{"id":18083,"date":"2020-06-28T08:59:37","date_gmt":"2020-06-28T11:59:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18083"},"modified":"2020-06-29T08:02:38","modified_gmt":"2020-06-29T11:02:38","slug":"uma-lagrima-para-a-casa-abrahao-jose-carlos-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/uma-lagrima-para-a-casa-abrahao-jose-carlos-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"UMA L\u00c1GRIMA PARA A CASA ABRAH\u00c3O (Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para Manuela, Gabriel e Anna<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Dif\u00edcil dizer alguma coisa sobre a loja de meus pais, a Casa Abrah\u00e3o. Sei pouco da origem familiar do lado paterno; na surdina, fala-se que meu av\u00f4 havia morrido de fome no L\u00edbano durante a Primeira Guerra Mundial. H\u00e1 alguma documenta\u00e7\u00e3o referente ao local de origem do ramo Bom Meihy, Djbeil, na lind\u00edssima costa mediterr\u00e2nea. \u00d3rf\u00e3o, restava a meu pai um tio, Habib, bo\u00eamio conhecido na Lapa carioca. Aos 13 anos, sozinho, Abrah\u00e3o foi trazido para o Brasil. O Rio de Janeiro foi cen\u00e1rio adequado para o \u201cturquinho\u201d que logo ficou conhecido pela bela estampa e prosa sempre decantada&#8230;<\/p>\n<p>O lado materno era mais exposto, pois compunha a leva de libaneses vindos do Vale do Bekaa, depois de 1880, motivados pela visita do Imperador, Dom Pedro II. \u00c9 segura a afirmativa que, sendo crist\u00e3os, iriam dar in\u00edcio ao com\u00e9rcio religioso em Aparecida do Norte, SP. Juntamente com outros ramos oriundos da mesma \u00e1rea: Abdalla, Samaha, Chad, em conjunto, esses \u201cturcos\u201d deram vida a um ros\u00e1rio de barraquinhas que mais tarde se foram adaptadas \u00e0 din\u00e2mica da proposta e viraram lojas, depois hot\u00e9is, restaurantes.<\/p>\n<p>Papai era filho \u00fanico, contraste absoluto de minha m\u00e3e que tinha mais 17 irm\u00e3os. N\u00e3o bastasse, meus av\u00f3s ainda cuidaram de mais 4 netos. Complicado imaginar como em uma casa, sobrado com tr\u00eas quartos e dois banheiros, conviviam 24 pessoas. O deslocamento de Aparecida para Guaratinguet\u00e1, logo ao lado, foi resultado da necessidade de varia\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios aproveitando o momento em que os armaz\u00e9ns de secos e molhados se apresentavam como alternativa promissora. Decis\u00e3o de meu av\u00f4 Felipe: seria conveniente espalhar filhos por diferentes localidades do Vale, e assim temos Sebe por algumas pra\u00e7as vizinhas, sempre com lojas.<\/p>\n<p>Reza a lenda que meus pais se viram apenas uma vez antes do casamento. Arranjo comum entre os \u00e1rabes, minha m\u00e3e, filha do meio, deveria se casar logo, pois sua irm\u00e3 menor imediata estava com tudo arranjado para matrim\u00f4nio. Mas, havia de se cumprir um preceito respeitado: a ordem por idade. A julgar por ditado que minha av\u00f3 Sarah repetia &#8211; <em>primeiro case, depois ame<\/em> &#8211; este mantra teve fundamento. Sou testemunho de uma dedica\u00e7\u00e3o amorosa incontest\u00e1vel: nunca vi e sequer suponho, algu\u00e9m amar mais o c\u00f4njuge do que minha m\u00e3e. Meu pai, sempre dedicado \u00e0 fam\u00edlia, era muito (mas muito mesmo) cobi\u00e7ados pelas freguesas que o conheciam como \u201cturco dos olhos verdes\u201d &#8211; soube de uma que \u201ctomou veneno\u201d por causa dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Delego obedi\u00eancia \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o o fato de minha m\u00e3e levar <em>dote<\/em> no ato do cas\u00f3rio. E, imaginem, era uma bolsa com contornos em ouro. Soube depois que tal lastro foi vendido para o proeminente m\u00e9dico Dr Cembranelli que presenteara sua esposa. Com o produto, em 1931, surgiu a primeira loja, no Largo do Mercado, na esquina da rua Dr Silva Barros. Sem qualquer arrog\u00e2ncia devo dizer que esperteza e determina\u00e7\u00e3o para o trabalho foram sempre os eixos familiares dos Sebe Bom Meihy. E em 1932, com o dinheiro advindo do <em>dote<\/em>, meu pai abasteceu sua loja, deixando de ser mascate em Bananal, virando dono de loja. E veio 1932&#8230; A Revolu\u00e7\u00e3o Paulista surpreendeu os comerciantes sem mercadorias, mas a Casa Abrah\u00e3o&#8230;<a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Casa-Abrahao.jpg\"><br \/>\n<\/a> <a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Casamento.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18086\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Casamento-450x450.jpg\" alt=\"Casamento\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Casamento-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Casamento-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Casamento-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Casamento-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Casamento-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Casamento.jpg 562w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><em><strong>Mestre Sebe no dia do casamento com a saudosa Alice<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A fam\u00edlia haveria de crescer e isto se deu depois de algumas tentativas frustradas, ap\u00f3s a morte do primog\u00eanito em 1935; em 39 nascia minha irm\u00e3 Mirna. Dimensionando a expectativa de um homem, eu vim em 1943, e meu irm\u00e3o Marcelo em 45. Outro momento marcante nesta saga se deu na retomada da economia depois do fim da Segunda Guerra; foi quando, em 1948, meu tio Nicolau, irm\u00e3o mais velho de minha m\u00e3e, e que tamb\u00e9m tinha tamb\u00e9m loja no Largo do Mercado, resolveu abrir uma f\u00e1brica de tecidos no bairro da Estiva. Pronto: a Casa Abrah\u00e3o mudava para seu segundo endere\u00e7o, agora em frente ao Mercado, num sobrado novo que, em meus sonhos, era um castelo. E o sucesso continuava pelas m\u00e3os laboriosas da fam\u00edlia. Trabalho, trabalho, trabalho&#8230;<\/p>\n<p>No novo endere\u00e7o, meu pai optou por mudar a voca\u00e7\u00e3o do estoque que at\u00e9 ent\u00e3o se destinava a roceiros. Ali\u00e1s, devo dizer que meu pai sempre acreditou no progresso do Vale, e apostou no surgimento de uma classe m\u00e9dia local din\u00e2mica. E deu certo. Incr\u00edvel, em 1950 ele adivinhou que Taubat\u00e9 se vincularia a Ubatuba e imaginou l\u00e1 um hotel moderno. Precisaria de muito espa\u00e7o para contar a fa\u00e7anha que foi construir o S\u00e3o Charbel, sob aquelas condi\u00e7\u00f5es. Herc\u00faleo&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hotel.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18084\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hotel-450x271.jpg\" alt=\"Hotel\" width=\"450\" height=\"271\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hotel-450x271.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hotel-300x180.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hotel-768x462.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Hotel.jpg 770w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Empreendedor, Abrah\u00e3o construiu o Hotel S\u00e3o Charbel, em Ubatuba<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201c<em>Ad\u00e3o n\u00e3o se vestia, porque a Casa Abrah\u00e3o n\u00e3o existia<\/em>\u201d cantava o palha\u00e7o Pimentinha aos s\u00e1bados \u00e0 porta da loja sempre muito frequentada. Aconteceu que em 1975, papai se aproveitou da heran\u00e7a dos Sebe e partiu para a constru\u00e7\u00e3o da sede dos neg\u00f3cios na Pra\u00e7a Dom Epaminondas. E se fez a terceira Casa Abrah\u00e3o. Os neg\u00f3cios de meu pai se diversificaram, e com eles afastava-se o passado de pobreza. Papai sempre gostou de carro, mas nunca aprendeu a dirigir; sempre gostou de esportes, mas nunca praticou algum; sempre gostou de dan\u00e7ar, mas nunca levava minha m\u00e3e a bailes. Viva cantarolando, adorava Nelson Gon\u00e7alves e Dalva de Oliveira&#8230; Ningu\u00e9m gostava mais da vida do que ele! As risadas de meu pai eram contagiantes; contava causos hil\u00e1rios, e como poucos amou o Esporte Clube Taubat\u00e9. Com tantas conquistas os olhos de papai irradiavam luz ao ver a tabuleta da Casa Abrah\u00e3o&#8230; Quantas vezes eu o surpreendi na cal\u00e7ada olhando a placa: Casa Abrah\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O tempo passou, meus pais morreram, meu irm\u00e3o tamb\u00e9m. Mirna vive momento dif\u00edcil, e eu tenho que cumprir o destino. S\u00e3o poucas as costureiras, a roupa feita teve sucesso decisivo, os shoppings est\u00e3o a\u00ed, e meus filhos t\u00eam outras prioridades. E a pandemia selou o destino. O que resta? Est\u00e3o a\u00ed as lembran\u00e7as, a mem\u00f3ria apreendida na can\u00e7\u00e3o do amigo Renato Teixeira \u201cO turco do mercado\u201d que, ali\u00e1s, serve de trilha sonora ao trajeto de um sonho&#8230;<\/p>\n<p>Corre uma l\u00e1grima de adeus. Adeus Casa Abrah\u00e3o&#8230; Adeus&#8230; O sonho foi bem sonhado, diria Drummond&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Manuela, Gabriel e Anna Dif\u00edcil dizer alguma coisa sobre a loja de meus pais, a Casa Abrah\u00e3o. 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