{"id":18331,"date":"2020-09-10T12:15:56","date_gmt":"2020-09-10T15:15:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18331"},"modified":"2020-09-10T13:06:45","modified_gmt":"2020-09-10T16:06:45","slug":"70-anos-na-semana-que-vem-eugenio-bucci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/70-anos-na-semana-que-vem-eugenio-bucci\/","title":{"rendered":"70 anos na semana que vem (Eug\u00eanio Bucci)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Roque Santeiro foi censurado antes de se transformar em novel<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Falar\u00e3o de Hebe Camargo. Quando foi ao ar o primeiro programa da primeira esta\u00e7\u00e3o de televis\u00e3o brasileira, a TV Tupi, na noite de 18 de setembro de 1950, Hebe estava l\u00e1, na companhia de Lima Duarte e Lolita Rodrigues. Falar\u00e3o dos festivais da Record, que no final dos anos 1960 redesenharam as fei\u00e7\u00f5es do cancioneiro popular. Falar\u00e3o da estreia do Jornal Nacional, em 1969, e da Copa do Mundo de 1970.<\/p>\n<p>Talvez alguns festejem (deveriam festejar) a novela Gabriela, da Rede Globo, que nos trouxe cores mais verdadeiramente intensas do que aquelas que a gente via nas cal\u00e7adas, nas beiras de rio, nas tardes compridas do ver\u00e3o da Alta Mogiana. (A TV em cores chegou como uma luz mais que solar: realizou a fa\u00e7anha de empalidecer a natureza.) Encarnada por S\u00f4nia Braga, a colorid\u00edssima Gabriela subia no telhado de vestido curtinho, azul e branco, para recuperar uma pipa (raia) e fazer despencar o queixo alheio: do Seu Nacib, de toda a cidade cenogr\u00e1fica e dos pais de fam\u00edlia do Brasil de ponta a ponta.<\/p>\n<p>Na semana que vem, quando a televis\u00e3o brasileira comemorar seu 70.\u00ba anivers\u00e1rio, lembran\u00e7as afetivas e afetuosas encher\u00e3o as telas eletr\u00f4nicas. Vai ser bom de (re)ver, desde que n\u00e3o abusem demais das pieguices.<\/p>\n<p>Vai ser bom, mas tamb\u00e9m vai ser ruim. Dificilmente n\u00f3s veremos o que nunca vimos na televis\u00e3o, quer dizer, dificilmente veremos aquilo que a exuber\u00e2ncia imag\u00e9tica dos monitores p\u00e1trios sempre encobriu. No correr dos primeiros anos da d\u00e9cada de 1970, quando este jornal aqui penava sob censura est\u00fapida, a televis\u00e3o brasileira contornava diplomaticamente os contratempos com a tesoura federal e brilhava solta, via Embratel, envolvendo com seu arco-\u00edris subserviente o bueiro moral e institucional da ditadura militar. Sobre isso n\u00e3o nos falar\u00e3o em demasia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Sonia-Braga-gabriela.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18332\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Sonia-Braga-gabriela-450x230.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Sonia-Braga-gabriela-450x230.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Sonia-Braga-gabriela-300x153.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Sonia-Braga-gabriela.jpg 625w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>S\u00f4nia Braga desempenho o primeiro papel sensual na TV<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A televis\u00e3o brasileira deu unidade imagin\u00e1ria, festiva e deslumbrada a uma na\u00e7\u00e3o desgrenhada pela corrup\u00e7\u00e3o dos costumes c\u00edvicos, pelo desvio de poder, pelo enriquecimento subterr\u00e2neo dos apaniguados, pela ignor\u00e2ncia oficializada, pela pr\u00e1tica diuturna da tortura pol\u00edtica, pelo assassinato de dissidentes e, finalmente, pela oculta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, disciplinada e industrializada de cad\u00e1veres. Isso n\u00e3o vai ser t\u00e3o real\u00e7ado na festa da semana que vem. Talvez um ou outro entrevistado fa\u00e7a men\u00e7\u00e3o, mas sem alarde. Quando os videoteipes de estima\u00e7\u00e3o cintilarem na tela, n\u00f3s n\u00e3o assistiremos a explica\u00e7\u00f5es a respeito do lado triste da hist\u00f3ria. O que a TV sonegava sonegado seguir\u00e1.<\/p>\n<p>Talvez algu\u00e9m conte que houve um tempo nestas terras em que a telenovela falava mais da realidade que o telejornal. \u00c9 necess\u00e1rio lembrar. Enquanto os notici\u00e1rios perfilados vendiam aos telespectadores uma pe\u00e7a de fic\u00e7\u00e3o ufanista, as telenovelas traziam cada vez mais cenas de rua, tipos populares, dilemas aut\u00eanticos dos brasileiros de carne e osso. Para inverter a \u00eanfase da not\u00edcia, que era a infla\u00e7\u00e3o em escalada vertical, o apresentador trombeteava o \u201crendimento recorde na poupan\u00e7a\u201d. Na sequ\u00eancia, a novela falava de racismo, de corrup\u00e7\u00e3o, at\u00e9 de reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Celebrar\u00e3o o talento, mas n\u00e3o destacar\u00e3o que a TV em rede nacional foi o projeto cultural mais caro \u00e0 ditadura: a integra\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds pela imagem. Pode ser que digam que o Brasil ganhou sua identidade moderna apenas com a TV, o que \u00e9 fato, mas n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que expliquem, em rede nacional, que essa identidade imagin\u00e1ria acobertou o prosseguimento dos desmandos e das atrocidades no poder.<\/p>\n<p>O que aconteceu no Brasil foi algo \u00fanico, dif\u00edcil de entender e de explicar. Logo depois da queda da ditadura, era comum jornalistas estrangeiros perguntarem aos estudiosos locais: mas como \u00e9 poss\u00edvel que um pa\u00eds com tantos atrasos sociais e civilizat\u00f3rios tenha erguido uma televis\u00e3o t\u00e3o avan\u00e7ada e t\u00e3o bem-sucedida? A melhor resposta era: justamente por isso, tudo o que voc\u00ea v\u00ea de ultramoderno na televis\u00e3o brasileira corresponde ao que h\u00e1 de mais arcaico na sociedade que a gerou.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Seu-Nacib-e-Gabriela.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18333\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Seu-Nacib-e-Gabriela-450x338.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Seu-Nacib-e-Gabriela-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Seu-Nacib-e-Gabriela-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Seu-Nacib-e-Gabriela.jpg 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em><strong>Armando Bogus (Seu Nacib e S\u00f4nia Braga (Gabriela) em 1975<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A televis\u00e3o brasileira \u00e9 um portento, um feito continental, uma obra que impressiona os c\u00e9ticos mais azedos: seus publicit\u00e1rios s\u00e3o consagrados no mundo inteiro, alguns de seus novelistas podem figurar no pante\u00e3o dos maiores artistas do nosso tempo, alguns de seus animadores reluziram como g\u00eanios da ra\u00e7a (e tome Chacrinha!). Mas tudo isso, cada pedacinho disso, s\u00f3 existiu para tecer um pa\u00eds de mentira sobre a podrid\u00e3o do pa\u00eds de verdade. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a televis\u00e3o n\u00e3o transmite cheiro.<\/p>\n<p>Sobre essas coisas tristes n\u00e3o falar\u00e3o muito, n\u00e3o. Pouco falar\u00e3o das chagas constitutivas do passado. Principalmente nada dir\u00e3o sobre a abomin\u00e1vel chaga do presente: a triangula\u00e7\u00e3o prom\u00edscua entre redes de televis\u00e3o, igrejas triliard\u00e1rias e partidos pol\u00edticos. Nada falar\u00e3o do fundamentalismo ultraconservador que abre as estradas para o galope dos fascistas supostamente liberais. A m\u00e1quina luminescente que no passado integrou um pa\u00eds para sequestr\u00e1-lo de si mesmo agora promove fantasias mais nefastas. Na segunda-feira, em cadeia nacional, o presidente urrou que defende a democracia (ent\u00e3o, t\u00e1) e elogiou a ditadura militar. Nos 70 anos da TV, a carranca do arb\u00edtrio ainda rosna.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roque Santeiro foi censurado antes de se transformar em novel Falar\u00e3o de Hebe Camargo. 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