{"id":18168,"date":"2020-07-18T15:29:56","date_gmt":"2020-07-18T18:29:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18168"},"modified":"2020-07-18T15:45:31","modified_gmt":"2020-07-18T18:45:31","slug":"aquele-abraco-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/aquele-abraco-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"AQUELE ABRA\u00c7O&#8230; (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Gilberto Gil, criador da m\u00fasica &#8220;Aquele abra\u00e7o&#8221;, em 1969, depois da deten\u00e7\u00e3o, antes de partir para o ex\u00edlio<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Quando dei por mim estava emocionado. Foi instintivo. Peguei o jornal com as expectativas de sempre: convid19, bola fora do governo, dificuldades p\u00fablicas na manuten\u00e7\u00e3o do distanciamento, desemprego&#8230; Mas ler jornal \u00e9 v\u00edcio velho, vem de fam\u00edlia. E tem que ser jornal f\u00edsico, de papel e daqueles em que mesmo as moderniza\u00e7\u00f5es coloridas e a varia\u00e7\u00e3o tipogr\u00e1fica ainda n\u00e3o afetaram o tamanho. Jornal, jornal, entende? Sabe, mantenho esta pr\u00e1tica como os saudosos len\u00e7os brancos nas partidas de trens. Vai acabar, eu sei, mas enquanto isto sou dos que ainda viram as p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Pois bem, estava percorrendo a ladainha de not\u00edcias que perderam o teor indignado quando, num desses cadernos complementares li a not\u00edcia de uma professora, de 47 anos, que decidiu abra\u00e7ar seus 57 alunos, todos com menos de 10 anos de idade. Imagino o cen\u00e1rio em pleno Padre Miguel, na pobre Zona Oeste da Cidade Maravilhosa. Maura Silva disse que n\u00e3o aguentou a saudade e que precisava desesperadamente abra\u00e7\u00e1-los. Sabe o que fez? Do pr\u00f3prio bolso comprou material e paciente produziu \u201ckits seguran\u00e7a\u201d. Minuciosamente, fez um roteiro, contratou motorista para acompanh\u00e1-la e n\u00e3o economizou l\u00e1grimas. Surpresa para os meninos e meninas, com min\u00facia premeditada, avisou os familiares e contou com um carro de som que fazia a trilha sonora da visita: as m\u00fasicas que as crian\u00e7as cantavam na Escola Municipal Frei Vicente Salvador.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/kit-abraco.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18170\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/kit-abraco-450x314.jpg\" alt=\"kit-abraco\" width=\"450\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/kit-abraco-450x314.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/kit-abraco-300x209.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/kit-abraco.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Maura Silva do pr\u00f3prio bolso comprou material e paciente produziu \u201ckits seguran\u00e7a\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O artigo foi destacado numa primeira p\u00e1gina do \u201cCaderno Local\u201d, mas \u00e9 breve. Queria mais e n\u00e3o encontrando detalhes, busquei refer\u00eancias ao sentido do abra\u00e7o pessoal, ou melhor, sobre a aus\u00eancia dele. Queria saber mais sobre resson\u00e2ncias corporais, efeitos ps\u00edquicos. Foi assim que alinhei algumas lembran\u00e7as que, como sempre, despertaram o que de melhor tenho, sensa\u00e7\u00f5es ternas e fome de explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Filtrei an\u00e1lises sobre os simulacros permitidos pela parafern\u00e1lia das m\u00e1quinas modernas e logo constatei que o contato f\u00edsico, t\u00e1til, tem mist\u00e9rios mais sutis do que os visuais ou auditivos, requer sensa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o compensadas, mesmo com muita perda, pelo ouvido ou pelo olhar, pelo cheiro ou mesmo pelo paladar. H\u00e1 todo um jogo de satisfa\u00e7\u00f5es que envolve o tato coordenador de bra\u00e7os, m\u00e3os, ritmos, posi\u00e7\u00f5es de cabe\u00e7a, ombro e at\u00e9 batimentos card\u00edacos. H\u00e1 uma dan\u00e7a tocante, ritual\u00edstica&#8230; Mas abra\u00e7os pand\u00eamicos t\u00eam hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Quando a covid19 come\u00e7ou a assustar o mundo ainda era um alerta distante, algo que acontecia na Europa e o s\u00e9culo passado mal tinha acabado de virar. As explica\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas alertavam que a It\u00e1lia era o pa\u00eds mais afetado devido a cultura da proximidade entre pessoas socialmente calorosas. Fator determinante do cont\u00e1gio a euforia das rela\u00e7\u00f5es parecia ser uma determinante potencialmente letal. Roberto DaMatta no Brasil anteviu o problema confirmando o risco brasileiro tamb\u00e9m latino e festeiro. T\u00e3o dados aos abra\u00e7os e toques; t\u00e3o cheios de beijinhos (em todas as escalas) e a alongados cumprimentos com as m\u00e3os, ser\u00edamos naturalmente um pa\u00eds de vulner\u00e1vel. E nem \u00e9 preciso mencionar campos de futebol, cerim\u00f4nias religiosas, blocos de carnaval&#8230; Estava claro o risco. Clar\u00edssimo!<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Roberto-DaMatta.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18171\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Roberto-DaMatta.jpg\" alt=\"Roberto DaMatta\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Roberto DaMatta no Brasil anteviu o problema<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O que era distante logo chegou e, mesmo pressentindo o comando desastrado, vimos nossas resist\u00eancias enfraquecidas numa velocidade apenas l\u00f3gica na ordem inversa da curva ascendente do cont\u00e1gio. Praticamente abandonados pelo governo, o medo derrotou a decantada gra\u00e7a brasileira, perdemos a picardia e aos olhos do mundo tornamo-nos perigosos, destruidores do meio ambiente, injustos com os pobres, incapazes de rea\u00e7\u00f5es articuladas. E entre n\u00f3s mesmos, fomos assim, com rapidez, trocando o riso f\u00e1cil e solto pelas l\u00e1grimas latentes. Dia a dia, deixamos de sair de nossas casas, postergamos encontros, celebra\u00e7\u00f5es e visitas foram minoradas. Tivemos que aprender esperar, mesmo sem paci\u00eancia. As m\u00e1scaras se fizeram perempt\u00f3rias e as conformidades foram se naturalizando. Entendemos na marra o significado de protocolos de distanciamento. Tudo isso limitando os abra\u00e7os que se escassearam na cad\u00eancia do confinamento.<\/p>\n<p>Meditava sobre isto quando me ocorreu um repert\u00f3rio musical que poderia ter servido de alerta. Sim, no Brasil as m\u00fasicas avisam. A primeira e \u00f3bvia can\u00e7\u00e3o que saiu da alma foi \u201cAquele abra\u00e7o\u201d do glorioso Gil, em 1969, depois da deten\u00e7\u00e3o, antes de partir para o ex\u00edlio. E amorosamente lembrei-me adolescente apaixonado cantarolando, do outro Gilberto, o Jo\u00e3o da bossa nova, que \u201cS\u00f3 em teus bra\u00e7os amor eu posso ser feliz\u201d. Em contrapartida me soou Daniela Mercury provocando \u201cSomos desse mesmo planeta\/ sou rio e necessito do mar\u201d, e n\u00e3o bastando, em seguida Beth\u00e2nia foi emendando \u201cAbracei o mar na lua cheia\u201d. Bem, de Beth\u00e2nia para o irm\u00e3o foi um pulo s\u00f3, e me apareceu Caetano quase declamando \u201cDei um la\u00e7o no espa\u00e7o\/ pra pegar um peda\u00e7o\/ do universo\u201d, era \u201cAbra\u00e7a\u00e7o\u201d. Tudo se ampliava de um jeito que Gabriel o Pensador parecia profeta dizendo \u201ceu vou correr pro abra\u00e7o\/ n\u00e3o fa\u00e7o tudo que amo, mas amo tudo que fa\u00e7o\u201d. Talvez, ningu\u00e9m tenha suplicado como Milton Nascimento \u201cme d\u00ea um abra\u00e7o\/ venha me apertar\u201d. Ivan Lins, por\u00e9m, parecia pensar hoje quando choramingou \u201cperdoem a cara amarrada\/ perdoem a falta de abra\u00e7o\u201d e terminou como recordarei este tempo \u201cos dias eram assim\u201d. Ah, mem\u00f3ria afetiva; ah, mem\u00f3ria subterr\u00e2nea, onde caber\u00e1 \u201caquele abra\u00e7o\u201d&#8230; Al\u00f4, al\u00f4, Terezinha&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>NR: Ao folhear OGlobo, como faz religiosamente todas as manh\u00e3s na terra maravilhosa, Mestre Sebe levou um susto neste s\u00e1bado ao se defrontar com a cr\u00f4nica do escritor angolano Jos\u00e9 Eduardo Agualusa &#8220;Troco tudo por um\u00a0 abra\u00e7o&#8221;, que pode ser conferido em\u00a0https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/troco-tudo-por-um-abraco-24538423<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilberto Gil, criador da m\u00fasica &#8220;Aquele abra\u00e7o&#8221;, em 1969, depois da deten\u00e7\u00e3o, antes de partir para o ex\u00edlio Quando dei por mim estava emocionado. 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