccontinuando\u201d, \u201cfalando\u201d, \u201cpalavreando\u201d) que se distanciou do portugu\u00eas metropolitano, algo mais exato (\u201ca continuar\u201d, \u201ca falar\u201d e \u201ca palavrear\u201d). Mas nada nos foi mais cruel do que o legado dos chamados turpil\u00f3quios, ou seja, do culto aos palavr\u00f5es que se popularizaram. No cotidiano, soltamos \u201cputa que pariu\u201d, \u201cv\u00e1 a merda\u201d, \u201cp\u00f4\u201d, ou \u201ct\u00f4 de saco cheio\u201d com fluidez at\u00e9 consentida, mas&#8230; Mas n\u00e3o escrevemos com a mesma facilidade.<\/p>\n<p>Todo este trolol\u00f3 se me apresentou frente ao t\u00edtulo de um livro rec\u00e9m lan\u00e7ado no Brasil: \u201cDe Cu Pra Lua: Dramas, Com\u00e9dias e Mist\u00e9rios de um Rapaz de Sorte\u201d. Assinado pelo eterno Nelson Motta, esse garoto de quase 80 anos, trata-se de um relato de mem\u00f3rias pessoais onde o autor narra suas perip\u00e9cias como jornalista, escritor, produtor art\u00edstico. Tudo interessa nessa rota vivencial que tamb\u00e9m \u00e9 nossa, mas para o momento vale ressaltar o t\u00edtulo que, afinal, remete ao alvo desta proposta, pois, se afinal \u201cDe cu pra lua\u201d apenas significa \u201cter sorte\u201d porque usar o \u201cpalavr\u00e3o\u201d na capa? Por estar no lugar certo, na hora certa, Nelsinho quis chamar a aten\u00e7\u00e3o para uma caracter\u00edstica da nossa brasilidade coloquial: a dist\u00e2ncia entre o que se fala e o que se escreve. Ele quis provocar. Eu tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o, n\u00e3o se trata de baixaria, jamais faria isso. 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