{"id":18195,"date":"2020-08-02T13:40:49","date_gmt":"2020-08-02T16:40:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18195"},"modified":"2020-08-02T13:52:03","modified_gmt":"2020-08-02T16:52:03","slug":"e-o-vento-levou-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/e-o-vento-levou-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"E O VENTO LEVOU&#8230; (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Meditando sobre os argumentos que integram as agendas atuais, a chamada \u201cquest\u00e3o racial\u201d ganha destaque por diferentes \u00e2ngulos. <em>Grosso modo<\/em>, h\u00e1 dois polos que se buscam numa l\u00f3gica nem sempre bem encaminhada. Ali\u00e1s, a multiplica\u00e7\u00e3o <em>ad nauseam<\/em> de fatos ilustrativos tem sido emba\u00e7ada de maneira a n\u00e3o permitir exames explicativos de voca\u00e7\u00e3o linear. No lugar, polariza\u00e7\u00f5es acabam por lan\u00e7ar tudo num \u201c\u00e0 favor ou contra\u201d, quase sempre sem subst\u00e2ncia. Navegando pelos mesmos meandros, situa\u00e7\u00f5es internacionais se emendam de maneira a compor um quebra cabe\u00e7a com pe\u00e7as que misturam jogos diferentes. N\u00e3o que n\u00e3o haja denominadores comuns entre as diversas causas, elas existem, mas algumas eventuais alternativas remetem \u00e0 colagem de situa\u00e7\u00f5es que que n\u00e3o se explicam nos meios em que s\u00e3o ambientadas.<\/p>\n<p>Um pouco por conta da justa campanha contra a viol\u00eancia policial que provocou a morte de George Floyd, em escala mundial, uma s\u00e9rie de demonstra\u00e7\u00f5es tem vindo \u00e0 ordem do dia. A tend\u00eancia ao desmonte de um tipo de hist\u00f3ria que suportou o tr\u00e1fico e a escravid\u00e3o negra muitas vezes frustra pela car\u00eancia de fundamentos que poderiam melhor instruir pautas justas. Vamos a um exemplo. H\u00e1 algumas semanas rodou em v\u00e1rias redes sociais uma campanha assaz pol\u00eamica por ser chocantemente anacr\u00f4nica, ou seja, por considerar com olhos de hoje o que n\u00e3o era v\u00e1lido no tempo relatado. Um grupo de pessoas que se dizem antirracistas deflagrou campanha conta o filme \u201cE o vento levou\u201d, cl\u00e1ssico do cinema norte-americano de 1939.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Hattie-McDaniel.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18196\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Hattie-McDaniel-450x349.jpg\" alt=\"Hattie McDaniel\" width=\"450\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Hattie-McDaniel-450x349.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Hattie-McDaniel-300x233.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Hattie-McDaniel.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Hattie McDaniel foi a primeira atriz preta a ganhar o Oscar no filme E o vento levou&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No ano seguinte, concorrendo ao Oscar a pel\u00edcula baseada no livro da jornalista Margaret Mitchell al\u00e9m de arrebatar os principais pr\u00eamios deu ensejo a um fato marcante na hist\u00f3ria do cinema: pela primeira vez uma atriz negra, Hattie McDaniel, ganhava o trof\u00e9u. Na ocasi\u00e3o, emocionada ela declarou \u201cespero sinceramente ser sempre motivo de orgulho para minha ra\u00e7a e para a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica\u201d. Tendo feito o papel de empregada dom\u00e9stica, filha de ex escravos durante a Guerra de Secess\u00e3o, a atriz concorreu com Ol\u00edvia de Havilland, preferida. <em>Dear Hattie<\/em> \u2013 como gostava de ser chamada \u2013 voltou \u00e0 cena como foco principal de uma campanha contra a inclus\u00e3o do cl\u00e1ssico filme na lista do HBO. Pelos protocolos da \u00e9poca daquela premia\u00e7\u00e3o, os negros n\u00e3o poderiam pisar na famosa passarela vermelha e nem entrar pela mesma porta que os brancos.<\/p>\n<p>A retomada dessa lament\u00e1vel atitude estadunidense valeu como argumento para a pretendida suspens\u00e3o do filme. In\u00fameras personalidades, principalmente da cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica, bradaram contra, e por fim ficou reestabelecido o merecido posto da pe\u00e7a que \u00e9 considerada entre os dez melhores de toda a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O destaque dado entre n\u00f3s ao epis\u00f3dio hollywoodiano merece um paralelo importante com algo que se passou no Brasil, tamb\u00e9m envolvendo uma atriz negra norte-americana. Em junho de 1950, o Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo recebia uma famosa companhia de dan\u00e7a que fazia estrondoso sucesso na Broadway. A estrela principal, Katherine Dunham, tamb\u00e9m conhecida como &#8220;matriarca e rainha m\u00e3e de dan\u00e7a negra&#8221;, al\u00e9m de antrop\u00f3loga era ativista da causa antirracista, e tamb\u00e9m por isto personagem de destaque mundial. Ao chegar na capital paulista depois de passagem pelo Rio, teve sua reserva &#8211; bem como de todo seu elenco &#8211; vetada no ent\u00e3o elegante Hotel Esplanada. Profissional respons\u00e1vel, mudou o endere\u00e7o, fez a apresenta\u00e7\u00e3o que se repetiu por mais duas semanas provocando del\u00edrio das plateias &#8211; ainda que a primeira apresenta\u00e7\u00e3o fosse atrasada pela dificuldade de montagem. De toda forma, na primeira coletiva \u00e0 imprensa, indignada, p\u00f4s a boca no trombone. Os grandes jornais como O Estado de S. Paulo, Folha da Manh\u00e3 e Jornal de Not\u00edcia, entre outros, alardearam a situa\u00e7\u00e3o, provocando um debate que merece cuidados dos ativistas brasileiros.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Gilberto-Freyre.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18197\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Gilberto-Freyre-450x289.jpg\" alt=\"Gilberto Freyre\" width=\"450\" height=\"289\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Gilberto-Freyre-450x289.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Gilberto-Freyre-300x193.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Gilberto-Freyre.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Gilberto Freyre, autor do cl\u00e1ssico Casa Grande &amp; Senzala<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Os ecos do evento ressoaram fortes tamb\u00e9m na pol\u00edtica. Um dos debates mais intrigantes sobre os preconceitos culturais brasileiros tem sido apagado, principalmente porque envolve de forma direta a figura de Gilberto Freyre. Sim, exatamente o consagrador maior do que ficou conhecido como \u201cmito da democracia racial\u201d, era a esse tempo deputado e fez eloquente discurso apontando o absurdo da situa\u00e7\u00e3o dizendo que \u201co fato n\u00e3o deve ficar sem uma palavra de protesto nacional\u201d. E n\u00e3o ficou, pois deu alento \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da Lei Afonso Arinos. Cabe lembrar que o debate sobre a desej\u00e1vel criminaliza\u00e7\u00e3o do racismo teve que superar a fase anterior quando na Constituinte de 1946 se deu um desentendimento entre as propostas mais liberais e o partido comunista que percebia a causa como desviante da proposta de \u201cluta de classes\u201d.<\/p>\n<p>Assim, modestamente ficou assinalada naquela Carta, no artigo 141, \u00a7 5\u00ba apenas a proibi\u00e7\u00e3o \u00e0 propaganda de preconceitos de ra\u00e7a. Houve algum avan\u00e7o com a Lei Afonso Arinos que, em 1951, foi promulgada por Vargas, proibindo a discrimina\u00e7\u00e3o racial, considerando o ato como preconceito de ra\u00e7a e cor da pele.<\/p>\n<p>Lembrando que apenas na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, no artigo 5\u00ba, inciso XLII, tivemos a pr\u00e1tica do racismo como \u201ccrime inafian\u00e7\u00e1vel e imprescrit\u00edvel\u201d, resta retomar a proposta lembrando que sem uma consistente no\u00e7\u00e3o dos fatos nacionais fica dif\u00edcil o entendimento da moldura nacional do debate sobre racismo. As alus\u00f5es ao \u201cE o vento levou\u201d e a participa\u00e7\u00e3o de Katheline Dunham, bem como o reenquadramento de Gilberto Freye e Afonso Arinos comprovam a necessidade de an\u00e1lise dos protagonistas no debate que, infelizmente, hoje mais se parecem com discuss\u00f5es norte-americanas do que propriamente nacionais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meditando sobre os argumentos que integram as agendas atuais, a chamada \u201cquest\u00e3o racial\u201d ganha destaque por diferentes \u00e2ngulos. 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