{"id":18185,"date":"2020-07-26T09:29:16","date_gmt":"2020-07-26T12:29:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18185"},"modified":"2020-07-26T09:30:26","modified_gmt":"2020-07-26T12:30:26","slug":"somos-todos-racistas-nosso-pecado-original-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/somos-todos-racistas-nosso-pecado-original-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"SOMOS TODOS RACISTAS: nosso pecado original (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Algumas pautas vieram para ficar. Temas como feminismo e quest\u00f5es de g\u00eanero ganharam postos definitivos nas reivindica\u00e7\u00f5es por direitos de minorias vulner\u00e1veis. Dentre tantas, sem d\u00favidas, a quest\u00e3o racial reponta como das mais expostas \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, principalmente depois da publicidade estat\u00edstica que, via CPI, revelou a assustadora cifra e um jovem negro morto a cada 23 minutos no Brasil. Tendo como refer\u00eancia o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos e as rea\u00e7\u00f5es gerais, a quest\u00e3o exibe voca\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria e nos coloca todos numa berlinda moral: como chegamos a este ponto?<\/p>\n<p>Uma das conquistas mais eloquentes dos brados antirracistas est\u00e1 em sua qualifica\u00e7\u00e3o como <em>estrutural<\/em>. Mas, em ess\u00eancia, o que significa <em>racismo estrutural<\/em>? Que condi\u00e7\u00e3o lhe garante este atributo e que diferen\u00e7a faz? A fatalidade da pergunta demanda reconhecer que a no\u00e7\u00e3o de escravismo \u00e9 antiga, antiqu\u00edssima ali\u00e1s, mas a consci\u00eancia de sua proje\u00e7\u00e3o como problema cr\u00f4nico no presente \u00e9 jovem e desafiadora de revers\u00f5es. Desde sempre falamos da escravid\u00e3o como sistema, e n\u00e3o faltam historiadores que passam a vida desvelando os mecanismos da domina\u00e7\u00e3o de uns sobre outros, de brancos sobre negros e ind\u00edgenas, tudo sob a imposi\u00e7\u00e3o do lucro. Com o tempo, a absor\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica dessa f\u00f3rmula deformou o l\u00e1bio, mas, por fim, o cachimbo caiu. Mesmo libertos, no geral, o negro continua marginalizado, lutando para tornar verdade o preceito rom\u00e2ntico de liberdade, igualdade e fraternidade. Ent\u00e3o, frente ao fracasso, o pret\u00e9rito se abre para a pergunta que n\u00e3o consegue mais calar: como n\u00e3o notamos isto antes? Por que n\u00e3o entendemos o drama que tanto nos envergonha?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/George-Floyd.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18186\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/George-Floyd-450x252.jpg\" alt=\"George Floyd\" width=\"450\" height=\"252\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/George-Floyd-450x252.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/George-Floyd-300x168.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/George-Floyd-768x430.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/George-Floyd-265x147.jpg 265w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/George-Floyd-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/George-Floyd.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Assassinato de George Floyd nos EUA foi o estopim de um movimento latente<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A insist\u00eancia das desigualdades fez o que era c\u00f4modo para uns virar insuport\u00e1vel para outros e a explos\u00e3o n\u00e3o mais segura m\u00e1goas acumuladas em transcendentais mem\u00f3rias de dor. A consci\u00eancia de classe de grupos atingidos ganhou for\u00e7a e organiza\u00e7\u00e3o, e uma solidariedade racial se tece costurando experi\u00eancias diversas que, ali\u00e1s, se valem da pr\u00f3pria problem\u00e1tica para reclamar direitos estabelecidos. E temos que aprender mais que o di\u00e1logo simples, o exerc\u00edcio de conv\u00edvio como o exclu\u00eddo que se faz notar. Urge superar as cab\u00edveis tramas das diferen\u00e7as e entender a sanha da raiva e da vingan\u00e7a expressas pelas manifesta\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias de quantos padecem submiss\u00f5es, muitas nem sempre t\u00e3o sutis. Dif\u00edcil. Dif\u00edcil sobretudo porque antes temos que acertar uma conta moral, nossa, de brancos que se valeram da cor da pele para dominar. E isto demanda assumir a hist\u00f3ria. \u00c9 precisamente neste ponto que atua a quest\u00e3o estrutural. Vejamos um exemplo eloquente, 97% dos nossos parlamentares s\u00e3o brancos, em um pa\u00eds com 54% de negros.<\/p>\n<p><em>Racismo estrutural<\/em> \u00e9 conceito exercitado para dimensionar experi\u00eancias de sociedades que se organizaram com base na hierarquia secular de mandos, segundos crit\u00e9rios culturais e pr\u00e1ticos, ambos discriminat\u00f3rios. Propriet\u00e1rios \u2013 no caso do Brasil, brancos crist\u00e3os \u2013 se aparelharam com leis e preceitos de controle de grupos submissos, regidos pelo que foi o maior neg\u00f3cio da humanidade em todos os tempos: o longo tr\u00e1fico negreiro. Criou-se, portanto, no jogo de rela\u00e7\u00f5es universais um birrento sistema racista. Com aberturas calibradas e com varia\u00e7\u00f5es contidas, em diversos espa\u00e7os, a mobilidade social foi sendo estratificada e tornou-se conveniente. Nesta linha, conv\u00e9m lembrar que o Brasil foi o pa\u00eds que maior n\u00famero de escravos recebeu \u2013 mais de 4,2 milh\u00f5es \u2013 e figura entre os \u00faltimos a \u201clibertar os escravos\u201d. E tem mais, a Lei que decretou tal condi\u00e7\u00e3o foi estabelecida no \u00e2mbito do poder dominante que cuidou de n\u00e3o planejar a reinser\u00e7\u00e3o do contingente nos projetos nacionais. Pelo contr\u00e1rio, nossa Aboli\u00e7\u00e3o equivaleu a condena\u00e7\u00e3o \u00e0 marginalidade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Capoeira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18187\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Capoeira-450x294.jpg\" alt=\"Capoeira\" width=\"450\" height=\"294\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Capoeira-450x294.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Capoeira-300x196.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Capoeira.jpg 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A capoeira foi proibida e seus praticantes eram presos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Libertos sem ter a condi\u00e7\u00e3o constitucional de cidadania, os negros n\u00e3o puderam integrar, por exemplo, o ensino p\u00fablico ou se valer de cuidados da sa\u00fade. Sem meios elementares de competi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o conseguiram concorrer com vantagens favor\u00e1veis dadas aos imigrantes que se aproveitaram da Lei de Terras de 1850. Reverso, numa rela\u00e7\u00e3o de direitos invertidos, os brancos estrangeiros se integraram progressivamente, enquanto os \u201clibertados\u201d, sem educa\u00e7\u00e3o formal e acesso ao trabalho, vagariam \u00e0 margem do sistema.<\/p>\n<p>Em 1890, a Lei dos Vadios e Capoeiras, por exemplo, cuidava dos negros sem condi\u00e7\u00f5es de pertencimento \u00e0 sociedade de classes, e, assim inaugurava-se um problema continuado em nossa realidade: a pris\u00e3o cheia de descendentes de escravos. E a marginalidade legal, consideremos, perdurou at\u00e9 1951, com a Lei Afonso Arinos que enquadrou o racismo como crime. Ao longo de anos, sem direitos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima, a cultura branca cultivou mitos da democracia racial e os morros foram se enchendo de contingentes sem chances de pertencimento efetivo no corpo nacional. Ah, a democracia racial!&#8230; Ah, o Brasil sem preconceitos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o haveria exagero algum em afirmar que estruturalmente fomos educados para n\u00e3o admitir que somos racistas cr\u00f4nicos e, agora, admitir a prem\u00eancia do reconhecimento de uma cultura de exclus\u00e3o \u00e9 o primeiro passo para que se consiga uma sociedade minimamente mais justa e pouco mais igualit\u00e1ria. Comecemos, pois, por acatar nosso pecado original: a escravid\u00e3o mal resolvida. A partir disto poderemos assumir que antirracismo n\u00e3o \u00e9 ter um amigo ou um vizinho preto, tratar a empregada como algu\u00e9m da fam\u00edlia, ou criticar o que se v\u00ea nos Estados Unidos ou na \u00c1frica do Sul. Ser antirracista \u00e9, em primeiro lugar, assumir que fomos plasmados numa hist\u00f3ria que n\u00e3o nos permitiu ver o quanto cruel e violento fomos. Isto implica consentir nosso pecado original e revert\u00ea-lo. Falo de cotas raciais em primeiro lugar. Cotas, batismo da remiss\u00e3o necess\u00e1ria porque justa. Am\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Algumas pautas vieram para ficar. Temas como feminismo e quest\u00f5es de g\u00eanero ganharam postos definitivos nas reivindica\u00e7\u00f5es por direitos de minorias vulner\u00e1veis. 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