{"id":18360,"date":"2020-09-20T12:50:23","date_gmt":"2020-09-20T15:50:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18360"},"modified":"2020-09-20T12:50:23","modified_gmt":"2020-09-20T15:50:23","slug":"negrinha-lobato-e-o-racismo-estrutural-brasileiro-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/negrinha-lobato-e-o-racismo-estrutural-brasileiro-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"NEGRINHA, LOBATO E O RACISMO ESTRUTURAL BRASILEIRO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201ctenho notado que muitos dos personagens das minhas hist\u00f3rias j\u00e1 andam aborrecidos de viverem toda a vida dentro delas. Querem novidade&#8230; Andam todos revoltados, dando-me um trabalh\u00e3o para cont\u00ea-los\u201d. <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Monteiro Lobato <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sou daqueles que acham que Jos\u00e9 Bento Monteiro Lobato n\u00e3o precisa de defesa alguma. Tamb\u00e9m me perfilo entre os muitos leitores e que flanam na magia de sua produ\u00e7\u00e3o criativa, pol\u00eamica, atravessadora de tempos, proponentes de temas de debates apaixonados. Ent\u00e3o me engalo de ser daquela gera\u00e7\u00e3o que Jos\u00e9 Roberto Withaker chamou de \u201c<em>Filhos de Lobato<\/em>\u201d e sigo leitura que d\u00e1 alma a entendimentos cab\u00edveis no corpo de seu tempo. Busco mais compreender do que explicar, diga-se, e assim me solto no embalo que vai al\u00e9m de cita\u00e7\u00f5es escolhidas fora do ambiente germinal, perversas por mal intencionadas, ignorantes e historicamente desinformadas. Investindo-me do direito de ler em perspectiva, optei por trocar argumentos apedrejadores pelo outro lado de uma moeda que negocia interpreta\u00e7\u00f5es encolhidas na capacidade de ver al\u00e9m de argumentos isolados, caracterizados em frases mal recortadas, rearranjadas segundo crit\u00e9rios extempor\u00e2neos e dirigidos. E n\u00e3o precisei de muito exerc\u00edcio, pois no lampejo da mem\u00f3ria logo me veio o conto <em>Negrinha<\/em>. Aten\u00e7\u00e3o: n\u00e3o se pretende com um novo \u201cdetalhe\u201d saudar qualquer exce\u00e7\u00e3o, mas, pelo reverso, por ele, supor a complexidade do todo. Interessa, diria, contemplar a floresta e n\u00e3o explic\u00e1-la pela singularidade de \u00fanica \u00e1rvore.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Negrinha-e-a-boneca.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18362\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Negrinha-e-a-boneca-393x450.jpg\" alt=\"\" width=\"393\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Negrinha-e-a-boneca-393x450.jpg 393w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Negrinha-e-a-boneca-262x300.jpg 262w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Negrinha-e-a-boneca.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 393px) 100vw, 393px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Negrinha \u00e9 a menina pobre e \u00f3rf\u00e3 desde dos quatro anos<\/strong><\/p>\n<p>Para in\u00edcio aclaramento desta conversa, devo dizer que \u201c<em>Negrinha<\/em>\u201d \u00e9, de Lobato, meu escrito favorito no quesito \u201cconto\u201d. E que hist\u00f3ria foi dada \u00e0 menina pobre e \u00f3rf\u00e3 que desde os quatro anos fora \u201ccriada\u201d como encosto em casa de fam\u00edlia \u201cproba\u201d! O ambiente, ali\u00e1s, se trama desde a apresenta\u00e7\u00e3o da personagem alvo do caso \u201cPreta?? N\u00e3o. Fusca, mulatinha escura, de cabelos ru\u00e7os e olhos assustados\u201d. O retra\u00e7o biogr\u00e1fico dessa qualifica\u00e7\u00e3o diz que <em>Negrinha<\/em>, como era chamada, sem ter nome espec\u00edfico ou referenciado, \u201cnascera na senzala, de m\u00e3e escrava, e seus primeiros anos de vida, vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre farrapos de esteira e panos imundos. Sempre escondida, que a patroa n\u00e3o gostava de crian\u00e7as\u201d. A senhora \u201cdona\u201d, por sua vez, fora assim comparecida \u201cexcelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada pelos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo no c\u00e9u\u201d. N\u00e3o bastasse a sutileza \u2013 talvez at\u00e9 expl\u00edcita demais \u2013 Lobato completava o perfil senhoril pr\u00e1 l\u00e1 de pat\u00e9tico: \u201centaladas as banhas no trono uma cadeira de balan\u00e7o na sala de jantar, &#8211; ali bordava, recebendo as amigas e o vig\u00e1rio, dando audi\u00eancias, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora, em suma\u201d. Sem economizar deboches o enredo matizava a crueldade de uma matrona branca, inclemente, culturalmente estabelecida em pressupostos escravocratas da qual \u201co 13 de maio tirou-lhe das m\u00e3os o azorrague, mas n\u00e3o lhe tirou da alma a gana. Conservava, pois, Negrinha em casa como rem\u00e9dio para os frenesis\u201d. Vivificava-se o que na cultura popular ficou conhecido como \u201csaco de pancadas\u201d, ou seja, algu\u00e9m negro destinado a apanhar ou levar bordoadas capazes de promover a catarse dos senhores.<\/p>\n<p>Poucas passagens da literatura brasileira \u2013 pouqu\u00edssimas \u2013 al\u00e7aram tanto vigor no relato dos maltratos dados aos negros, escravos ou libertos e aos seus descendentes. Talvez o limite m\u00e1ximo desse tipo de constata\u00e7\u00e3o resida internado neste conto, \u201c<em>Negrinha<\/em>\u201d, que afinal detalha o monstruoso castigo perpetrado pela senhora In\u00e1cia depois da menina deferir a palavra \u201cpeste\u201d. Tomando um ovo, o requinte da atrocidade foi vazada da seguinte forma \u201cD. In\u00e1cia mesma p\u00f4-lo na chaleira de \u00e1gua a ferver e, de m\u00e3os \u00e0 cinta, gozando-se na preliba\u00e7\u00e3o da tortura, ficou de p\u00e9 uns minutos, \u00e0 espera. Seus olhos contentes envolviam a m\u00edsera crian\u00e7a que, encolhidinha a um canto, tr\u00eamula, olhar esgazeado, aguardava alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora exclamou: \u2014 Venha c\u00e1!! Negrinha aproximou-se. \u2014 Abra a boca!!\u201d. E como sofreu a menininha que, creiam, era criada como favor aos olhos caritativos, culturalmente dominantes.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Monteiro-Lobato.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18361\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Monteiro-Lobato-450x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Monteiro-Lobato-450x300.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Monteiro-Lobato-300x200.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Monteiro-Lobato.jpeg 680w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Censurar Lobato pode ser fruto do analfabetismo hist\u00f3rico<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A sequ\u00eancia desta conta\u00e7\u00e3o revela outra aventura da <em>menina negrinha<\/em> que morreu, por fim, aos sete anos, depois de ser acatada pelas duas sobrinhas que, em m\u00eas de f\u00e9rias, na casa da titia encantada com a prole branca, saudava, em contraste perfeito, a vivaz euforia das \u201cpequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas\u201d. E foram essas mesmas \u201cpequenotas\u201d que permitiram a epis\u00f3dica aceita\u00e7\u00e3o de <em>Negrinha<\/em> no tri\u00e2ngulo branco. Foram as crian\u00e7as e, sem entender de preconceitos, admitiram que a estranha e deslocada personagem, <em>Negrinha<\/em>, tamb\u00e9m tocasse em uma boneca que, ali\u00e1s, era reprodu\u00e7\u00e3o feita \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a das sobrinhas visitantes: alvinhas e de cabelos alourados e que, al\u00e9m de angelical, deitada pronunciava \u201cpapa\u201d. Fora essa, diga-se, a vis\u00e3o do Para\u00edso para a rejeitada <em>Negrinha<\/em> que, afinal com 15 quilos. Magrinha sim, mas sonhando com anjos brancos e de olhos claros, como os da boneca, ou das meninas visitantes.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 ep\u00edgrafe: o que Lobato quis transmitir? Preconceito gratuito? Den\u00fancia? Seria simples \u201ccauso\u201d? Ou caberia melhor intelig\u00eancia e sugerir que menos vale um exemplo recortado de um contexto amplo do que a mis\u00e9ria de um \u201cdefensismo\u201d sem paisagem anal\u00edtica? Vale, para encerrar, contextualizar este conto no ambiente eugenista daquele ent\u00e3o. Na altura do amadurecimento da cr\u00edtica cultural brasileira, n\u00e3o resta d\u00favida da ampla aceita\u00e7\u00e3o do mito da superioridade racial branca. \u00c9 exatamente nesta ordem que se pretende discutir o significado de <em>Negrinha <\/em>no universo nacional que estruturou o racismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201ctenho notado que muitos dos personagens das minhas hist\u00f3rias j\u00e1 andam aborrecidos de viverem toda a vida dentro delas. 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