{"id":18771,"date":"2021-02-06T12:08:32","date_gmt":"2021-02-06T15:08:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18771"},"modified":"2021-02-06T12:31:09","modified_gmt":"2021-02-06T15:31:09","slug":"cancelar-ou-nao-eis-a-questao-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/cancelar-ou-nao-eis-a-questao-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Cancelar ou n\u00e3o, eis a quest\u00e3o (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Imaginemos \u201catualiza\u00e7\u00f5es\u201d de trabalhos cl\u00e1ssicos. Na pintura, em nome do combate ao preconceito de cor, banir a extensa s\u00e9rie \u201cMulatas\u201d de Di Cavalcanti. O pol\u00eamico \u201cHomem amarelo\u201d de Anita Malfatti deveria ser retra\u00e7ado em colora\u00e7\u00e3o e moldes hel\u00eanicos? De Gauguin (que era mesti\u00e7o peruano\/franc\u00eas) suas \u201ctaitianas\u201d teriam o morado da pele tingido de tons claros, certo isto? E os demais temas ditos pol\u00eamicos? \u201cO sono\u201d de Coubert com duas mulheres se entrela\u00e7ando e \u201cA cria\u00e7\u00e3o do mundo\u201d com exposi\u00e7\u00e3o exuberante do \u00f3rg\u00e3o sexual feminino, deveriam ser banidos? Ali\u00e1s, lembremos dos protestos contra Rembrandt pelo \u201cMonge num campo de milho\u201d, gravura vetada sob o crivo de \u201cdesvio\u201d. Michelangelo legou v\u00e1rias cenas de beijos gays na c\u00fapula da Capela Sistina, vamos mitig\u00e1-los? O que fazer com a infinita representa\u00e7\u00e3o de nus b\u00edblicos e mitol\u00f3gicos constantes de incont\u00e1veis museus mundo afora?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Capela-Sistina.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18772\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Capela-Sistina-450x240.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Capela-Sistina-450x240.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Capela-Sistina-300x160.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Capela-Sistina-768x410.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Capela-Sistina.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Detalhe da obre da Michelangelo na c\u00fapula da Capela Sistina<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No \u00e2mbito da escultura, a aud\u00e1cia mais comentada \u00e9 de Bernini, com o incr\u00edvel olhar lascivo expresso no \u201c\u00caxtase de Santa Teresa\u201d &#8211; que alguns sequer admitem em um altar &#8211; heresia? Valeria pagar supostos politicamente corretos, moralistas, em nome da \u201cevolu\u00e7\u00e3o dos tempos\u201d ou combate a preconceitos? Que fazer ent\u00e3o com os desenhos er\u00f3ticos japoneses, com as ilustra\u00e7\u00f5es do Kama Sutra indiano, com a Suite Vollard de Picasso, cancelar? E com as inscri\u00e7\u00f5es nos muros recuperados de Pomp\u00e9ia; com as audaciosas montagens de Alexandra Rubinstein propondo vis\u00e3o feminista do papel masculino na rela\u00e7\u00e3o sexual; com as fotos sensuais de Henry Cartier-Bresson?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Picasso.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-18773 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Picasso-450x340.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Picasso-450x340.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Picasso-300x227.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Picasso.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><em><strong>Seria o caso de cancelar a Suite Vollard de Picasso<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E nas m\u00fasicas, dever\u00edamos silenciar as deliciosas marchinhas de carnaval \u2013 Braguinha, Jo\u00e3o Roberto Kelly, M\u00e1rio Lago \u2013 e negar \u201cSaudade da Am\u00e9lia\u201d, \u201cAurora\u201d, e mais objetivamente \u201cMulata assanhada\u201d, \u201cO teu cabelo n\u00e3o nega\u201d, \u201cNega do cabelo duro\u201d? E que dizer de \u201cA cabeleira do Zez\u00e9\u201d, \u201cMaria sapat\u00e3o\u201d, \u201c\u00cdndio quer apito\u201d, \u201cA pipa do vov\u00f4\u201d, e do recorrente \u201cVoc\u00ea pensa que cacha\u00e7a \u00e9 \u00e1gua\u201d? Estas, entre centenas de outras pe\u00e7as transpiram provoca\u00e7\u00f5es e picardia que se presentificam afetivamente na mem\u00f3ria coletiva, replicando o que acontece no teatro, cinema, novelas, \u00f3peras, revistas.<\/p>\n<p>Escondem-se nos processos seletivos moralizantes, estrat\u00e9gias pouco discutidas, mas necess\u00e1rias porque reveladoras de pol\u00edticas e pol\u00edcias culturais. Em vista de triagens multiplicadas, pergunta-se dos acervos que n\u00e3o comp\u00f5em a cultura chancelada, seriam desmerecedores de acesso p\u00fablico? Quem decide sobre tais crit\u00e9rios? No geral, contudo, cabe uma quest\u00e3o que n\u00e3o pode mais ser reprimida: como entender a arte fora de seus prop\u00f3sitos questionadores, despistados de nuan\u00e7as subversivas, transgressoras, danadoras do limite da padronagem? \u00c9 exatamente seu germe provocativo que instiga, e \u00e9 por isto tamb\u00e9m que tanto se quer enquadr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Estado, igrejas, institui\u00e7\u00f5es de ensino, insistem em tutelar a produ\u00e7\u00e3o e consumo art\u00edsticos em geral. Muitas vezes, em nome de sua promo\u00e7\u00e3o ou do patroc\u00ednio criam-se mecanismos de triagem, e ent\u00e3o o veto se apresenta como solu\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel. A qualifica\u00e7\u00e3o da arte oficial, por s\u00e9culos se vale de regras disciplinadoras para definir o que pode e o que n\u00e3o deve ser considerado aceit\u00e1vel, conveniente, oportuno. Tudo em nome da sacrossanta moral e dos bons costumes. E crescem leis justificadoras de limites, proibi\u00e7\u00f5es, banimentos. Isso, diga-se, \u00e9 estranho no contempor\u00e2neo, mas ainda mais em express\u00f5es do passado, sugerindo releituras, reescritas e edi\u00e7\u00f5es. Em nome de ressignifica\u00e7\u00f5es bastardas n\u00e3o se medem esfor\u00e7os para viol\u00eancias inclementes, sempre idiotas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Benini.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18776\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Benini-450x353.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"353\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Benini-450x353.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Benini-300x235.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Benini.jpg 737w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><em><strong>Seria heresia admirar o \u201c\u00caxtase de Santa Teresa&#8221; de Bernini?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O caso da literatura, no conjunto de manifesta\u00e7\u00f5es censur\u00e1veis, por sua g\u00eanese inerente \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o da sociedade, potencializa complica\u00e7\u00f5es, pois s\u00e3o operadas em nome de causas justas e de direitos humanos. Suponhamos, por exemplo, acabar com a discuss\u00e3o sobre \u201cpreconceito de marca\u201d em \u201cA escrava Isaura\u201d de Bernardo Guimar\u00e3es, ou ainda refazer o delicioso perfil de Gabriela (que afinal s\u00f3 se casou porque um \u00e1rabe, seu Nacib, a aceitou). Vamos \u201ccorrigir\u201d, ou \u201cpassar a limpo\u201d, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Pl\u00ednio Marcos, Rubem Fonseca, Rose Marie Muraro, Cassandra Rios, Z\u00e9firo? Discutir ou cancelar, eis a quest\u00e3o! Ali\u00e1s, que dizer de nossa literatura nacional inteira onde poucas negras ficam gr\u00e1vidas, n\u00e3o se casam, n\u00e3o constituem fam\u00edlias? Vamos execrar esses livros, ou pelo contr\u00e1rio, vamos abri-los para discuss\u00f5es sobre o que era e o que \u00e9 hoje?<\/p>\n<p>O revisionismo tem estrada garantida nos debates sobre g\u00eanero e ra\u00e7a, e assim, travestindo-se de tema da hora, se al\u00e7a \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mutilador autorizado. E que se danem os anacronismos, ou seja a rela\u00e7\u00e3o com o tempo da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Sob tal pressuposto lembremos que a B\u00edblia cont\u00e9m 23 men\u00e7\u00f5es valorativas do consumo do sal \u2013 \u201cvoz sois o sal da terra\u201d \u2013, tais passagens deveriam ser modificadas frente a condena\u00e7\u00e3o do consumo de s\u00f3dio? \u00c9, ali\u00e1s, exatamente pela adequa\u00e7\u00e3o da obra ao seu momento hist\u00f3rico que se pretende ferir a discuss\u00e3o, e nela perguntar por que Monteiro Lobato tem sido t\u00e3o vitimado? Bem, este \u00e9 outro debate e merece reflex\u00e3o espec\u00edfica, mas vale destac\u00e1-la na cultura do cancelamento. E cabe devotar aten\u00e7\u00e3o a esse tema como pretexto para discuss\u00f5es sadias porque exigentes de conhecimento hist\u00f3rico e de bom senso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imaginemos \u201catualiza\u00e7\u00f5es\u201d de trabalhos cl\u00e1ssicos. 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