{"id":18680,"date":"2021-01-17T10:10:36","date_gmt":"2021-01-17T13:10:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18680"},"modified":"2021-01-17T10:10:36","modified_gmt":"2021-01-17T13:10:36","slug":"carlos-zefiro-o-sacana-pertinente-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/carlos-zefiro-o-sacana-pertinente-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"CARLOS Z\u00c9FIRO, O SACANA PERTINENTE (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>para S\u00edlvio Tendler, leitor atento<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Sempre me questiono sobre personagens perturbadores da nossa hist\u00f3ria t\u00e3o comportada. Quando a intensidade aperta, com meus bot\u00f5es, indago daqueles tipos que caberiam numa caixinha diferenciada, composta por personagens que n\u00e3o se ajeitariam no figurino apertado do <em>bom-mocismo<\/em> nacional. N\u00e3o falo, portanto, de her\u00f3is oficializados por um tipo de conhecimento carimbado na exclusividade conveniente do \u201cordem e progresso\u201d. N\u00e3o. Na listinha secreta de meus (des)amados \u2013 no padr\u00e3o liter\u00e1rio ocidental Georges Bataille os chamou de \u201cmalditos\u201d \u2013 n\u00e3o faltam indica\u00e7\u00f5es que variam de acordo com o momento em que a quest\u00e3o \u00e9 apresentada.<\/p>\n<p>O arco de possibilidades de meus delirantes cobre tipos plurais que v\u00e3o de Madame Sat\u00e3 a Raul Seixas, passando por refer\u00eancias femininas como Chiquinha Gonzaga at\u00e9 \u00c2ngela R\u00f4-r\u00f4. No contexto em que vivemos, \u00e9 claro que o pante\u00e3o masculino \u00e9 bem mais frequentado e inclui tipos hist\u00f3ricos como os pol\u00eamicos Calabar, Joaquim Silv\u00e9rio dos Reis ou mesmo alguns contempor\u00e2neos que causam controv\u00e9rsia como Simonal, Nelson Rodrigues, Pl\u00ednio Marcos. Mas, a par desses exemplos mais exibidos temos outros que vistos em suas singularidades d\u00e3o trabalho \u00e0 nossa imagina\u00e7\u00e3o insatisfeita. Entre tantos, tem um sujeito discreto, senhor de apar\u00eancia assisada, pouco notado, mas que visto pelo avesso da seriedade moralista ganha dimens\u00f5es surpreendentes: Alcides Aguiar Caminha.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/convento.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18681\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/convento-311x450.jpg\" alt=\"\" width=\"311\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/convento-311x450.jpg 311w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/convento-207x300.jpg 207w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/convento-768x1113.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/convento.jpg 984w\" sizes=\"auto, (max-width: 311px) 100vw, 311px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Devo dizer antes de tudo que este meu personagem escolhido na oportunidade do agora foi um fulano sobretudo camuflado, liso, capaz de disfarces eficientes, e, mais do que isso, soube dignificar o \u201c<em>n\u00e3o t\u00f4 nem a\u00ed<\/em>\u201d. Pois \u00e9, por anos a fio, ele fez quest\u00e3o de viver em seu delicioso anonimato, longe de olhos ajuizados ou da sedu\u00e7\u00e3o dos not\u00e1veis. N\u00e3o que n\u00e3o fosse merecedor de todas as aten\u00e7\u00f5es, mas por determina\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria preferiu n\u00e3o aparecer, ainda que tenha sido um dos principais influenciadores da moderna cultura urbana brasileira.<\/p>\n<p>Mas quem foi o tal \u201cseu Alcides\u201d? Projetando-se como modesto funcion\u00e1rio p\u00fablico do Minist\u00e9rio do Trabalho no Rio de Janeiro, quem o via sempre s\u00e9rio, conhecido como bom pai de cinco filhos, casado por mais de 25 anos, nunca poderia supor que se tratava do mais importante porn\u00f3grafo popular brasileiro. Escondido como soube se fazer, seus leitores jamais imaginariam a complexa personalidade internada naquele senhor suburbano, classe m\u00e9dia, \u201cnormal demais\u201d. Vivendo entre 1921 e 1992, o tal an\u00f4nimo Caminha se escondia sob o pseud\u00f4nimo Carlos Z\u00e9firo, autor dos aclamad\u00edssimos \u201cCatecismos\u201d, ou seja, das revistinhas de sacanagem que atravessaram d\u00e9cadas, e at\u00e9 hoje causam frisson.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Primeira-vez.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18682\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Primeira-vez-317x450.jpg\" alt=\"\" width=\"317\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Primeira-vez-317x450.jpg 317w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Primeira-vez-211x300.jpg 211w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Primeira-vez.jpg 633w\" sizes=\"auto, (max-width: 317px) 100vw, 317px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tudo interessa no caso de Z\u00e9firo. Supostamente inspirado em um conhecido porn\u00f3grafo mexicano que lhe serviu de impulso, dele assumiu o tipo de hist\u00f3rias curtas, ainda que se diferenciasse nos tra\u00e7os e demais detalhes. Cenas de sacanagem explicitas, com palavreado chulo, enxuto, mas objetivo e provocador, as transas eram resolvidas em parcas sequ\u00eancias de at\u00e9, no m\u00e1ximo, 32 p\u00e1ginas ilustradas. Das primeiras \u00e0s derradeiras publica\u00e7\u00f5es, h\u00e1 alguma evolu\u00e7\u00e3o nas solu\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas, e at\u00e9 nos desenhos, mas nada que revolucionasse a proposta matriz. O que realmente interessava era o exagero das formas anat\u00f4micas grosseiras, tanto das mulheres como dos homens. Com sequ\u00eancias simples, previs\u00edveis, os personagens multiplicavam tipos identific\u00e1veis no cotidiano. Normalistas, enfermeiras, primas, vizinhas, virgens ou casadas infelizes, elas se compunham com pares sempre potentes e sedutores. E nas tramas, valia tudo. Tudo. Ah, havia lugar tamb\u00e9m para feias, velhos e velhas, religiosos, pedreiros, viajantes, deficientes f\u00edsicos. E muitas vezes as sess\u00f5es eram de mais de dois.<\/p>\n<p>Enfim, as revistinhas \u2013 sempre mencionadas no singular \u2013 tornaram-se famosas e uma depois da outra, sem marcar nexos narrativos, compuseram leituras constantes de pelo menos duas gera\u00e7\u00f5es de nossos jovens \u2013 homens e mulheres. No formato aproximado de 14 x 24, com poucas exce\u00e7\u00f5es, os exemplares eram distribu\u00eddos por um sebo no centro do Rio e vendidos em bancas de jornais em todo pa\u00eds. Chama muito a aten\u00e7\u00e3o essa pr\u00e1tica ter atravessado todo regime militar, mesmo os anos da censura mais acentuada. Cabe, ent\u00e3o, a pergunta que n\u00e3o merece mais ser evitada: como e por que isto se deu? E a resposta vem pelo alentado p\u00fablico consumidor, curiosos aprendizes e sacanas reprimidos. Z\u00e9firo educava, compensando interditos moralistas t\u00e3o evidentes no Brasil. Z\u00e9firo motivava, ilustrando fantasias reprimidas. Z\u00e9firo libertava a imagina\u00e7\u00e3o sexual contida.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Chupada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18683\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Chupada-315x450.jpg\" alt=\"\" width=\"315\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Chupada-315x450.jpg 315w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Chupada-210x300.jpg 210w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Chupada.jpg 486w\" sizes=\"auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das aventuras de Z\u00e9firo \u2013 ali\u00e1s do \u201cseu Alcides\u201d \u2013 poderia ter passado sem destaque n\u00e3o fosse a aud\u00e1cia de Juca Kfouri que, em 1991, publicou na Revista Playboy (edi\u00e7\u00e3o 196) o resultado de uma investiga\u00e7\u00e3o intrincada. Antes, alguma coisa repontava aqui e ali: Geraldo Galv\u00e3o Ferraz o revelou e em seguida o cartunista\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ota_(cartunista)\">Ota<\/a> somou-se a novos como Joaquim Marinho, e depois Otac\u00edlio D\u2019Assun\u00e7\u00e3o, Arnaldo Jabor, Erika Cardoso, Roberto DaMatta e principalmente Gon\u00e7alo J\u00fanior que o \u00a0sugeriu como simp\u00e1tico liberador da libido nacional. Na sequ\u00eancia da consagra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Z\u00e9firo, destaque desafiador deve ser dado ao documentarista Silvio Tendler, que produziu um filme, \u201cEm busca de Carlos Z\u00e9firo\u201d, dando luz \u00e0 trajet\u00f3ria do senhor porn\u00f3grafo. Ali\u00e1s, mais do que isso, pelo cinema, Tendler desnudou um moralismo cr\u00f4nico entre n\u00f3s, evidenciando o impacto ineg\u00e1vel dos \u201cCatecismos\u201d na forma\u00e7\u00e3o de influentes personalidades da nossa cultura.<\/p>\n<p>Z\u00e9firo faria 100 no pr\u00f3ximo setembro e isto permite que repensemos o papel da censura no Brasil recente. As repetidas interdi\u00e7\u00f5es da divulga\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria de Caminha revelam a resist\u00eancia do conservadorismo de nossa sociedade, que ainda se aquieta na hipocrisia expressa no n\u00e3o reconhecimento da express\u00e3o de Z\u00e9firo como tipo hist\u00f3rico, aqui saudado como nosso \u201csacana pertinente\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>para S\u00edlvio Tendler, leitor atento \u00a0Sempre me questiono sobre personagens perturbadores da nossa hist\u00f3ria t\u00e3o comportada. 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