{"id":18668,"date":"2021-01-10T07:22:58","date_gmt":"2021-01-10T10:22:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18668"},"modified":"2021-01-10T07:22:58","modified_gmt":"2021-01-10T10:22:58","slug":"meu-melhor-amigo-desconhecido-eric-nepomuceno-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/meu-melhor-amigo-desconhecido-eric-nepomuceno-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Meu melhor amigo desconhecido: ERIC NEPOMUCENO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Quando era crian\u00e7a, bem menino ainda, tinha um amigo invis\u00edvel. Alfredo era o nome dele. E com o tal Alfredo confidenciava minhas infelicidades mal brotadas. Cresci um pouco e fui parar num col\u00e9gio interno. Aluno por demais comportado, por mim adentro soltava iras revoltadas. Alfredo me ouvia cumplice, imp\u00e1vido, fiel, presente. E eu reclamando chorava, maldizia a vida mapeando labirintos futuros. Com os anos, fui esquecendo e n\u00e3o mais soube do Alfredo. Desapareceu. Sumiu.<\/p>\n<p>Lembrei-me dessa passagem pouco tempo atr\u00e1s, precisamente dia 20 de setembro de 2020. Confesso que tanto 20 me assustava, seria pren\u00fancio? Li no jornal um artigo intitulado \u201cEduardo Galeano, um homem de d\u00favidas\u201d assinado por Eric Nepomuceno. As palavras do texto, letra por letra, frase por frase, me exigiram um certo passado. Mais do que Galeano \u2013 que por si s\u00f3 bastaria \u2013 me indagava sobre o recado dado pela refer\u00eancia ao uruguaio fraterno que adotou como seu o dono do artigo. E dei estrada para a figura do jornalista, tradutor, escritor, sobretudo para o memorialista Eric Nepomuceno. Prof\u00edcuo senhor de extensa obra, de um jeito ou de outro minha sombra sempre acompanhou seus retra\u00e7os cr\u00edticos, seus contos e reportagem. Eric me trazia de volta o agora velho Alfredo.<\/p>\n<p>Sabe aquela flor discreta desapercebida num canteiro de rosas expostas? Para mim, Eric sempre foi assim. Mais complexo e brilhante que muito outros exemplares da flora liter\u00e1ria, ele sempre esteve presente, sem nunca se afigurar com pares competitivos tais como Guimar\u00e3es, Jorges, Clarices ou Caios. Discreto, talvez tenha se disfar\u00e7ado atr\u00e1s do inc\u00f4modo cigarro, da barba que me faz imaginar sua cara lisa, dos \u00f3culos arredondados, ou mesmo perdido nas fronteiras de textos indecisos na determina\u00e7\u00e3o formal. E que dizer do som de sua voz calma na apar\u00eancia, diab\u00f3lica nos elogios sempre fundamentados. Soube outro dia que ele morou em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos e imaginei nisso alguma misteriosa tang\u00eancia \u2013 sou do mesmo Vale. Ilus\u00e3o, ilus\u00e3o tola, n\u00e3o era por a\u00ed. Na verdade, uma sonda breve bastou para garantir que fora pela escrita que Eric se tornou o meu Nepomuceno iluminado, aquele que volta e meia dialoga comigo e me faz pensar na oportunidade da escrita. Tanto ele usa a pr\u00f3pria gera\u00e7\u00e3o como fator explicativo de um t\u00f4nus cultural que o imagino s\u00edntese de tudo e de todos que viveram os anos lagrimados em ditaduras excludentes. Eric Nepomuceno, vida afora, perseguidor de setent\u00f5es dist\u00f3picos navegantes de inexplicadas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Eric.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18669\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Eric-450x327.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"327\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Eric-450x327.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Eric-300x218.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Eric.png 742w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Primeira cr\u00f4nica de Eric Nepomuceno no Jornal CONTATO 293, em dezembro de 2008<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Frente ao texto do artigo sobre Galeno, resolvi dar alguma satisfa\u00e7\u00e3o a esse meu relacionamento unilateral; unilateral, mas suficiente para conferir alma a essa estranha maneira de sentir algu\u00e9m que exerce poder sobre minha vontade de cultura. Diria que foi pelo culto \u00e0 mem\u00f3ria que me expliquei. Como poucos Eric Nepomuceno conta, fala de si e redesenha seus amigos mais que amados. Leitor, sinto-me parte dessas conversas e amo todos num fogar\u00e9u lenhado por Garcia Marques, Rulfo, Cert\u00e1zar, Borges, Lygia, Hatoum, Salem. E n\u00e3o faltam livrarias, restaurantes, bares e confid\u00eancias, muitas confid\u00eancias, despedidas fatais. E tudo \u00e9 t\u00e3o suave em Eric, t\u00e3o redondo que me deixo perder nas curvas de um pret\u00e9rito que me converte, a cada vez mais, em latino-americano. E narrativas somadas convergem para uma autenticidade que n\u00e3o se melindra na considera\u00e7\u00e3o de Hemingway, Baldwin, Ondjaki.<\/p>\n<p>Com conta\u00e7\u00e3o feita de saudade e bom gosto, seus textos Nepumiceneados s\u00e3o bastantes e suas falas mais parecem suplemento de tantas, incr\u00edveis, aventuras liter\u00e1rias. E fala tamb\u00e9m de cozinha, de guiar autom\u00f3veis, de bebidas, e assim pouco escapa de sua escrita despontada l\u00e1 atr\u00e1s, na adolesc\u00eancia de leitor continuado. \u00c9 verdade que n\u00e3o h\u00e1 como se referir a Eric sem mencionar suas tradu\u00e7\u00f5es. Premiado, faz do reconhecimento objeto de valor indicativo, mas nada que corrija a rota de novos c\u00e9us. Tenho comigo, por\u00e9m, que a tradu\u00e7\u00e3o \u2013 ele garante que faz \u201ctradu\u00e7\u00e3o afetiva\u201d \u2013 resulta de finezas raras, doa\u00e7\u00e3o total, um colocar-se no lugar do autor de maneira a se tran\u00e7ar-se al\u00e9m da t\u00e9cnica ou do dom\u00ednio da l\u00edngua.<\/p>\n<p>A mim, em sua fic\u00e7\u00e3o, particularmente chama a aten\u00e7\u00e3o as hist\u00f3rias de linhagens familiares. \u00c9 a\u00ed que, saindo da escrita, o pai real surge e dele emerge o filho Felipe, cineasta que o reinventa como comunicador. Mas isso \u00e9 destilado. Ao contar, por exemplo, os encontros de seu pai cientista com Darcy Ribeiro faz vibrar nos leitores a imagem de compromissos sociais cumpridos na moldura \u00fanica da democracia. Eric se exilou e consigo levou o Brasil para sua Am\u00e9rica Latina, e, ent\u00e3o, Montevideu, Buenos Aires, a Cidade do M\u00e9xico tornam-se cen\u00e1rios esparramados de uma ternura pol\u00edtica quase infantil. N\u00e3o satisfeito em escrever \u2013 e contar como faz bendizendo as papelarias, o l\u00e1pis e o papel \u2013 precisou da imagem e ent\u00e3o, como na fic\u00e7\u00e3o, agora faz pequenos clips que posta nas redes sociais e est\u00e3o dispon\u00edveis no youtube (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=P6dK2Acsq4k\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=P6dK2Acsq4k<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Sebe-cronica.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18670\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Sebe-cronica-450x315.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"315\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Sebe-cronica-450x315.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Sebe-cronica-300x210.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Sebe-cronica.png 726w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Cr\u00f4nica de Mestre Sebe na mesma edi\u00e7\u00e3o de estreia de Eric Nepomuceno<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Devo dizer que estive pessoalmente com Eric apenas uma vez. E foi em situa\u00e7\u00e3o confusa. Renato Teixeira se apresentaria um show no Rio e me senti convidado. Fui. Chorei muito e ao final fui abra\u00e7ar meu menestrel c\u00famplice de vida. Surpresa absoluta, Eric estava l\u00e1. Eu o reconheci, disse ser seu leitor e me intimidei ao mencionar que, por vezes, fui seu vizinho nas p\u00e1ginas do Contato, reunido por editor comum. Foi assim, algo sem muita gra\u00e7a e com toda a disfar\u00e7\u00e1vel naturalidade que o momento impunha que o vi pessoalmente uma \u00fanica vez. Estrela cadente que al\u00e9m de tudo me faz pensar no velho Alfredo, meu amigo invis\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando era crian\u00e7a, bem menino ainda, tinha um amigo invis\u00edvel. Alfredo era o nome dele. 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