{"id":18238,"date":"2020-08-16T10:21:44","date_gmt":"2020-08-16T13:21:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18238"},"modified":"2020-08-22T20:03:19","modified_gmt":"2020-08-22T23:03:19","slug":"o-caipira-o-mulato-e-a-teoria-de-dependencia-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-caipira-o-mulato-e-a-teoria-de-dependencia-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O caipira, o mulato e a teoria de depend\u00eancia (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>O mundo \u00e9 poliss\u00eamico. Tudo depende do jeito de falar, do tom de voz, maneira de escrever ou se expressar. Na mesma toada de \u201co que d\u00e1 pra rir d\u00e1 pra chorar\u201d, do batido \u201ccopo meio cheio, meio vazio\u201d, ou mesmo da \u201crosa entreaberta, entrefechada\u201d, a refer\u00eancia ao caipira e ao negro pode se ajeitar tanto no preconceito pejorativo como no elogio ufanista. O enfoque fica mais complicado quando luzes s\u00e3o acesas sobre o brio nacional e a participa\u00e7\u00e3o na cena pol\u00edtica recente. \u00c9 a\u00ed que a mem\u00f3ria ganha nuan\u00e7as consequentes e coloca em quest\u00e3o a civiliza\u00e7\u00e3o de fei\u00e7\u00f5es europeias como avesso do nacionalismo de matiz acaboclada. Mas&#8230; mas tem hora em que o orgulho nativista reponta desafiando a redefini\u00e7\u00e3o do <em>ethos<\/em> da brasilidade. O uso pol\u00edtico dos julgamentos \u00e9 term\u00f4metro prop\u00edcio para medir a absor\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es como \u201ccaipirismo\u201d e \u201cmesti\u00e7agem\u201d. Na mesma medida, o contraste emerge quase sempre em nome da dicotomia progresso x atraso.<\/p>\n<p>Com certeza, em termos ampl\u00edssimo, este debate como n\u00f3 te\u00f3rico foi amarrado nos anos de 1920 \u2013 mais precisamente em 22 \u2013 quando ent\u00e3o o Movimento Modernista deu argumentos formais para a aparente refuta\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo colonizador europeu. Frases f\u00e1ceis e de efeitos est\u00e9ticos ecoaram em brados picantes como \u201ctupi or not tupi\u201d (Oswald de Andrade) ou \u201csou um tupi tangendo um ala\u00fade\u201d (Mario de Andrade). Com a passagem pronunciada em 1928, no livro \u201cMacuna\u00edma\u201d, de Mario de Andrade, estava decretado o dilema \u201cOropa, Fran\u00e7a e Bahia\u201d, e assim, abria-se a temporada para a qualifica\u00e7\u00e3o moderna de quem somos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Mariio-e-Oswald-de-Andrade.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18239\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Mariio-e-Oswald-de-Andrade-450x295.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Mariio-e-Oswald-de-Andrade-450x295.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Mariio-e-Oswald-de-Andrade-300x197.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Mariio-e-Oswald-de-Andrade.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>M\u00e1rio e Oswald de Andrade: \u201ctupi or not tupi\u201d ou \u201csou um tupi tangendo um ala\u00fade\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na fresta irrompida na d\u00e9cada de 1930, os tr\u00eas grandes <em>ensaios fundadores<\/em> da produ\u00e7\u00e3o intelectual brasileira se abra\u00e7aram para nos explicar na chave da \u201cRa\u00edzes do Brasil\u201d (Sergio Buarque de Holanda), \u201cCasa grande e senzala\u201d (Gilberto Freyre) e \u201cHist\u00f3ria econ\u00f4mica do Brasil&#8221; (Caio Prado J\u00fanior). De certa forma, ainda que com cr\u00edticas, a cultura em todos n\u00edveis expressivos carreou o pressuposto da gentileza mesti\u00e7a e das del\u00edcias tropicais. Como estere\u00f3tipo de conveni\u00eancia, nos deixamos transparecer como pa\u00eds harmonioso, de rela\u00e7\u00f5es incruentas, enfim um povo acolhedor, simp\u00e1tico, brincalh\u00e3o. E nossas marcas eram o samba, a feijoada, o carnaval junto com o futebol, e mais recentemente a caipirinha e a capoeira. Tudo bem arrumadinho no melhor feitio esticado popularmente na base do \u201c<em>patropi<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Diria que nos anos de 1980, na apelidada \u201cd\u00e9cada perdida\u201d, publicamente os desconfortos latentes come\u00e7aram manchar essas l\u00f3gicas simplistas que n\u00e3o se continham mais nas abstra\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas e te\u00f3ricas. Era chegado o tempo da prova\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica que punha em d\u00favidas as refer\u00eancias filtradas pela representatividade abstrata. E n\u00e3o foi sem motivos que as campanhas eleitorais deixaram transparecer tais dilemas, at\u00e9 porque os votantes teriam que caber nos perfis dados pela \u201cimagem e semelhan\u00e7a\u201d dos candidatos. Conv\u00e9m lembrar que a essa altura j\u00e1 havia concorrentes com perfis populares, comprometendo a generalidade estereotipada. Tudo ficou mais expl\u00edcito na campanha presidencial que culminou com a vit\u00f3ria de Collor de Melo em 1989 quando um nordestino, migrante, perdeu para um leg\u00edtimo filho da elite. Seu substituto, Itamar Franco, passou a ser taxado de \u201ccaipira\u201d, e por isto incapaz.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Itamar-Franco.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18240\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Itamar-Franco-450x298.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Itamar-Franco-450x298.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Itamar-Franco-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Itamar-Franco-768x509.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Itamar-Franco.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O ent\u00e3o presidente Itamar Franco<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na elei\u00e7\u00e3o de 1994, o tema sobre a representatividade \u00e9tnica ganhou not\u00e1vel visibilidade. Sobremaneira, o candidato Fernando Henrique Cardoso, intelectual respeitado por produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica fundamental, projetou o problema tanto em esfera nacional como internacional. Dono da sofisticada \u201cteoria da depend\u00eancia\u201d, onde demonstrava a fatalidade do v\u00ednculo entre \u201ccentro e periferia\u201d, em sua campanha presidencial, tendo novamente como opositor o mesmo tipo \u201cdo povo\u201d, atraiu o debate para o eleitorado. Valendo-se de estrat\u00e9gia populista, a fim de garantir que n\u00e3o exclusivamente da elite, insistia em dizer-se \u201cmulatinho\u201d, \u201ccom p\u00e9 na cozinha\u201d e at\u00e9 \u201cafricaninho\u201d.<\/p>\n<p>As escolhas de FHC objetivaram primeiro o eleitorado negro, mas manteve o tom negativo do caipira. \u00a0Em 1996, por exemplo, disse em Lisboa \u201ccomo vivi fora do Brasil, na Europa, no Chile, na Argentina, me dei conta disso: os brasileiros s\u00e3o caipiras. Desconhecem o outro lado e, quando conhecem, se encantam\u201d. No ano 2000, novamente em campanha, n\u00e3o poupou os caipiras e naquele junho, disse textualmente: \u201cFoi a mentalidade realmente colonial que, infelizmente, pegou parte da nossa elite, at\u00e9 parte da elite universit\u00e1ria, da elite da imprensa, que tem cabe\u00e7a colonial, que imagina que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds que tem de andar de cabe\u00e7a curvada a toda hora\u201d.<\/p>\n<p>Sobre o caipira, a percep\u00e7\u00e3o negativa de FHC atravessou os tempos, n\u00e3o mudou, e fez-se particularmente not\u00e1vel quando em 2012, falando sobre moderna pol\u00edtica expressou-se contra seu ex-ministros (duas vezes) Serra dizendo que ele era \u201cprovinciano\u201d, mas muito pior foi referir-se a Alckmin, reconhecendo que \u201cele n\u00e3o saiu de Pindamonhangaba ainda. Quando foi deputado federal, parecia um vereador\u201d, aludindo a pr\u00e1tica de trocar telefonemas com prefeitos para discutir conv\u00eanios firmados pelo governo estadual.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/fhc-e-itamar.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18241\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/fhc-e-itamar-450x270.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"270\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/fhc-e-itamar-450x270.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/fhc-e-itamar-300x180.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/fhc-e-itamar.png 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O olhar cr\u00edtico negativo de FHC sobre os caipiras sugere outra leitura de sua teoria da depend\u00eancia: tudo fica submetido a uma mentalidade central, urbana, industrial, que, por sua vez, projeta o caipira na margem oposta. E ent\u00e3o a culpa de tudo passa a ser do pobre caipira que, afinal, seria o produto acabado da tal mentalidade colonial. Estranho mesmo \u00e9 o processo de escolha de contingentes de eleitores. Os caipiras ficaram de fora, pois, <em>grosso modo<\/em>, n\u00e3o participam maci\u00e7amente do bloco votante engrossado pelos negros nas cidades. A boa not\u00edcia \u00e9 que aos poucos vamos aprendendo a ver quem \u00e9 quem, al\u00e9m dos preconceitos e, assim, entendemos melhor quem \u00e9 quem&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo \u00e9 poliss\u00eamico. Tudo depende do jeito de falar, do tom de voz, maneira de escrever ou se expressar. 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