{"id":18644,"date":"2020-12-26T09:19:53","date_gmt":"2020-12-26T12:19:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18644"},"modified":"2020-12-26T09:19:53","modified_gmt":"2020-12-26T12:19:53","slug":"este-ano-eu-nao-morro-daniel-aarao-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/este-ano-eu-nao-morro-daniel-aarao-reis\/","title":{"rendered":"\u201cEste ano eu n\u00e3o morro\u201d (Daniel Aar\u00e3o Reis)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Nesta sinistra pandemia, a ideia de que viveremos livres, corajosos e solid\u00e1rios foi o melhor presente de Natal que eu poderia receber de Leandro Roque de Oliveira, o\u00a0Emicida, <\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u2018Esta noite vai transformar muita gente\u2019. Uma noite calma e sem vento, uma quarta-feira inusitada de novembro de 2019. Aconteceu no Theatro Municipal de S\u00e3o Paulo, apropriado por mulheres, crian\u00e7as e homens negros. As escadarias e balaustradas de m\u00e1rmores brancos e coloridos, os tapetes vermelhos, os pesados lustres de cristais, pasmados de surpresa, nunca tinham visto coisa igual. Em cena, o show \u201cAmarElo, \u00e9 tudo pra ontem\u201d, liderado por um jovem, cujo nome de batismo, Leandro Roque de Oliveira, s\u00f3 a m\u00e3e conhece.<\/p>\n<p>Cabelos crespos que assumem diferentes formas segundo a disposi\u00e7\u00e3o e o humor, rosto meio arredondado, \u00f3culos de aro fino, olhar algo triste e melanc\u00f3lico, perpassado pela ironia, sujeito ao riso franco, mas atravessado, \u00e0s vezes, pela raiva, fez-se conhecer nas quebradas e nos morros, no asfalto e nas cidades, por Emicida.<\/p>\n<p>\u201cMeus sonhos e lutas come\u00e7aram muito antes da minha chegada.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Machado-Assis.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18645\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Machado-Assis-450x263.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Machado-Assis-450x263.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Machado-Assis-300x175.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Machado-Assis.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Machado de Assis<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Num primeiro movimento, a recupera\u00e7\u00e3o do passado e, no passado, o protagonismo do povo negro. Rebobinando o tempo, o encontro com as Irmandades Negras e com Geraldo, o Tebas, primeiro arquiteto de S\u00e3o Paulo, cujo nome foi apagado, mas cujas m\u00e3os marcaram a primeira vers\u00e3o da S\u00e9 e do chafariz da Miseric\u00f3rdia. E mais o Aleijadinho, Mestre Valentim, os irm\u00e3os Rebou\u00e7as, o abolicionista Luis Gama, Tia Ciata, Teodoro Sampaio, Enedina Alves, Machado de Assis. Adentrando o s\u00e9culo XX, Ismael Silva, Pixinguinha e Donga, os Oito Batutas e a inven\u00e7\u00e3o do samba, o encontro com o modernismo, a descoberta do negro pelas artes pl\u00e1sticas, a descoloniza\u00e7\u00e3o do saber e a valoriza\u00e7\u00e3o das cores, da atmosfera, dos gostos, dos paladares e dos sabores populares. Sem esquecer o Bide e a cria\u00e7\u00e3o das escolas de samba.<\/p>\n<p>Mestre Mar\u00e7al conta: \u201cH\u00e1 controv\u00e9rsias quanto ao tamborim, mas n\u00e3o se discute que o Bide fez o surdo de uma lata de manteiga e papel de saco de cimento. Umedeceu o papel, botou na lata de manteiga, amarrou com arame, acabou de umedecer o papel, deu um calorzinho no fogo, s\u00f3 para dar uma sonoridade e desceu para o Largo do Est\u00e1cio\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pixinguinha.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18646\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pixinguinha-450x345.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"345\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pixinguinha-450x345.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pixinguinha-300x230.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pixinguinha-768x589.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Pixinguinha.jpg 1305w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Pixinguinha<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Chegando mais perto, a Frente Negra brasileira, Abdias Nascimento, o Teatro Experimental do Negro e a imensa Ruth de Souza. D. Ivone Lara e L\u00e9lia Gonzalez com a proposta de um portugu\u00eas espec\u00edfico, o pretogu\u00eas. Os veteranos do Movimento Negro Unificado, ovacionados, emocionados, emocionando. E a eleg\u00e2ncia invulner\u00e1vel de Wilson das Neves. Mesmo assim, a certeza de que os desafios com que lidam os negros s\u00e3o mais pesados. Diziam as tias: \u201cC\u00ea j\u00e1 \u00e9 preto, vai ter que fazer dez vezes melhor para ser igual. Quando voc\u00ea \u00e9 um corpo preto, a compreens\u00e3o e o pr\u00f3prio luto s\u00e3o menores\u201d. Larissa Luz complementa: \u201cA felicidade do branco \u00e9 plena, a do preto \u00e9 quase\u201d.<\/p>\n<p>Num segundo movimento, a abertura para o mundo: Aim\u00e9 C\u00e9saire, Senghor, Luther King, Angela Davis, Malcolm X, os Panteras Negras, Nelson Mandela. \u201cRodei o globo e hoje t\u00f4 certo de que todo mundo \u00e9 um.\u201d Ampliando a vis\u00e3o, a integra\u00e7\u00e3o das demandas. Combater de forma unificada as exclus\u00f5es de classe, de ra\u00e7a e de g\u00eanero. Para superar as desigualdades e injusti\u00e7as, \u201ca \u00fanica coisa que a gente tem \u00e9 uns aos outros&#8230; tudo, tudo que n\u00f3iz tem \u00e9 n\u00f3iz mesmos. E, se a gente se desconecta, fudeu\u201d. Personificando a amplitude, a cita\u00e7\u00e3o de Oswald de Andrade (\u00e9 no encontro que nossa exist\u00eancia faz sentido) e a presen\u00e7a de Fernanda Montenegro, recitando Ism\u00e1lia, a que desejava as luas do c\u00e9u e do mar, a alma subiu ao c\u00e9u, mas o corpo desceu ao mar.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Martin-Luther-King.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18647\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Martin-Luther-King-450x236.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Martin-Luther-King-450x236.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Martin-Luther-King-300x158.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Martin-Luther-King-768x403.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Martin-Luther-King.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Martin Luther King<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do futuro melhor depender\u00e1 da capacidade de articula\u00e7\u00e3o, vontade determinada e raiva no cora\u00e7\u00e3o. Que \u00e9 como cantam, em trio, Majur, Pablo Vittar e Emicida, os belos versos de Belchior: \u201cTenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro, ano passado eu morri, mas este ano eu n\u00e3o morro\u201d.<\/p>\n<p>Nesta sinistra pandemia, a ideia de que viveremos livres, corajosos e solid\u00e1rios foi o melhor presente de Natal que poder\u00edamos ter. Obrigado, Emicida<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sinistra pandemia, a ideia de que viveremos livres, corajosos e solid\u00e1rios foi o melhor presente de Natal que eu poderia receber de Leandro Roque &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18648,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18644","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18644","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18644"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18644\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18649,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18644\/revisions\/18649"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18648"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}