{"id":18477,"date":"2020-10-26T13:23:45","date_gmt":"2020-10-26T16:23:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18477"},"modified":"2020-10-26T13:23:45","modified_gmt":"2020-10-26T16:23:45","slug":"o-misterio-do-galo-caca-diegues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-misterio-do-galo-caca-diegues\/","title":{"rendered":"O mist\u00e9rio do galo (Cac\u00e1 Diegues)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Pel\u00e9 era o que n\u00f3s quer\u00edamos que o Brasil fosse<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O brasileiro Edson Arantes do Nascimento acaba de completar 80 anos de idade, o que passaria despercebido se Edson n\u00e3o fosse o Pel\u00e9, como \u00e9 conhecido no mundo inteiro. Nelson Rodrigues comparava o maior atleta do s\u00e9culo XX a g\u00eanios como Homero e Leonardo. Mas, acima de tudo, Pel\u00e9 era a representa\u00e7\u00e3o de nossa alegria e gra\u00e7a; de nossa superioridade produzida pelo drible, o risonho engenho de dobrar o outro; pelo gol inevit\u00e1vel e fatal, nunca igual e nem mesmo semelhante; pela festa dos est\u00e1dios celebrando o que ele fazia por n\u00f3s. Pel\u00e9 era o que n\u00f3s quer\u00edamos que o Brasil fosse.<\/p>\n<p>Como escreveu outro craque, Tost\u00e3o, \u201ca perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 humana, Pel\u00e9 \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o\u201d. Dessa perfei\u00e7\u00e3o, uma exce\u00e7\u00e3o, tir\u00e1vamos nossa desforra de tudo o que nos maltratasse, da fome do povo \u00e0 namorada que nos tra\u00eda, do pol\u00edtico mentiroso \u00e0 nota baixa em filosofia, do subdesenvolvimento \u00e0 praia sem sol. Pel\u00e9 era o gol que nunca perdemos, mesmo que tom\u00e1ssemos de goleada no cotidiano. Direto de Vila Belmiro, ele nos trazia a esperan\u00e7a da chegada de um novo pa\u00eds igual a ele. Igual ou parecido, que parecido j\u00e1 estava muito bom.<\/p>\n<p>Esse pa\u00eds nunca chegou e talvez nem chegue mais, pois Pel\u00e9 j\u00e1 est\u00e1 fazendo 80 anos, e ningu\u00e9m tem not\u00edcia de um Brasil igual ou parecido com ele: maneiro e correto, cordial e guerreiro, capaz de mudar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria numa \u00fanica, inventiva e solit\u00e1ria jogada, ou de se misturar com a equipe para reescrever a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou inventando nada, perguntem a quem jogou com ele, como Jairzinho e Tost\u00e3o, como Coutinho ou Pepe. Era muito mais f\u00e1cil fazer gol com Pel\u00e9 no time, contando com sua \u00edntegra solidariedade com os companheiros de valor.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Magico.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18478\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Magico-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Magico-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Magico-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Magico-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Magico-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Magico-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Magico.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Pel\u00e9 fazia m\u00e1gica com a bola no p\u00e9 ou com um simples jogo de corpo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Durante todo o s\u00e9culo XX, a cultura brasileira sempre oscilou entre a procura de uma identidade nacional e o desejo de uma integra\u00e7\u00e3o cosmopolita na ponta do mundo contempor\u00e2neo. Essa busca n\u00e3o foi s\u00f3 um empenho de poetas e artistas, de intelectuais e pensadores. Mas tamb\u00e9m de brasileiros de v\u00e1rias outras atividades, empenhados em nossa originalidade funcional e afetiva, capaz de nos diferenciar no mundo daquele tempo, dominado apenas por duas \u00fanicas ideias mandonas.<\/p>\n<p>Nossa cultura sempre viveu dessa dualidade, entre o que somos e o que gostar\u00edamos de ser. Orgulhosos de nossa exuber\u00e2ncia e sensualidade, come\u00e7amos por nos extasiar diante do barroco colonial. Quase nunca lembramos que essas igrejas douradas eram constru\u00eddas por milh\u00f5es de pretos escravizados, v\u00edtimas do mais torpe, corrupto e selvagem regime social de que se tem not\u00edcia no continente. E depois, pela cor de sua pele e por sua condi\u00e7\u00e3o social, nem permiss\u00e3o tinham para entrar nos templos que haviam constru\u00eddo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Negros-e-igreja.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18479\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Negros-e-igreja-450x356.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Negros-e-igreja-450x356.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Negros-e-igreja-300x237.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Negros-e-igreja-768x607.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Negros-e-igreja.jpg 1300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Os escravos negros eram proibidos de entrar nas igrejas que constru\u00edam<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi com esse \u201cbarroco espiritual\u201d que nascemos para o resto do mundo ocidental, com nossa fama solar \u00e0s vezes contestada, mas sempre defendida por alguma vers\u00e3o oficial. Se Greg\u00f3rio de Matos e Ant\u00f4nio Vieira nos remetiam \u00e0 mis\u00e9ria e \u00e0 podrid\u00e3o, ao inferno social e moral que encontravam aqui, o padre Sim\u00e3o de Vasconcellos foi levado ao tribunal da inquisi\u00e7\u00e3o por afirmar que o para\u00edso terrestre se encontrava no Brasil.<\/p>\n<p>Talvez seja o caso de levantar a hip\u00f3tese de que essa originalidade nunca tenha se manifestado pra valer em nossa hist\u00f3ria social, mas ela pode ser o mais belo, profundo e secreto projeto inconsciente do povo deste pa\u00eds. Um projeto de invis\u00edveis, sempre inviabilizado pelo Brasil dos infernos, \u00e0s vezes detectado por mestres medi\u00fanicos. Como Pel\u00e9. Afinal de contas, o mist\u00e9rio do galo n\u00e3o est\u00e1 na ilus\u00e3o de que ele seja capaz de fazer nascer o sol, mas em que seu canto anuncia a exist\u00eancia do sol, mesmo ainda por nascer.<\/p>\n<p>Nem todos os brasileiros s\u00e3o ou ser\u00e3o Pel\u00e9. Mas basta que os tenhamos em n\u00famero suficiente para evitar que nossos pobres ministros ignorantes discursem, para seus jovens diplomatas, contra Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas da l\u00edngua portuguesa. Que a vacina chinesa, como tudo mais inventado por l\u00e1, papel, p\u00f3lvora, macarr\u00e3o, b\u00fassola etc., seja condenada como imprest\u00e1vel por ter nascido na China. Que um manda, o outro obedece, e pronto. Para evitar, enfim, que Pel\u00e9 seja apenas um retrato nost\u00e1lgico na parede, mas que ele seja um exemplo poderoso do que o Brasil um dia ainda ser\u00e1. Love, love, love.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pel\u00e9 era o que n\u00f3s quer\u00edamos que o Brasil fosse O brasileiro Edson Arantes do Nascimento acaba de completar 80 anos de idade, o que &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18480,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18477","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18477","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18477"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18477\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18481,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18477\/revisions\/18481"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18480"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}