{"id":18414,"date":"2020-10-11T10:44:37","date_gmt":"2020-10-11T13:44:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18414"},"modified":"2020-10-11T10:44:37","modified_gmt":"2020-10-11T13:44:37","slug":"paulo-coelho-na-fogueira-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/paulo-coelho-na-fogueira-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PAULO COELHO NA FOGUEIRA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>As novas gera\u00e7\u00f5es ignoram a parceria de Raul Seixas com Paulo Coelho durante da ditadura 1964\/1985<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 estranho. Estanho demais, bem sei, mas gosto de personagens p\u00fablicos problem\u00e1ticos, de gente complicada, pessoas capazes de agitar a pasmaceira da regularidade. Meu olhar menino se alinha quando miro seres que se pontuam fora da curva. Por certo, esfor\u00e7o-me para separar o joio do trigo, e assim desprezo produtos fabricados para render <em>likes<\/em>, como \u201cmulheres frutas\u201d, celebridades instant\u00e2neas, pol\u00edticos populistas, afff&#8230; Procuro originalidades aut\u00eanticas e nelas entender os trejeitos de pessoas que se abalizam de maneira singular e continuada, at\u00e9 mesmo sem perceber. Admiro caras que incomodam pela distin\u00e7\u00e3o ex\u00f3tica, desafiadores da opini\u00e3o p\u00fablica, ou por presen\u00e7a quase escandalosa. Eu disse quase!&#8230; E coleciono, com certa ansiedade, manifesta\u00e7\u00f5es idiossincr\u00e1ticas, exageradas, disparates que repontam ao longo da vida social. Seja para o bem ou para o mal, sinto brilhar a frase de Sartre garantindo que \u201cda vida s\u00f3 valem os excessos\u201d. Excessos bons, desses exuberantes, e at\u00e9 permito excesso meu, incluindo esta intrigante observa\u00e7\u00e3o algo <em>voyeur<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Queima-de-livros.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18416\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Queima-de-livros-450x235.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Queima-de-livros-450x235.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Queima-de-livros-300x157.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Queima-de-livros.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Casal de idosos bolsonaristas queima livros de Paulo Coelho<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em diferentes quadrantes, essas pessoas marcantes animam a vida, causam estranhezas e, sob olhar antropol\u00f3gico poder\u00edamos dizer que em seus descomedimentos nos ajudam pensar os limites da normalidade convencional e os padr\u00f5es m\u00e9dios. Na <em>sociedade do espet\u00e1culo<\/em> (Debord) aqueles que conseguem superar <em>os 15 minutos de fama<\/em> (Andy Warhol) provocam algo pr\u00f3ximo de uma \u201cindigna\u00e7\u00e3o desafiadora\u201d, e por isto motivam sensa\u00e7\u00f5es inc\u00f4modas. E seres bizarros n\u00e3o faltam no c\u00e9u cultural brasileiro. Isso em todos os setores como no esporte (Neymar que o diga), na televis\u00e3o (no momento Fabio Assun\u00e7\u00e3o empata com Jos\u00e9 Abreu), na literatura (o lugar de honra \u00e9 de Nelson Rodrigues, mas tem o imortal Rubem Fonseca coladinho). Pois \u00e9, como n\u00e3o se trata propriamente de um concurso, resolvi dilatar a lista de possibilidades com um dos meus problem\u00e1ticos favoritos: Paulo Coelho. E para come\u00e7o de conversa destaco a frase que o tem distinguido nos jarg\u00f5es vulgares: \u201c<em>n\u00e3o li, n\u00e3o gostei<\/em>\u201d. N\u00e3o \u00e9 engra\u00e7ado?! Engra\u00e7ado ou lament\u00e1vel, pois estamos falando de um dos autores mais vendidos em todo mundo, traduzido para 81 l\u00ednguas, e presente em mais 150 pa\u00edses. Fen\u00f4meno, n\u00e3o s\u00f3 entre n\u00f3s \u2013 ou melhor, apesar de antipatias nacionais gratuitas. Eu gosto muito, leio o que consigo sobre ele e mesmo o que dizem as m\u00e1s l\u00ednguas. E, pasmem, aprecio o que escreve. Perd\u00e3o, mas gosto mesmo&#8230; \u201cOnze minutos\u201d \u00e9 um dos meus livros favoritos.<\/p>\n<p>Gosto tanto que o sa\u00fado como cidad\u00e3o do mundo, escritor que versa sobre feiti\u00e7aria com a mesma facilidade de abordagens sobre islamismo, xam\u00e3nismo, ou outra religi\u00e3o, seita, credo. H\u00e1 algo de metaf\u00edsico, de teor transcendental pretenso, alguma coisa pr\u00f3xima de um \u201cdivino popularesco\u201d, sinal que o caracteriza no ambiente p\u00f3s-moderno. E como personagem, Paulo Coelho carrega uma hist\u00f3ria incr\u00edvel e tortuosa: ex-usu\u00e1rio de drogas, subversivo torturado em 1974, esot\u00e9rico, Paulo Coelho \u00e9 um pouco de tudo o que foi numa vers\u00e3o midi\u00e1tica. Mas como esse ser esquisito se converteu no escritor <em>pop<\/em>, pergunta-se. Respostas demandam entender m\u00e9todo coelhiano de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica que, ali\u00e1s, foi fascinante desde o princ\u00edpio. Ele mesmo conta \u201c<em>aprendi a escrever com Raul Seixas. Foi fazendo m\u00fasica para ele que eu descobri como ser conciso e direto, sem ser superficial<\/em>\u201d, e, dono de peculiar arrog\u00e2ncia conclui \u201c<em>sen\u00e3o estaria at\u00e9 hoje escrevendo coisas dific\u00edlimas que ningu\u00e9m entende<\/em>\u201d. Mas houve aperfei\u00e7oamento entre o pretenso empres\u00e1rio de talentos que tentava lugar no capitalismo e o escritor \u2013 Coelho tentou ser produtor musical. Um dia, procurou o \u201cmaluco beleza\u201d para uma entrevista e do encontro saiu parceiro de s\u00e9rie musical. \u00c9 verdade que o futuro os poria em campos opostos, mas n\u00e3o h\u00e1 como negar o come\u00e7o. Diria que a universaliza\u00e7\u00e3o, foi o legado de Raulzito para Paulo Coelho que se globalizou, formulando uma literatura sem marcas de brasilidade. Sim, mais do que ningu\u00e9m no planeta, ele soube assumir a dial\u00e9tica da modernidade universal. Talvez isto explique seu destaque que, \u00f3bvio, n\u00e3o poderia deixar de ser tamb\u00e9m pol\u00eamico.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18415\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho-450x450.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho-768x768.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho-750x750.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/paulocoelho.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><em><strong>Escritor Paulo Coelho faz parte da Academia Brasileira de Letras<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em termos cronol\u00f3gicos, o sucesso liter\u00e1rio levou Coelho ser um <em>gauche<\/em>, mas um gauche estranho pois em 2002 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Entre as raz\u00f5es para tanto nariz torcido \u00e9 o resultado surpreendente da publica\u00e7\u00e3o dos primeiros livros:\u00a0<em>Arquivos do inferno<\/em>\u00a0(1982),\u00a0<em>O manual pr\u00e1tico do vampirismo<\/em>\u00a0(1985) at\u00e9 chegar n\u2019<em>O di\u00e1rio de um mago<\/em>\u00a0(1987). Da longa s\u00e9rie de sucessos, sem d\u00favida, a reputa\u00e7\u00e3o de Coelho se divide em antes e depois d\u2019O <em>Alquimista, publicado em\u00a0<\/em>1990. Pois bem, \u00e9 este personagem fascinante, este cara incr\u00edvel, que teve seus livros queimados por seguidores do capit\u00e3o Bolsonaro. E por qu\u00ea? Porque, junto com personalidades como Leonardo Di Caprio, Sting, Madonna, Cher, entre muitos outros, inclusive uma pl\u00eaiade de brasileiros, Coelho chama a aten\u00e7\u00e3o do mundo contra a pol\u00edtica deste governo negacionista, em particular em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente.<\/p>\n<p>Numa postagem nas redes sociais, um casal idoso, marido e mulher, em nome da defesa de Bolsonaro, dia 29 de setembro \u00faltimo, queimou as p\u00e1ginas arrancadas de um livro de Paulo Coelho. Dizendo tratar-se do d\u00e9cimo, o espet\u00e1culo macabro recriou no Brasil o ritual nazista de 10 de maio de 1933. Sim, na Alemanha de Hitler, fan\u00e1ticos fizeram uma fogueira p\u00fablica de escritos contra o regime, l\u00e1 como c\u00e1, isso atesta o significado da intoler\u00e2ncia e da incapacidade de conv\u00edvio com a cr\u00edtica, seja ela qual for. Em escala m\u00ednima, a mem\u00f3ria desse feito abomin\u00e1vel teve dimens\u00f5es alarmantes e esclarecedoras e por isto merece aten\u00e7\u00e3o. De um lado, esta queima revela uma pol\u00edtica de ataque \u00e0 cultura, de agress\u00e3o \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica livre e independente, mas, de outro \u2013 e isto \u00e9 terr\u00edvel \u2013 permite iluminar a resist\u00eancia aos desmandos que nos colocam como devastadores de florestas. E Paulo Coelho ent\u00e3o se apresenta como baluarte de uma luta que, afinal, o traz de volta ao Brasil e aos temas brasileiros no universo. A prop\u00f3sito, e para terminar, vale considerar a conformidade rebelde do pr\u00f3prio Coelho que respondeu: <em>pois \u00e9: primeiro compraram e depois puseram fogo<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As novas gera\u00e7\u00f5es ignoram a parceria de Raul Seixas com Paulo Coelho durante da ditadura 1964\/1985 \u00c9 estranho. 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