{"id":18389,"date":"2020-09-27T13:44:07","date_gmt":"2020-09-27T16:44:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18389"},"modified":"2020-09-27T13:44:07","modified_gmt":"2020-09-27T16:44:07","slug":"acontecencias-ruth-guimaraes-e-as-ingratidoes-valeparaibanas-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/acontecencias-ruth-guimaraes-e-as-ingratidoes-valeparaibanas-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"\u201cACONTEC\u00caNCIAS\u201d: RUTH GUIMAR\u00c3ES E AS INGRATID\u00d5ES VALEPARAIBANAS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Afinal, quem \u00e9 Ruth Botelho Guimar\u00e3es natural de Cachoeira Paulista?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A palavra <em>acontec\u00eancia<\/em> \u00e9 cria\u00e7\u00e3o de Ruth Botelho Guimar\u00e3es&#8230; De quem? Ruth Guimar\u00e3es, mas quem \u00e9 ela afinal? De onde vem, o que fez, por que destac\u00e1-la? Sei que estas quest\u00f5es s\u00e3o fr\u00e1geis para alguns, exatamente para prezadores de romances, contos, textos drenados das listas de sucessos. Ruth Guimar\u00e3es \u00e9 dessas figuras apagadas dos arranjos talhados por quantos esculpem seus deuses segundo a pr\u00f3pria imagem e semelhan\u00e7a. Mas haveria raz\u00e3o subjetiva para isso? E n\u00e3o escapam explicita\u00e7\u00f5es capazes de nutrir esquemas preconceituosos, desqualificadores de tipos desiguais como, ali\u00e1s, demonstra Eduardo de Assis Duarte.<\/p>\n<p>Ruth era mulher, negra, do interior do estado de S\u00e3o Paulo \u2013 de Cachoeira Paulista \u2013 e nunca pretendeu trocar seu rinc\u00e3o por qualquer capital, mesmo tendo cursado Filosofia na USP. Em 1983, na Bienal Nestl\u00e9 de Literatura, apresentou-se dizendo sou \u201cmulher, negra, pobre e caipira\u201d, e a isso poder-se-ia acrescentar \u201cdisjuntada\u201d. Por paradoxal que pare\u00e7a, Ruth se considerava tribut\u00e1ria de M\u00e1rio de Andrade e, mesmo tendo sido saudada por cr\u00edticos como Nelson Werneck Sodr\u00e9, \u00c9rico Ver\u00edssimo, Edgard Cavalheiro, tais loas nunca a apensaram al\u00e9m de escassas cita\u00e7\u00f5es marginais.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Ruth-e-Antonio-Candido-recortada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18391\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Ruth-e-Antonio-Candido-recortada.jpg\" alt=\"\" width=\"402\" height=\"407\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Ruth-e-Antonio-Candido-recortada.jpg 402w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Ruth-e-Antonio-Candido-recortada-296x300.jpg 296w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Ruth-e-Antonio-Candido-recortada-80x80.jpg 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 402px) 100vw, 402px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Ruth Guimar\u00e3es e Ant\u00f4nio C\u00e2ndido que n\u00e3o se interessava por autores regionalistas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Seu livro de estreia <em>\u00c1<\/em><em>gua funda<\/em>, publicado em 1946, foi prefaciado por Ant\u00f4nio C\u00e2ndido, ali\u00e1s, isto n\u00e3o deixa de ser ir\u00f4nico posto argumento vazado de algu\u00e9m que pontificava um olhar menor \u00e0 considera\u00e7\u00e3o dos <em>regionalistas<\/em>. De toda forma, da mina de Ruth despontaram ainda outros escritos de f\u00f4lego como <em>Os Filhos do medo<\/em>, de 1950, pesquisa original sobre a figura do diabo; <em>Cr\u00f4nicas valeparaibanas,<\/em> de1992, considera\u00e7\u00f5es sobre o folclore regional, e a fic\u00e7\u00e3o <em>Contos de cidadezinha,<\/em> de 1996, a respeito dos modos de vida no interior. Pode-se dizer que esse conjunto de trabalhos representa, juntamente com Lobato e outro valeparaibano \u2013 igualmente esquecido \u2013 Valdomiro Silveira, a ess\u00eancia genu\u00edna do g\u00eanero <em>regionalista do Vale<\/em>. Sugere-se, contudo, e n\u00e3o sem sentido, que a pr\u00f3pria Ruth foi a escritora que, de maneira mais exuberante, furou a bolha do exclusivismo localista. Fundamenta-se tal indicando que al\u00e9m de trabalhos respeit\u00e1veis sobre aspectos universais, Ruth foi tradutora audaciosa de cl\u00e1ssicos como Balzac, Dostoievski e Daudet. N\u00e3o bastasse, escreveu pe\u00e7as memor\u00e1veis e de abrang\u00eancia, como: <em>As M\u00e3es na Lenda e na Hist\u00f3ria<\/em>; <em>L\u00edderes Religiosos<\/em>; <em>Lendas e F\u00e1bulas do Brasil<\/em>; e com justo destaque, o audacioso <em>Dicion\u00e1rio de Mitologia Grega<\/em>; isso al\u00e9m de <em>Grandes Enigmas da Hist\u00f3ria<\/em>; <em>Medicina M\u00e1gica: as simpatias<\/em>; <em>Lendas e F\u00e1bulas do Brasil<\/em>&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a prof\u00edcua produ\u00e7\u00e3o lhe rendeu Cadeira na Academia Paulista de Letras, mas isso \u00e9 raso em vista de merecimentos. A garantia de perplexidade induz perguntar: mas afinal quais os entraves para o reconhecimento ampliado desta autora? Mesmo entre as mulheres (Raquel de Queiroz, Cec\u00edlia Meireles, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector), a figura\u00e7\u00e3o de Ruth \u00e9 diminuta; seria por ser negra? Em termos de combate ao racismo, com certeza cabe outra observa\u00e7\u00e3o fatal, pois nos limites da justi\u00e7a, tem tocado aten\u00e7\u00e3o a Machado de Assis como afrodescendente e, ent\u00e3o, por que motivos Ruth n\u00e3o figuraria nesta almejada reden\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 por ser mulher e, sobretudo, mulher negra do interior? Aposta-se que sim, supondo o formid\u00e1vel esfor\u00e7o para requalificar, em paralelo, Carolina Maria de Jesus.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Celly-e-Tony-Campello.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18392\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Celly-e-Tony-Campello-450x252.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"252\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Celly-e-Tony-Campello-450x252.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Celly-e-Tony-Campello-300x168.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Celly-e-Tony-Campello-265x147.jpg 265w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Celly-e-Tony-Campello.jpg 512w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Celly e Tony Campello, duas estrelas quase esquecidas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Moradora da capital paulista, a d\u00favida sobre os destaques entre ambas corre por conta de dois aspectos complementares: 1- o alinhamento estil\u00edstico e tem\u00e1tico e 2- a leitura pol\u00edtica do g\u00eanero \u201cdi\u00e1rio\u201d. Ruth foi dona de vern\u00e1culo escorreito e coerente com os assuntos em voga na intelectualidade convencional. Isso, por certo, a constelou em vez de distingui-la, como ocorreu com Carolina. E di\u00e1rio de favelada era algo testemunhal, urbano e explic\u00e1vel na era da \u201ccidade que mais cresce no mundo\u201d. Sup\u00f5e-se ent\u00e3o o paralelo contextualizado, pois mais que enquadramento no r\u00f3tulo \u201cmulher\u201d, ou \u201cnegra\u201d, Ruth insistia em ser \u201ccaipira\u201d, ali\u00e1s, orgulhosa de seu espa\u00e7o original. Isolou-se e foi isolada, tudo segundo conveni\u00eancias. Sintetizando de outra forma, Ruth se inscreveu no \u201cpopular\u201d sem represent\u00e1-lo, no sentido da diferen\u00e7a de classe, estilo, modo de pesquisa, filia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, um fator a mais a ser considerado: a n\u00e3o requalifica\u00e7\u00e3o de Ruth Guimar\u00e3es pelos quadros regionais. O que tem feito o Vale para a proje\u00e7\u00e3o de sua maior estrela feminina no campo das letras? Nada, absolutamente nada. E neste diapas\u00e3o recupero certo tique do meu Vale: a ingratid\u00e3o vestida de sil\u00eancio. Sim, o Vale do Para\u00edba n\u00e3o se olha no espelho do reconhecimento local. Tomando Taubat\u00e9 como outro exemplo, perguntemos: onde est\u00e3o homenagens \u00e0s figuras mai\u00fasculas da express\u00e3o local: o que tem sido feito em rela\u00e7\u00e3o a Mazzaropi, a Hebe Camargo, ao Tony e Cely Campelo? Outra vez me valho do \u201cnada\u201d e ressalto no lamento choroso o brado ignorante e injusto a figuras detratadas como Monteiro Lobato. Tudo isto \u00e9 triste, mas fica ainda mais l\u00fagubre quando notamos que \u00e9 cr\u00f4nico, institucional, algo encalacrado na mem\u00f3ria valeparaibana. \u00c9 assim, ali\u00e1s, que volto a Ruth para repensar a \u201cacontec\u00eancia\u201d. <em>Aco<\/em><em>ntec\u00eancia<\/em> sin\u00f4nima da falta de respeito. \u00c9 tempo para acordar?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afinal, quem \u00e9 Ruth Botelho Guimar\u00e3es natural de Cachoeira Paulista? A palavra acontec\u00eancia \u00e9 cria\u00e7\u00e3o de Ruth Botelho Guimar\u00e3es&#8230; De quem? 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