{"id":18292,"date":"2020-08-30T09:40:01","date_gmt":"2020-08-30T12:40:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18292"},"modified":"2020-08-30T09:45:09","modified_gmt":"2020-08-30T12:45:09","slug":"o-que-que-aprendi-na-quarentena-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-que-que-aprendi-na-quarentena-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O QUE QUE APRENDI NA QUARENTENA?! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Fiquei pensando na perversidade de estar s\u00f3, confinado por op\u00e7\u00e3o e obedi\u00eancia ao bom senso. Pensei e logo entendi que pensar \u00e9 um ato soberano e que se coroa quando nos distanciamos das coisas ditas corriqueiras. Estranho. Sobretudo estranho porque tudo que nos \u00e9 corriqueiro ganha o vigor inverso, de algo novo ou pelo menos reinaugurado. As coisas, os objetos, est\u00e3o no mesmo ambiente, mas o olhar interior exige requalifica\u00e7\u00e3o. Acho o termo \u201cressignificar\u201d que tanto tem sido gasto faz algum sentido nestas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O livro esteve no mesmo lugar h\u00e1 tempo, e l\u00e1 continua, mas de repente dou uma olhada na lombada e acho o vermelho bonito, o t\u00edtulo em branco se destaca e lembro-me das cores do Salgueiro. Viro o rosto e olho a modesta garrafa de \u00e1gua mineral, a mesma de sempre que acompanha minhas noites solit\u00e1rias, e me pergunto de sua forma acinturada, da cor da tampinha \u201camarelada\u201d (n\u00e3o seria melhor que fosse verde?). E o sil\u00eancio da casa que combina melhor com a noite que com o dia? As panelas da cozinha experimentaram minhas m\u00e3os limpando-as como nunca e sabe, at\u00e9 passei as ach\u00e1-las mais simp\u00e1ticas, dignas de certo brilho que nunca leguei.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Faxina.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18293\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Faxina-450x338.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Faxina-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Faxina-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Faxina-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Faxina-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Faxina.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A cozinha \u00e9 sempre um grande desafio<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Resolvi dar uma limpada nos CDs. Pois \u00e9, ainda h\u00e1 poucas semanas pensava em como me livrar deles agora que t\u00eam substitutos t\u00e3o competentes. Mas quando os acariciei em nome da liberdade do p\u00f3, me comovi. Lembrei-me de quando comprei uns, da circunst\u00e2ncia do presente de outro. Sabe que cheguei, imagine, a me ver dan\u00e7ando nos sal\u00f5es do passado quando peguei em um azul, orquestrado.\u00a0 Nem precisei tomar a decis\u00e3o de n\u00e3o os doar t\u00e3o logo. Fui mais longe, cheguei a pensar que alguns n\u00e3o sairiam jamais de minhas paradas saudosistas e nem das prateleiras em que estavam silentes e condenadas.<\/p>\n<p>Converso com plantas. Sempre foi assim e n\u00e3o tenho pejo em reafirmar. Mas eram conversas r\u00e1pidas coisa do momento de molh\u00e1-las e nada mais. Agora?! Agora confidencio intimidades, desabafo m\u00e1goas pol\u00edticas irremedi\u00e1veis, fa\u00e7o-as interlocutoras de sonhos libert\u00e1rios, de vagos planos futuros. E n\u00e3o \u00e9 que suas folhas est\u00e3o mais brilhantes, mais vistosas. Tenho certeza de que a fotoss\u00edntese partilhada agora purifica mais meu ar.<\/p>\n<p>Nunca tinha imaginado que os len\u00e7os dobrados, na gaveta, pudessem parecer quadros ou instala\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Nunquinha, mas n\u00e3o \u00e9 que ontem imaginei Matisse, confesso, contudo, que como estavam t\u00e3o espont\u00e2neas e \u00e0 vontade, achei que iam mais para Braque. E, meu Deus, n\u00e3o tenho s\u00f3 len\u00e7os brancos, ou com discretas listas azuis ou marrons. N\u00e3o, tenho alguns bem coloridos que sequer sei de onde vieram. E aquele com minhas iniciais, nossa, que lindos!<\/p>\n<p>Acreditem: que beleza me pareceu o suporte do abajur da sala. Que contornos sensuais, delicados e sugestivo da languidez do objeto que deixar vazar luz. Entendi a diferen\u00e7a do er\u00f3tico e do pornogr\u00e1fico quando supus outra leitura do prosaico detalhe, disposto no canto da sala. Nem preciso dizer que a banqueta de madeira, a mesma que me acompanha desde a primeira casa que tive como minha esposa, me pareceu pe\u00e7a de museu. E de um museu especial\u00edssimo, objeto biogr\u00e1fico capaz de conter narrativas de minha hist\u00f3ria pessoal.<\/p>\n<p>Os quadros das paredes!&#8230; Gente, que coisa mais bonita! Ajeitei um que estava tortinho e pensei na combina\u00e7\u00e3o deles. Acertei quando os coloquei lado a lado, e at\u00e9 saudei meu bom gosto e sensibilidade decorativa. Se \u00e9 verdade que a casa da gente tem que se parecer conosco, aquelas pinturas legitimam minha hist\u00f3ria. Tentei dar enredo \u00e0 composi\u00e7\u00e3o das telas que juntei em diferentes momentos, e fui entendendo melhor minha hist\u00f3ria pessoal, um depois do outro, alternados na parede, do jeito que me sinto agora. Foi como ordenar as mem\u00f3rias n\u00e3o pelo tempo de aquisi\u00e7\u00e3o, mas pelos ajustes tem\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Criei coragem e fui l\u00e1. Sim, mexi na caixa de cartas. Sabia que ia doer, mas sabia tamb\u00e9m que eram dores de cura. E foram. Fui descobrindo que n\u00e3o restaram s\u00f3 cartas escritas aqui e ali, sempre com amor devoto, mas havia tamb\u00e9m cart\u00f5es, card\u00e1pios de restaurantes, inv\u00f3lucros de balas, programas de cinema. Enfim, retalhos de um amor que precisou aprender a ser s\u00f3.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18294\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas-450x404.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas-450x404.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas-300x269.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas-768x690.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas.jpeg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Foi muito duro mexer na caixa com cartas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi triste mexer na caixa de joias. O roubo surpreendente do ladr\u00e3o deixou algumas poucas pe\u00e7as que gritavam de solid\u00e3o. Ouvi atentamente cada lamento: a medalha que ficou sem o cord\u00e3o, o velho rel\u00f3gio que certamente n\u00e3o enriqueceria o assaltante, as tr\u00eas p\u00e9rolas soltas do colar debulhado de minha m\u00e3e, a velha carteira sem os poucos d\u00f3lares e euros que a valorizavam. Restos. Restos sim, mas t\u00e3o ricos em cernes.<\/p>\n<p>Sentei-me para escrever sobre estas minud\u00eancias e me perguntei dos pr\u00f3ximos dias de quarentena. Que vou fazer? Quais os novos acontecimentos emocionais? Que sair\u00e1 deste meu conv\u00edvio pessoal? Poderia desdobrar perguntas mil, mas amedrontado me questionei sobre o limite desta condi\u00e7\u00e3o de confinamento. Ser\u00e1 que estou com medo? Medo do qu\u00ea?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiquei pensando na perversidade de estar s\u00f3, confinado por op\u00e7\u00e3o e obedi\u00eancia ao bom senso. Pensei e logo entendi que pensar \u00e9 um ato soberano &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18297,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18292","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18292"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18292\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18296,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18292\/revisions\/18296"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18297"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}