{"id":18624,"date":"2020-12-13T10:21:58","date_gmt":"2020-12-13T13:21:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18624"},"modified":"2020-12-13T10:21:58","modified_gmt":"2020-12-13T13:21:58","slug":"la-onde-deixei-meu-coracao-de-menino-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/la-onde-deixei-meu-coracao-de-menino-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"L\u00e1 onde deixei meu cora\u00e7\u00e3o de menino&#8230;(JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>TCC, um clube entre os anos dourados e os anos de chumbo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Lembro-me de versos que sempre me v\u00eam \u00e0 cabe\u00e7a em situa\u00e7\u00f5es especiais. O poeta ent\u00e3o parece me dizer baixinho, quase murmurando: &#8220;Entre devagar\/ quieto, leve, manso\/ deixe apagadas as luzes\/ dos cantos do passado\/ desmonte a b\u00fassola\/ para aprender a n\u00e3o retornar\/ Entre, mas uma vez s\u00f3, e n\u00e3o volte nunca mais\u201d. Estas palavras, confesso, rondaram minhas noites e dias recentes, tomaram conta de mim, e se infiltraram em meus dedos ao escrever esta cr\u00f4nica anunciada. Diria mesmo que n\u00e3o fui o autor do enunciado que segue, foi o poema.<\/p>\n<p>Tudo isto porque me comprometi a falar sobre um lugar especial de minha juventude, um clube da minha interiorana Taubat\u00e9. Da minha Taubat\u00e9 que um dia foi inventariada como uma das cidades mortas. Morta? Morta Taubat\u00e9?\u2026 Que nada! Rebelde, renasce em cada cora\u00e7\u00e3o que viu crescer e, assim, vive assombrando a mem\u00f3ria de eternos exilados, errantes do que naquele espa\u00e7o aprenderam a ser o que hoje s\u00e3o. Adultos, acabamos por aprender mirar o passado que para uns pode ser at\u00e9 mera lembran\u00e7a, mas para outros \u2013 eu entre eles \u2013 chega a doer demais.<\/p>\n<p>Sempre achei que saudade \u00e9 dos melhores sentimentos. H\u00e1 certa altivez em ultrapassar o limite do raso \u201csentir falta\u201d. A solenidade da saudade \u00e9 progressiva, pois remete \u00e0 boas experi\u00eancias \u2013 \u00e0s melhores \u2013 mas pode ser t\u00e3o avassaladora que temos que domestic\u00e1-la para que n\u00e3o nos adoe\u00e7a de nostalgias. Talvez, por isso insista em deix\u00e1-la latejando no meu cora\u00e7\u00e3o que envelhece sem conseguir negar a meninice. Aqui cabe um segredo: nem sempre quero voltar aos lugares mais marcantes de minha trajet\u00f3ria. Algo covarde, tenho medos. Medo, por exemplo, de quebrar o encanto de momentos que ganharam a perfei\u00e7\u00e3o no correr dos anos. Sim, a saudade maquia, enfeita, arredonda, enfeiti\u00e7a. E me \u00e9 prazeroso deixar que isso tudo se fa\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Alunas-do-Bom-Conselho.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18625\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Alunas-do-Bom-Conselho.jpg\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"247\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Alunas-do-Bom-Conselho.jpg 391w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Alunas-do-Bom-Conselho-300x190.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Alunas do Bom Conselho, o Bonca<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sei que pode parecer estranho eleger um clube como espa\u00e7o central de reflex\u00f5es memorativas. Poderia ser uma escola, igreja, uma pra\u00e7a talvez, mas um clube?! Sim, o Taubat\u00e9 Country Club \u2013 assim mesmo, pretencioso, metido a ingl\u00eas, lugar que nem ficava no campo \u2013 nada, era bem perto do centro da cidade. Mas o adotamos como TCC, e para a gente funcionava como uma esp\u00e9cie de para\u00edso urbano, uma miniatura de tudo de bom. L\u00e1, invers\u00e3o do espa\u00e7o dom\u00e9stico, pod\u00edamos muito. E como exercitamos esses poderes. Mas porque um clube marcaria tanto uma gera\u00e7\u00e3o inteira? A resposta a esta quest\u00e3o remete a buscas de plurais explicativos, que comungam bailinhos, jogos esportivos variados, espa\u00e7os para encontros e, para os adultos, at\u00e9 corria um carteado, algo meio clandestino, mas\u2026 mas acontecia.<\/p>\n<p>Vendo de hoje, o TCC era como um laborat\u00f3rio, um ensaio para rapazes e mo\u00e7as que exercitavam l\u00e1 os passos da vida adulta. O pr\u00e9dio era levemente cinza e guardava a discri\u00e7\u00e3o de um estilo que evocava ao colonial brasileiro, mas isso pouco importava. E havia ent\u00e3o outros espa\u00e7os, internos, onde a circula\u00e7\u00e3o permitia os primeiros olhares namoradores, as aproxima\u00e7\u00f5es mais calorosas em dan\u00e7as que podiam ocorrer nas matin\u00e9s ou com certa cerim\u00f4nia no Sal\u00e3o Nobre. Ali\u00e1s, de vez em quando havia teatro, com pe\u00e7as vindas de fora, e c\u00e1 e l\u00e1 uma ousadia da dramaturgia local, r\u00e9citas de jograis e at\u00e9 canto l\u00edrico. E tinha festivais de m\u00fasicas que, de t\u00e3o concorridos, aconteciam no Gin\u00e1sio ou como estava escrito no alto frontal Gymnasium. Bem, a simples men\u00e7\u00e3o da pra\u00e7a de esportes implica evocar os jogos de basquete, v\u00f4lei e principalmente de futebol de sal\u00e3o. E como torc\u00edamos! Tinha tamb\u00e9m a piscina que tanto divertia como revelava campe\u00f5es, craques lembrados at\u00e9 hoje. As duas quadras de t\u00eanis funcionavam com ares mais exclusivos, mas n\u00e3o menos integrada. E bem mais ao fundo tinha um modesto campo. Mas o Clube era tudo isso junto.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Carnaval-Major-Renatinho-BL-etc-450x339-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18626\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Carnaval-Major-Renatinho-BL-etc-450x339-1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Carnaval-Major-Renatinho-BL-etc-450x339-1.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Carnaval-Major-Renatinho-BL-etc-450x339-1-300x226.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Carnaval no TCC: Paulinho Major, Renatinho Barbosa Lima, Z\u00e9 Tipiti, Edmauro e Carmelo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Vendo sociologicamente, era no TCC que a classe m\u00e9dia se media. Havia restri\u00e7\u00e3o para associados, mas isso n\u00e3o perturbava os frequentadores que, bem de acordo com os protocolos do tempo, pouco se importavam com os \u201cn\u00e3o s\u00f3cios\u201d. Havia sim um certo respeito por tantos que lutavam para integrar o corpo de associados que, afinal, insistia em pertencer ao que se tinha como ideal ou padr\u00e3o urbano para o Vale do Para\u00edba.<\/p>\n<p>Para a minha juventude houve um momento de corte na vida do Clube e nossa. Foi na vig\u00eancia dos anos dourados, do per\u00edodo democr\u00e1tico do governo de Juscelino Kubistchek, de 1956 a 1964. Pronto: est\u00e1 dada a chave explicativa de tudo. Como um verdadeiro laborat\u00f3rio social, os jovens tamb\u00e9m exercitavam participa\u00e7\u00f5es na diretoria do TCC. Foi assim que entre 1963 e 1967, cheguei \u2013 entre outros colegas \u2013 a integrar a dire\u00e7\u00e3o. Fui primeiro diretor cultural e depois diretor social. Diria sem medo de errar que foi a fase \u00e1urea de nossa gera\u00e7\u00e3o. O vigor do yeyey\u00ea, do rock, do twist competia com a bossa nova e, ent\u00e3o, de Trini Lopez ao Fino da Bossa (com Elis Regina e Jair Rodrigues), de Elza Soares a Juca Chaves, muitos passaram por nossos palcos. E tinha o Baile das Debutantes, dos Casados, Azul e Branco. Dentre tantos convidados de fora, por\u00e9m, a lembran\u00e7a que mais me faz feliz foi ajudar o show de dois taubateano que se lan\u00e7avam para nossa eternidade, os irm\u00e3os Roberto Oliveira e Renato Teixeira. Sim, o \u201cSamba em tr\u00eas tempos\u201d marcou a passagem deles pelo TCC. E minha vida tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Cauby-no-TCC-editada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18627\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Cauby-no-TCC-editada.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"276\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Cauby-no-TCC-editada.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Cauby-no-TCC-editada-300x184.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Cauby Peixoto no TCC, onde se apresentavam renomados artistas e bandas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas, os tempos mudaram. E muito. A come\u00e7ar pela pol\u00edtica e isso fez com que nossa juventude inteira tivesse que aprender a viver debaixo de uma ditadura que, afinal, nos convocava para outras viv\u00eancias, bem menos divertida. Na medida em que a censura, o cerceamento das liberdades, o exerc\u00edcio das escolhas e todos os desdobramentos dos anos de chumbo aconteciam, fomos perdendo a alegria, ficando mais sisudos, tristes. Corria no invent\u00e1rio das car\u00eancias crescentes a vontade de participar em grupo, de atuar no conjunto de possibilidades dignas do ideal de uma gera\u00e7\u00e3o. Fomos ficando mais quietos, mais sozinhos, mais atentos aos nossos planos individuais de sucesso profissional. E viramos a p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Diria sem medo de errar que houve um marco na participa\u00e7\u00e3o geracional daquele tempo, no TCC: a queda do Gymnasium. A forte ventania de 1982 derrubou o pr\u00e9dio. Caiu o nosso sonho que parece ter durado at\u00e9 a Abertura pol\u00edtica. Derrubado o majestoso espa\u00e7o de tantas alegrias passadas, ruiu tamb\u00e9m o sonho de uma gera\u00e7\u00e3o que era feliz e n\u00e3o sabia. Desculpem-me, mas n\u00e3o tenho coragem de voltar ao TCC.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Equipe-nataCAo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18628\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Equipe-nataCAo-450x359.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"359\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Equipe-nataCAo-450x359.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Equipe-nataCAo-300x239.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Equipe-nataCAo-768x612.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Equipe-nataCAo.jpg 1198w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Equipe de nata\u00e7\u00e3o do TCC no final dos anos 1950 e come\u00e7o do anos 1960<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Imaginando hoje o Clube e minha gera\u00e7\u00e3o, pergunto-me se o sonho acabou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TCC, um clube entre os anos dourados e os anos de chumbo Lembro-me de versos que sempre me v\u00eam \u00e0 cabe\u00e7a em situa\u00e7\u00f5es especiais. 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