{"id":18474,"date":"2020-10-25T18:05:08","date_gmt":"2020-10-25T21:05:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18474"},"modified":"2020-10-25T18:05:08","modified_gmt":"2020-10-25T21:05:08","slug":"presente-para-viuvo-no-dia-dos-professores-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/presente-para-viuvo-no-dia-dos-professores-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PRESENTE PARA VI\u00daVO NO DIA DOS PROFESSORES (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Em circunst\u00e2ncias de epidemia coisas estranhas acontecem, \u00e0s vezes de maneira provocativa. Foi assim com o meu dia dos professores. N\u00e3o bastasse a abstin\u00eancia de desej\u00e1veis abra\u00e7os, beijos estudantis e de colegas, o isolamento ainda provocou uma estranheza extra. Antes de contar esta hist\u00f3ria, devo confirmar o recebimento de muitos abra\u00e7os e men\u00e7\u00f5es carinhosas&#8230; Mas foram sauda\u00e7\u00f5es virtuais&#8230; Gostei, \u00e9 claro, mas achei meio chato, indicativo de sinais dos tempos. Acatei todas efusivas lembran\u00e7as e at\u00e9 as potencializei na chave do reconhecimento acho que merecido. Ser lembrado \u00e9 bom, e ser homenageado \u00e9 melhor ainda. Sim, no dia dos professores me permito exageros e deixo que a vaidade me assuma por inteiro. Pois bem, houve uma exce\u00e7\u00e3o nessa nova proposta comemorativa. Foi assim: o interfone tocou, o respons\u00e1vel pela portaria disse que havia um pacote me esperando, e que deveria busc\u00e1-lo. \u201cS\u00f3 um pacote\u201d, proclamou o interlocutor.<\/p>\n<p>Desci correndo, mas n\u00e3o alcancei o presenteador (ou seria presenteadora?). Entre euf\u00f3rico e frustrado, depois de higienizar o pacote com o \u00e1lcool em gel disposto no elevador, abri furiosamente o inv\u00f3lucro, adivinhando que seria um livro. Com toda maldade que me permito nesse dia, logo fui reclamando: mas que falta de imagina\u00e7\u00e3o, dar um livro para um professor, no seu dia. N\u00e3o seria mais adequado uma garrafa de vinho, flores, frutas, uma camiseta de time de futebol que fosse&#8230; Enquanto me livrava do papel e do barbante insistente em n\u00f3s bem dados, minha imagina\u00e7\u00e3o, num z\u00eanite, se interessou pelo tema do regalo. Seria um livro de hist\u00f3ria, de an\u00e1lise pol\u00edtica, um romance, um comp\u00eandio de poesia? Pois bem, em fra\u00e7\u00e3o de segundos aposentei as reclama\u00e7\u00f5es e se me abriu um c\u00e9u de possibilidades. Qual n\u00e3o foi minha surpresa quando, vi fechada a porta do elevador, o t\u00edtulo do presente: \u201cComo falar com um vi\u00favo\u201d, capa linda e colorida, com texto de Jonathan Tropper. Pronto, o curto caminho at\u00e9 o meu apartamento se transformou em uma jornada longa e intermin\u00e1vel. Venci, por\u00e9m. Entrei, j\u00e1 sem sapato \u2013 sou daqueles que preferem ler descal\u00e7o. Com o livro aberto, sentei-me em minha cadeira de leitura, fisgado, tendo remetido para minha pr\u00e9-hist\u00f3ria todos os questionamentos anteriores.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jonathan-Tropper.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18465\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jonathan-Tropper-450x320.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jonathan-Tropper-450x320.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jonathan-Tropper-300x214.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jonathan-Tropper-768x547.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jonathan-Tropper.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong> Jonathan Tropper, autor do livro que pegou Mestre Sebe de surpresa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O livro come\u00e7a com a descri\u00e7\u00e3o de uma fatalidade: a morte da esposa Hailey em um tr\u00e1gico acidente de avi\u00e3o. Doug Parker, o marido\/personagem, seria um desses tipos que n\u00e3o nasceram para casar, mas, por arma\u00e7\u00e3o da vida, conhecera a mulher de seus sonhos, dez anos mais velha que ele. Mais velha, mas linda, loira, de olhos faiscantes nos seus 10 anos a mais do que ele. A diferen\u00e7a et\u00e1ria, contudo, n\u00e3o se fez empecilho para a felicidade do personagem que, afinal, encontrara na esposa o porto seguro, a parceira ideal, a tal mulher dos sonhos. O fato dela ter um filho adolescente, fruto de rela\u00e7\u00e3o anterior, em vez de problema mostrou-se solu\u00e7\u00e3o, pois aprendera a amar o garoto como leg\u00edtimo pai. E sua vida de insucessos, seria coisa do passado, e no pret\u00e9rito ficara sua condi\u00e7\u00e3o de jovem desastrado, aluno med\u00edocre, frustrado, dono de v\u00e1rias tentativas de ingresso em universidades reputadas.<\/p>\n<p>Adulto, at\u00e9 a chegada de Hailey, Doug fora um eterno buscador de empregos nos quais n\u00e3o se adaptava. Em dois anos era outro homem, o mais feliz do planeta, e tanto que at\u00e9 bonito se tornara. Depois desse conv\u00edvio m\u00e1gico, por um desastre, sem mais nem menos, encontramos nosso her\u00f3i transformado no melhor modelo de triste mortal. Sem seu par perfeito, restou-lhe pouco, no m\u00e1ximo assumir uma coluna do jornal de sua cidade, no interior brit\u00e2nico, onde escrevia conselhos capazes dar vas\u00e3o \u00e0 mais chorosa agonia. Detalhar a vida de um enlutado chegado a bebidas e ao pessimismo mais escalafob\u00e9tico era sua miss\u00e3o. A coluna chamada \u201ccomo falar com um vi\u00favo\u201d, contudo, seria sua t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. Seria&#8230; Seria se n\u00e3o houvesse uma soma hil\u00e1ria de circunst\u00e2ncias complementares.<\/p>\n<p>Penalizada com a viuvez do pobre Doug, considerando a depress\u00e3o progressiva, sua irm\u00e3 g\u00eamea resolvera mudar-se para sua casa. Ela, que antes era a sensata e a mais ajustada familiar, agora, em plena gravidez, agia como reformadora do mundo, e, pior que tudo, revelara que conhecera o pai da crian\u00e7a, um amigo fiel do cl\u00e3, em pleno funeral da esposa. Isso era imperdo\u00e1vel para o vi\u00favo. Inda mais agora que estava prestes a se separar. A chegada da irm\u00e3 com futuro rebento implicava adapta\u00e7\u00f5es da casa e assim anunciava-se uma guerra fraticida: ele queria deixar tudo do mesmo jeito e ela impunha mudan\u00e7as dr\u00e1sticas.<\/p>\n<p>Encrencas familiares se multiplicavam: o pai teve um AVC com sequelas graves, inclusive com perda de mem\u00f3ria. A m\u00e3e alienada optou por representar papeis teatrais do tempo de mo\u00e7a e vivia em <em>performances<\/em> dram\u00e1ticas, paramentada para apresenta\u00e7\u00f5es hipot\u00e9ticas. O rapaz, o tal amado filho posti\u00e7o, se metia em confus\u00f5es s\u00e9rias e n\u00e3o era mais o jovem candidato \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. E que dizer dos namoros propostos pela irm\u00e3? E das imaginadas alternativas sexuais imaginadas para tirar Doug do vazio?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Dia-dos-\u00b4professores.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18464\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Dia-dos-\u00b4professores-450x236.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Dia-dos-\u00b4professores-450x236.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Dia-dos-\u00b4professores-300x158.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Dia-dos-\u00b4professores-768x403.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Dia-dos-\u00b4professores.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Tudo come\u00e7ou com a data de 15 de outubro, Dia dos Professores<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cComo falar com um vi\u00favo\u201d \u00e9 um texto de reden\u00e7\u00e3o. O contorno da dor, o sofrimento atroz \u00e9 abalado por um humor fino, crescente. A leitura dessas deliciosas p\u00e1ginas permite evocar Freud nos ensinamentos derivados de outro livro importante, de 1905, chamado \u201cOs chistes\u201d. A transgress\u00e3o \u00e9 uma das dimens\u00f5es capazes de transformar condi\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas em discursos aptos a requalificar a vida. Talvez seja exatamente isto que Caetano Veloso sintetizou na passagem da can\u00e7\u00e3o \u201cVaca Profana\u201d, de 1984 \u201c<em>Respeito muito minhas l\u00e1grimas, mas ainda mais minha risada&#8221;<\/em>. O dia do professor passou. Passou deixando uma li\u00e7\u00e3o: h\u00e1 jeitos de se comunicar com um vi\u00favo, principalmente se for um vi\u00favo professor.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quem deixou o livro na minha portaria. Um dia aparecer\u00e1, mas tenho que dizer que h\u00e1 sim modos de falar com vi\u00favos. Em certos casos como o meu, deixar d\u00favidas \u00e9 boa alternativa. Se\u00a0 houver interessados, \u00e9 s\u00f3 pedir o endere\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em circunst\u00e2ncias de epidemia coisas estranhas acontecem, \u00e0s vezes de maneira provocativa. Foi assim com o meu dia dos professores. N\u00e3o bastasse a abstin\u00eancia de &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18466,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18474"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18475,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18474\/revisions\/18475"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18466"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}