{"id":18602,"date":"2020-12-06T07:43:13","date_gmt":"2020-12-06T10:43:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18602"},"modified":"2020-12-06T07:44:24","modified_gmt":"2020-12-06T10:44:24","slug":"porviroscopio-uma-historia-pretexto-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/porviroscopio-uma-historia-pretexto-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PORVIROSC\u00d3PIO: uma hist\u00f3ria pretexto (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O que teria inspirado o vision\u00e1rio Monteiro Lobato quando criou o espiroqueta<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Monteiro Lobato \u00e9 conhecido por v\u00e1rios lances geniais, seja no campo da cria\u00e7\u00e3o para crian\u00e7as, nas tens\u00f5es geradas em seus contos, nos embates p\u00fablicos de cunho pol\u00edtico e comportamental. Lobato, em qualquer dimens\u00e3o, combina opostos: agrada e incomoda, inspira e provoca, \u00e9 amado e odiado, tudo em iguais contr\u00e1rios, como um espelho que devolve o verso exatamente pelo reverso. H\u00e1, por\u00e9m, no vasto escopo de suas cria\u00e7\u00f5es originais uma que poderia merecer maior cuidado. Seja pela originalidade, pela ast\u00facia do enredo, ou mesmo pela oportunidade de \u201cpresentifica\u00e7\u00e3o\u201d de sua obra. O chamado \u201cChoque das ra\u00e7as\u201d, depois rebatizado de \u201cPresidente Negro\u201d, formulou-se como um dos escritos mais perturbadores de todo patrim\u00f4nio cr\u00edtico liter\u00e1rio nacional. Sem ser exatamente fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a trama se projeta no futuro, exatamente no ano de 2228. Na narrativa, foi aventada uma s\u00e9rie de dilemas do momento em que foi escrito, em 1926, e que se estendem at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Lembrando que ao conceber tal livro o autor estava de partida para os Estados Unidos, onde exerceria o cargo de adido comercial junto a representa\u00e7\u00e3o brasileira. Lobato ent\u00e3o articulou uma sequ\u00eancia de fragmentos publicados em forma de folhetim no jornal \u201cA manh\u00e3\u201d do Rio de Janeiro. Conta o enredo que um jovem rapaz, Airton Lobo, caiu nas gra\u00e7as de importante cientista que inventara um aparelho capaz de antever acontecimentos, o tal \u201cporvirosc\u00f3pio\u201d. No caso, constatava-se o triunfo de um candidato negro, oponente de dois concorrentes, uma senhora e um velho ultraconservador, isso na 88a elei\u00e7\u00e3o norte-americana. Entre os temas abordados, de maneira prof\u00e9tica Lobato elencava: o fim dos jornais impressos, substitu\u00eddos por ondas magn\u00e9ticas que se materializariam em telas; os conflitos de ra\u00e7as em disputa de poder e os s\u00e9rios embates entre os Estados Unidos e a China.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/O-Presidente-Negro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18603\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/O-Presidente-Negro-300x450.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/O-Presidente-Negro-300x450.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/O-Presidente-Negro-200x300.jpg 200w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/O-Presidente-Negro.jpg 616w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Uma das previs\u00f5es que Lobato viu no porvirosc\u00f3pio<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Pensando na tal geringon\u00e7a que afinal se torna motivo causal do argumento, imaginei a hist\u00f3ria deste nosso momento, contado d\u00e9cadas depois como Hist\u00f3ria. Por l\u00f3gico, o ambiente da Covid 19 daria o tom, e nesse devaneio supunha uma professora de escola infantil narrando para seus alunos a f\u00e1bula do que vivemos hoje. Era uma vez&#8230;<\/p>\n<p>Era uma vez, no passado long\u00ednquo um per\u00edodo nervoso do mundo. Pensando obsessivamente no progresso e no interesse individual, a coletividade planet\u00e1ria perdera a no\u00e7\u00e3o da solidariedade e, no lugar, o ego\u00edsmo dominava as rela\u00e7\u00f5es provocando um distanciamento dram\u00e1tico entre classes sociais e indiv\u00edduos. Havia determinados aspectos que, contudo, atravessavam os comportamentos de todos, dividindo de forma ainda mais radical as pessoas: quest\u00f5es de g\u00eanero, a cor da pele, diferen\u00e7as religiosas, orienta\u00e7\u00f5es sexuais, tudo enfim servia para fracionar unidades que se encolhiam em causas conflitantes, a cada dia mais particularizadas. Nesse ambiente beligerante, imagine, inventaram at\u00e9 um artif\u00edcio chamado \u201clugar de fala\u201d, onde cada categoria se precisava em detalhes rid\u00edculos: mulher, negra, analfabeta, velha, nordestina&#8230;<\/p>\n<p>A cr\u00edtica proposta pela professora visava discutir o resultado do que se convencionou chamar \u201cprogresso\u201d, que se reduziria \u00e0 posse e ao ac\u00famulo de coisas.\u00a0 Ali\u00e1s, a isso, deram o nome geral de \u201cconsumismo\u201d e de maneira obsessiva as pessoas come\u00e7aram a querer coisas sempre novas e modernas. A tal ponto isso se tornou grave que o verbo \u201cdescartar\u201d ganhou dom\u00ednio, e tudo que era usado logo ganhava o lixo como destino fatal. E o volume da gan\u00e2ncia foi aumentando tanto que o meio ambiente foi se deteriorado ao m\u00e1ximo, as florestas devastadas, os rios polu\u00eddos, e o \u201cprogresso\u201d passava a ser medido pela renova\u00e7\u00e3o indiscriminada de bens.<\/p>\n<p>As cidades foram se enchendo, os supermercados e shoppings se multiplicaram e tudo foi virando mercadoria. Ter e usufruir bens sup\u00e9rfluos foi se transformando em raz\u00e3o do sucesso, e, sobre o interesse coletivo, o individualismo se constituiu meta. Imagine que a sensibilidade perdeu sentido e no lugar o medo favoreceu o uso de armas, grades nas casas, guardas pessoais. As crian\u00e7as trocaram as ruas por jogos eletr\u00f4nico, o povo deixou de cantar, de rir, de se confraternizar, e os abra\u00e7os foram perdendo sentido. A humanidade foi ficando a cada dia mais dependente das m\u00e1quinas&#8230;<\/p>\n<p>Os te\u00f3ricos logo deram nome ao sistema que chamaram de \u201ccapitalista\u201d e nele criaram planos de desenvolvimento conhecido por \u201cneoliberalismo\u201d, onde o estado cederia as fun\u00e7\u00f5es de atendimento \u00e0s necessidades b\u00e1sicas. Tudo foi privatizado, inclusive o sistema de atendimento \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Lucro \u00e9 o que interessava e isto ficou nominado de \u201clivre iniciativa\u201d ou \u201cempreendedorismo\u201d. O esfor\u00e7o desses pol\u00edticos era simples: transformar o estado em mera entidade articuladora de institui\u00e7\u00f5es e bens de interesse privado. A tal ponto isso aconteceu que se confundiu o governo com empresa, e as regras de mercado, principalmente as estat\u00edsticas, ganharam foros de metas. E, sem pensar no passado \u2013 ali\u00e1s, a Hist\u00f3ria, bem como tudo que diz respeito \u00e0s humanidades \u2013 ia ficando muito imediato, simples, mec\u00e2nico, raso.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/porviroscopio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18604\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/porviroscopio.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/porviroscopio.jpg 400w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/porviroscopio-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/porviroscopio-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/porviroscopio-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/porviroscopio-360x360.jpg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Ser\u00e1 que o porvirosc\u00f3pio nos apresenta um final feliz?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Colocado em pr\u00e1tica, esse sistema foi gerando pobres numericamente cada vez mais pobres; ricos cada vez mais ricos, mas numericamente em ordem inversa. E sob esse plano n\u00e3o interessava corrigir distor\u00e7\u00f5es. \u00c9 assim que se explica, por exemplo, o racismo que prescrevia a meritocracia e n\u00e3o uma pol\u00edtica de cotas. O machismo seguia a mesma ordem, idem o sexismo e todas as diferen\u00e7as. Tudo, \u00e9 claro, em nome de um patriotismo infantil que n\u00e3o dava respiro aos ideais universalistas. O \u201cprogresso\u201d seguia essa l\u00f3gica at\u00e9 que um v\u00edrus chamado corona apareceu em 2019 e colocou em d\u00favida todos esses valores. Foi uma terr\u00edvel pandemia que afetou o planeta e prop\u00f4s uma revis\u00e3o nos valores gerais. Houve muita dor, milhares de mortes e foi preciso muito sofrimento para que o mundo voltasse a reestabelecer valores simples como a solidariedade.<\/p>\n<p>Qual a moral desta hist\u00f3ria, perguntava uma aluninha? E a professora olhando para os demais mostrava a presen\u00e7a de crian\u00e7as de v\u00e1rias ra\u00e7as, com caracter\u00edsticas diferenciadas, e conclu\u00eda que o fim do racismo era prova da revis\u00e3o de valores, fator respons\u00e1vel pela mudan\u00e7a do rumo das coisas. Vista por novo \u201cporvirosc\u00f3pio\u201d, o presente seria mostrado como um filtro capaz de purifica\u00e7\u00e3o. E gra\u00e7as a Lobato foi poss\u00edvel imaginar um final feliz para tanta dor que afinal tem que ter sentido, mesmo que por meio de um ilus\u00f3rio \u201cporvirosc\u00f3pio\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que teria inspirado o vision\u00e1rio Monteiro Lobato quando criou o espiroqueta Monteiro Lobato \u00e9 conhecido por v\u00e1rios lances geniais, seja no campo da cria\u00e7\u00e3o &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18605,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18602","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18602","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18602"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18602\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18607,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18602\/revisions\/18607"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18605"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18602"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18602"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18602"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}