{"id":18383,"date":"2020-09-24T13:24:40","date_gmt":"2020-09-24T16:24:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18383"},"modified":"2020-09-24T13:24:40","modified_gmt":"2020-09-24T16:24:40","slug":"tirem-os-pes-do-meu-pescoco-ascanio-seleme-o-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/tirem-os-pes-do-meu-pescoco-ascanio-seleme-o-globo\/","title":{"rendered":"Tirem os p\u00e9s do meu pesco\u00e7o (Asc\u00e2nio Seleme &#8211; O Globo)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Ruth Bader Ginsburg foi uma hero\u00edna<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00cdcone. Foi muito apropriado o uso deste termo por jornais para designar a ju\u00edza da Suprema Corte americana Ruth Bader Ginsburg, falecida h\u00e1 uma semana. RBG, como era conhecida, foi uma das mais importantes figuras da Justi\u00e7a americana. Mais at\u00e9 do que um \u00edcone. Uma hero\u00edna que trabalhou a vida inteira para mudar a legisla\u00e7\u00e3o nos pontos em que discriminava a mulher. \u201cRBG transformou os pap\u00e9is de homens e mulheres na sociedade\u201d, disse a jornalista Linda Greenhouse, que cobre a Suprema Corte americana h\u00e1 30 anos para o \u201cNew York Times\u201d.<\/p>\n<p>Estudante de Direito na Universidade Harvard nos anos 50, quando a escola tinha apenas nove mulheres num grupo de 500 alunos, RBG entendeu cedo que ser mulher era obst\u00e1culo para quase tudo. Seu engajamento definitivo em favor da emancipa\u00e7\u00e3o feminina ocorreu alguns anos depois, quando, graduada, tentou obter um emprego nos escrit\u00f3rios de advocacia de Nova York. Foi rejeitada por todos. \u201cN\u00e3o contratamos mulheres.\u201d Virou professora e, depois, ativista na Uni\u00e3o Americana pelas Liberdades Civis (ACLU).<\/p>\n<p>Se o gatilho que disparou sua obsess\u00e3o foi o fato de ela pr\u00f3pria ter sido v\u00edtima de discrimina\u00e7\u00e3o, \u00e9 verdade que um germe j\u00e1 havia sido introduzido pela sua m\u00e3e, de quem ouviu um conselho que repetiu in\u00fameras vezes. \u201cSeja uma dama e seja independente\u201d. Ser uma dama significava jamais abrir m\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o feminina. Ser independente queria dizer lutar por condi\u00e7\u00f5es iguais \u00e0s dos homens para se emancipar.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18384\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga-450x450.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga-768x768.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga-750x750.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/RBG-de-toga.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;A divis\u00e3o por g\u00eanero ajuda a manter a mulher numa jaula&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>RBG iniciou sua carreira de advogada nos anos 70, na ACLU. Suas causas foram sempre contra leis que discriminavam mulheres. Durante anos advogou diante da pr\u00f3pria Suprema Corte. Ela entendia que \u201ca divis\u00e3o por g\u00eaneros n\u00e3o ajuda a manter a mulher num pedestal, mas sim numa jaula\u201d. Ganhou quase todas as quest\u00f5es que levou aos tribunais e acabou se transformando numa das maiores refer\u00eancias do feminismo, inspira\u00e7\u00e3o para homens e mulheres em todo o mundo.<\/p>\n<p>Ao ser indicada para a Suprema Corte pelo ent\u00e3o presidente Bill Clinton, em 1993, RBG passou da condi\u00e7\u00e3o de \u00edcone para a de pop star. Sua imagem fr\u00e1gil, tinha 1,50m, seu rosto fino e seus \u00f3culos grandes e grossos se tornaram parte insepar\u00e1vel da paisagem feminista. Estava em todas. Percebia que, quanto mais se expunha, mais passava sua mensagem. N\u00e3o houve quest\u00e3o que tratasse da condi\u00e7\u00e3o legal da mulher de que ela n\u00e3o participasse e, quase sempre, ganhasse. Fez hist\u00f3ria mesmo nas causas que perdeu.<\/p>\n<p>Em 2006, a Suprema Corte julgou o caso de Lilly Ledbetter contra a Goodyear, que alegava ter recebido sal\u00e1rio menor do que funcion\u00e1rios homens que exerciam fun\u00e7\u00e3o igual. Como a peti\u00e7\u00e3o foi feita depois da aposentadoria, a Corte entendeu que o prazo caducara e negou equipara\u00e7\u00e3o retroativa. O voto vencido de RBG mudaria a legisla\u00e7\u00e3o. Ela disse que as mulheres \u201cs\u00e3o v\u00edtimas da discrimina\u00e7\u00e3o salarial\u201d e exortou o Congresso a corrigir o erro cometido pela Corte Suprema. O Congresso corrigiu o erro e aprovou lei definindo que crimes de discrimina\u00e7\u00e3o contra mulheres nunca mais vencer\u00e3o por decurso de prazo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Clinton-e-RBG.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18385\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Clinton-e-RBG-450x270.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"270\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Clinton-e-RBG-450x270.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Clinton-e-RBG-300x180.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Clinton-e-RBG.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Foi indicada por Bill Clinton \u00e0 Suprema Corte dos EUA<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O trabalho infatig\u00e1vel de RBG ajudou a dar visibilidade a quest\u00f5es muitas vezes ignoradas, que poderiam resultar em aumento de riquezas e renda em todo o mundo. Um estudo do Instituto McKinsey, de 2015, demonstrou que, se as mulheres fossem incorporadas ao mercado de trabalho regular, em condi\u00e7\u00f5es iguais \u00e0s dos homens, US$ 12 trilh\u00f5es (R$ 66 tri) seriam acrescidos \u00e0 economia global em dez anos, um aumento de 11% para o PIB planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>A desigualdade de g\u00eanero \u00e9 quase t\u00e3o limitadora e opressora quanto o racismo. S\u00f3 ser\u00e1 derrotada se for combatida por homens e mulheres indistinta e permanentemente. Ruth Bader Ginsburg gostava de repetir uma frase da primeira feminista americana, a abolicionista Sarah Grimke (1792-1873). \u201cN\u00e3o pe\u00e7o nenhum favor para o meu sexo. Pe\u00e7o apenas aos meus irm\u00e3os que tirem seus p\u00e9s dos nossos pesco\u00e7os\u201d. RBG passou sua vida tratando de tirar p\u00e9s de homens dos pesco\u00e7os de mulheres. Ela morreu, mas sua luta continua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ruth Bader Ginsburg foi uma hero\u00edna \u00cdcone. 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