{"id":18264,"date":"2020-08-23T10:46:44","date_gmt":"2020-08-23T13:46:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18264"},"modified":"2020-08-23T10:47:55","modified_gmt":"2020-08-23T13:47:55","slug":"musica-sertaneja-sofrencia-e-graca-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/musica-sertaneja-sofrencia-e-graca-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"M\u00daSICA SERTANEJA: SOFR\u00caNCIA E GRA\u00c7A (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Tonico e Tinoco: m\u00fasicas que revelavam as entregas apaixonadas e mal resolvidas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Pensando bem, \u00e9 muito estranha a percep\u00e7\u00e3o do cancioneiro sertanejo em nosso mund\u00e3o cultural urbano. Visto com mais cuidado, o denso conte\u00fado expresso por g\u00eaneros musicais variantes da raiz caipira, de regra, \u00e9 interditado, ou ao menos rebaixado como se fosse produto menor, de consumo de um grupo meio esquisito, coisa de suburbano mal adaptado. Foi pensando nisto que se procurou alguma dimens\u00e3o valorativa, buscado perceber mais do que significados recortados de um ju\u00edzo simplista, na base do \u201c<em>gosto<\/em> x <em>n\u00e3o gosto<\/em>\u201d. A considera\u00e7\u00e3o dos temas mais frequentes logo exp\u00f4s a combina\u00e7\u00e3o da dicotomia <em>sofrimento<\/em> X <em>picardia<\/em>. Argumento constantes desses cancioneiros, a dor de amor e o gracejo se mostram fatores capazes de dar sentido existencial a uma legenda usualmente reduzida ao <em>breguismo tosco <\/em>ou, no m\u00e1ximo, \u00e0 <em>cafon\u00e1lia chic<\/em>. Mas, pergunta-se, h\u00e1 sentido articulado impl\u00edcito nesse verso e reverso que mistura afli\u00e7\u00e3o e gra\u00e7a, ou questionando de maneira ainda mais contundente: h\u00e1 conte\u00fado na experi\u00eancia musical sertaneja?<\/p>\n<p>Num esfor\u00e7o justificado, pretendeu-se marcar a voca\u00e7\u00e3o para um vi\u00e9s filos\u00f3fico invis\u00edvel, silenciado na recep\u00e7\u00e3o dessa express\u00e3o musical. E \u00e9 prudente oferecer caminho hist\u00f3rico para tal considera\u00e7\u00e3o. Como se fora contrapartida de um passado de deslocamento territorial mal resolvido, a transfer\u00eancia de contingentes do campo para a cidade sugere longo processo de adapta\u00e7\u00e3o. Mal compreendida, a invers\u00e3o demogr\u00e1fica do meio rural revela uma peleja pela sobreviv\u00eancia de tradi\u00e7\u00f5es e assim indica inc\u00f4modos e desencontros negociados em busca de um estilo sertanejo de vida urbana. Nessa linha, n\u00e3o seria exagero sublinhar o sofrimento recortado nos repetidos desencontros amorosos. Sim, amores n\u00e3o correspondidos se formulam em raz\u00e3o metaf\u00f3rica de cantares que somam a saudade nost\u00e1lgica do campo com afetos desencontrados ou incoerentes.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18267\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano-450x450.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano-768x767.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano-1536x1534.jpg 1536w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano-750x750.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Waldick-Soriano.jpg 1545w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Waldick Soriano reinou no espa\u00e7o da cafon\u00e1lia chic<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Junto com passarinhos, alvoradas, campos, s\u00e3o compostas loas a amores imposs\u00edveis, trai\u00e7\u00f5es de sentimentos incompreendidos, enfim um novo e claro <em>mal-estar civilizat\u00f3rio<\/em> inconcili\u00e1vel. De modo geral, as m\u00fasicas sertanejas cantam saudade e tristezas, e se recheiam de frustra\u00e7\u00f5es, m\u00e1goas e desafetos chorados em exageros. Nesse sentido, ali\u00e1s, resulta uma explica\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para o que tem sido conhecido como <em>sofr\u00eancia<\/em>. Sim, a percep\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica dos desacertos \u00e9 o denominador comum para tantas passagens de desgra\u00e7as vertidas em desejos de m\u00e1 sorte para os ingratos pares. \u00c9 como se o campo n\u00e3o se desse bem com a cidade e, em express\u00e3o cantada, isto se revelasse como lamento p\u00fablico e personalizado.<\/p>\n<p>Como resultado surdo de uma esp\u00e9cie de \u00e9pica cabocla, as entregas apaixonadas e mal resolvidas se mostram como dimens\u00e3o de desesperos dramatizados na fatalidade de uma realiza\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel. \u00c9 nesse diapas\u00e3o que emerge a mem\u00f3ria desesperada que tem a ru\u00edna amorosa como ponto inevit\u00e1vel de extravasamento. Mas, para consolo geral, esta moeda tem outra face, um reverso compensat\u00f3rio: o chiste ou gracejo. Sim, os melodramas amorosos n\u00e3o anulam paralelos de continuidade tradicionais, os \u201ccausos\u201d se constituem no lado insistente do gracejo gozador. Diria que para cada dor h\u00e1 uma piada musical na mesma medida em que para cada frustra\u00e7\u00e3o corresponde uma promessa de risada. A soma dessas oposi\u00e7\u00f5es &#8211; choro e matreirice &#8211; se formula na integra\u00e7\u00e3o de mensagens que, afinal, juntas, amarram respostas de tipos migrados do ambiente rural para os centros urbanos que, afinal, t\u00eam na inviabilidade de realiza\u00e7\u00e3o amorosa a dimens\u00e3o p\u00e2ndega, e por isto promotora de gra\u00e7a. S\u00e3o indultos que v\u00e3o al\u00e9m da aparente simplicidade narrativa e que merecem ser contemplados como vingan\u00e7a da incompreens\u00e3o. Os dois aspectos complementares, a desgra\u00e7a e o pitoresco, resultam em esp\u00e9cie de \u00e9pica acaboclada e de dif\u00edcil capta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/nelson-goncalves.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18268\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/nelson-goncalves-450x450.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/nelson-goncalves-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/nelson-goncalves-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/nelson-goncalves-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/nelson-goncalves-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/nelson-goncalves-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/nelson-goncalves.jpg 650w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Nelson Gon\u00e7alves at\u00e9 hoje \u00e9 o imbat\u00edvel cantor das multid\u00f5es<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O entendimento da dor afetiva pode ser avaliado pela crescente feminiza\u00e7\u00e3o das int\u00e9rpretes que, solo ou em duplas, t\u00eam revelado o inc\u00f4modo do acolhimento pelo ambiente dominante, masculino. Por outro lado, a mem\u00f3ria da anedota f\u00e1cil e sutil se dimensiona no masculino, como se coubesse \u00e0 mulher a <em>sofr\u00eancia<\/em> e para o homem o revide. O resultado \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o tr\u00e1gico-c\u00f4mica de experi\u00eancias n\u00e3o explicitadas, mas vertidas em sucessos de p\u00fablico crescente. Penso, pois em ensinamentos enunciados para um segmento importante, consumidores do mercado que n\u00e3o se contenta em ouvir, mas que em shows multiplicados ganham plateias cada vez mais \u201csertanejadas\u201d. As letras de can\u00e7\u00f5es, em conjunto, revelam um estilo de vida muito mais completo e complexo do que se pensa. E tudo se torna muito teatral, exigente de figurinos, penteados, caras e bocas. O inerente uso de roupas t\u00edpicas, chap\u00e9us, o aferro ao xadrez desenhado em camisas, a perman\u00eancia das botas como saudade das botinas, o crescente prest\u00edgio das festas juninas \u2013 agora inscritas em programas de turismo \u2013 e a aceita\u00e7\u00e3o dos \u201cdocinhos da ro\u00e7a\u201d, pa\u00e7oca, quent\u00e3o, revalidam uma saudade reprimida, pouco explicada, mas que n\u00e3o se furta \u00e0 luz e som. \u00c9 no quesito mnem\u00f4nico que atua a ess\u00eancia e originalidade do ser sertanejo urbano. Confesso que o exagero da positividade anal\u00edtica contida nestas linhas responde a um apelo pessoal, esfor\u00e7o de ver uma beleza onde o gosto burgu\u00eas insiste em negar o<em> cadim de meu mundim<\/em> que queiram ou n\u00e3o existe e se mostra de uma boniteza que veio para desafiar o futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>*****<\/strong><\/p>\n<p><em>DESCULPAS <\/em><\/p>\n<p><em>Na \u00faltima cr\u00f4nica \u201cO CAIPIRA, O MULATO E A TEORIA DA DEPEND\u00caNCIA\u201d,\u00a0onde se l\u00ea &#8220;Forma\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Brasil\u201d de Celso Furtado, leia-se livro \u201cHist\u00f3ria Econ\u00f4mica do Brasil\u201d de Caio Prado J\u00fanior&#8221;. Coisas da pandemia.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tonico e Tinoco: m\u00fasicas que revelavam as entregas apaixonadas e mal resolvidas Pensando bem, \u00e9 muito estranha a percep\u00e7\u00e3o do cancioneiro sertanejo em nosso mund\u00e3o &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18269,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18264","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18264"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18264\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18270,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18264\/revisions\/18270"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18269"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}