{"id":18052,"date":"2020-06-21T08:27:50","date_gmt":"2020-06-21T11:27:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18052"},"modified":"2020-06-21T08:36:38","modified_gmt":"2020-06-21T11:36:38","slug":"derrubar-estatuas-destruir-monumentos-quebrar-imagens-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/derrubar-estatuas-destruir-monumentos-quebrar-imagens-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Derrubar est\u00e1tuas, destruir monumentos, quebrar imagens (Mestre  JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Correu o mundo o chute de um\u00a0bispo neopentecostal, em 1995, na imagem da padroeira do Brasil<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria \u00e9 mais velha do que se pensa. Muito mais. E tem nome: <em>iconoclastia<\/em>. A raiz etimol\u00f3gica mostra que este termo vem do grego <em>eikon<\/em> (imagem), <em>kasten<\/em> (quebrar). Pesquisas hist\u00f3ricas registram um movimento ocorrido no s\u00e9culo VIII, em pleno Imp\u00e9rio Bizantino. Tratava-se de contesta\u00e7\u00e3o religiosa que pregava contra o culto \u00e0s imagens ou idolatria. Com f\u00f4lego no \u00e2mbito religioso, a sanha contra a adora\u00e7\u00e3o de imagens, ao longo de s\u00e9culos foi ganhando outras pautas, estendendo-se \u00e0s artes e a homenageados distintos por feitos tidos como pol\u00eamicos e conden\u00e1veis. Estranho este mimetismo psicol\u00f3gico que tanto se expressa individualmente como no \u00e2mbito coletivo. De um ou de outro jeito, a viol\u00eancia e a agress\u00e3o s\u00e3o sempre componentes ao contrapelo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Guernica.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18060\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Guernica-450x166.jpg\" alt=\"Guernica\" width=\"450\" height=\"166\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Guernica-450x166.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Guernica-300x110.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Guernica.jpg 685w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Guernica, de Picasso, picha\u00e7\u00e3o por spray quando estava em exposi\u00e7\u00e3o em Nova York<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Um dos aspectos mais tenebrosos desta pr\u00e1tica culmina na destrui\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos que afetam, direta ou por tang\u00eancia, o sentido p\u00fablico materializado em pe\u00e7as postas em pra\u00e7as, museus, igrejas. Em termos religiosos, no Brasil, por exemplo, tivemos epis\u00f3dios marcantes que nos trazem a amarga lembran\u00e7a da a\u00e7\u00e3o empreendida por um jovem, em maio de 1978, quando ent\u00e3o retirou do altar-mor da Bas\u00edlica Nacional de Aparecida a imagem da Padroeira do Brasil. No atropelo do ato, descuidado, deixou cair a imagem que restou partida em peda\u00e7os. Alguns anos depois, o bispo neopentecostal S\u00e9rgio von Helder, em 1995, em uma apresenta\u00e7\u00e3o televisiva, chutou outra imagem de Nossa Senhora manifestando teatralmente sua posi\u00e7\u00e3o anticat\u00f3lica. Na mesma linha, muito recentemente temos assistido ataques a terreiros de umbanda e de candombl\u00e9, tamb\u00e9m dimensionando grave preconceito religioso. No exterior essas manifesta\u00e7\u00f5es ocorrem com certa frequ\u00eancia, sendo que, em alguns casos com destaque e indigna\u00e7\u00e3o internacional, como ali\u00e1s aconteceu com a destrui\u00e7\u00e3o das duas maiores est\u00e1tuas de Buda (55 e 38 metros de altura) no Afeganist\u00e3o, em mar\u00e7o de 2001.<\/p>\n<p>No campo das artes, o fen\u00f4meno \u00e9 bastante comum e alarmante. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es memor\u00e1veis como o da pintura \u201cMona Lisa\u201d roubada em 1911 por um italiano, atingida por pedra em 1956, colorida por spray vermelho no Jap\u00e3o em 1974, seriamente danificada por uma dose de \u00e1cido em 1956, e agredida com uma caneca de cer\u00e2mica em 2009. De forma bizarra, \u201cV\u00eanus no Espelho\u201d, de Vel\u00e1squez foi esfaqueada em Londres, em 1914, e, em 1974, \u201cGuernica\u201d de Picasso tamb\u00e9m sofreu picha\u00e7\u00e3o por spray quando ainda estava em exposi\u00e7\u00e3o em Nova York. Rembrandt teve sua \u201cD\u00e2nae\u201d, esfaqueada em 1975 na R\u00fassia, e a \u201cRonda Noturna\u201d igualmente agredida em Amsterd\u00e3, em 1976. A sequ\u00eancia \u00e9 grande, mas chama aten\u00e7\u00e3o atentados contra imagens e instala\u00e7\u00f5es. S\u00e3o v\u00e1rios registos de ataques \u00e0 est\u00e1tuas famosas como a Piet\u00e1 de Michelangelo (Vaticano), ao dedo de Davi arrancado do p\u00e9, \u00e0 martelada (Floren\u00e7a), mas nenhum foi t\u00e3o estranho como a insist\u00eancia nos ataques \u00e0 \u201cPequena Sereia\u201d, est\u00e1tua esculpida por Edvard Eriksen em 1913 e situada na entrada do porto de Copenhagem, na Dinamarca \u2013 no caso foram, de diferentes formas, desfechados 12 ataques. Num r\u00e1pido invent\u00e1rio, cabe listar no ano de 2016, mais e mil ataques em 76 pa\u00edses.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pieta-vandalizada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18054\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pieta-vandalizada-450x297.jpg\" alt=\"Pieta vandalizada\" width=\"450\" height=\"297\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pieta-vandalizada-450x297.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pieta-vandalizada-300x198.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Pieta-vandalizada.jpg 618w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>La Pieta de Michelangelo foi vandalizada no Vaticano<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Conv\u00e9m n\u00e3o ver isoladamente este comportamento que, al\u00e9m de ser dimensionado como pr\u00e1tica exercia ao longo dos tempos, merece ser considerado em seus aspectos constelares. Agress\u00f5es assim eclodem por algum motivo expl\u00edcito e extremado. De toda forma, n\u00e3o \u00e9 justo reduzir o significado do fen\u00f4meno diagnosticado como <em>hiperculturemia<\/em>. Este termo, ali\u00e1s, foi reconhecido a partir da famosa rea\u00e7\u00e3o &#8211; um desmaio longo, sofrido por Stendhal na Catedral de Floren\u00e7a, ante o conjunto de obras de arte e t\u00famulos famosos, em 1817. Os efeitos de pe\u00e7as art\u00edsticas, de homenagem ou religiosas s\u00e3o muito sutis e mexem com valores complexos pouco percebidos na l\u00f3gica cotidiana.<\/p>\n<p>Recentemente, um fen\u00f4meno tem chamado a aten\u00e7\u00e3o: as manifesta\u00e7\u00f5es antirracistas que incidem em derrubadas de est\u00e1tuas expostas em locais significativos. O mais recente, a derrocada da homenagem feita a Edward Colton, traficante de escravos, em Bristol, no Reino Unido, tem chamado aten\u00e7\u00e3o de todos. O movimento antirracista tem alertado o mundo para a atualiza\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es que mudam seu sentido na medida em que os acontecimentos ganham novos protagonistas. O tema \u00e9 grave e n\u00e3o cabe reduzi-lo a \u201cvandalismo\u201d. \u00c9 muito mais. O importante \u00e9 considerar a gravidade do caso e encontrar alternativas que n\u00e3o sejam a mera destrui\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o se apaga a hist\u00f3ria simplesmente supondo eliminar documentos. Lembre-se da gravidade da destrui\u00e7\u00e3o dos registros sobre a escravid\u00e3o, proposto no Brasil por Rui Barbosa. T\u00e3o consequente \u00e9 este tipo de atitude que, no Rio de Janeiro, h\u00e1 quem fale da destrui\u00e7\u00e3o do monumento a Zumbi, pois no Quilombo de Palmares vigiam regras escravistas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Buda.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18055\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Buda-450x311.jpg\" alt=\"Buda\" width=\"450\" height=\"311\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Buda-450x311.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Buda-300x207.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Buda-768x530.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Buda.jpg 1008w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, est\u00e1tua de Buda foi destru\u00edda pelo Taleban no Afeganist\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Mas, que fazer? Vale simplesmente mudar de lugar? Como a hist\u00f3ria n\u00e3o se apaga, por l\u00f3gico, a medida indicada \u00e9 a propositura de explica\u00e7\u00f5es em di\u00e1logo. \u00c9 dif\u00edcil, mas n\u00e3o d\u00e1 para destruir tamb\u00e9m a possibilidade de se pensar em esclarecimentos, em elucida\u00e7\u00f5es que, ao inv\u00e9s de recalcar m\u00e1goas, deem espa\u00e7os para debates sobre as consequ\u00eancias de atos e movimentos que deixam marcas que precisam ser levadas em conta. Este debate, se n\u00e3o esgotado em polariza\u00e7\u00f5es, traz outra virtude fundamental: medidas de repara\u00e7\u00e3o e direito de ofendidos. \u00c9 hora de pensar isto al\u00e9m das raivas \u2013 ainda que muitas vezes justificadas.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Correu o mundo o chute de um\u00a0bispo neopentecostal, em 1995, na imagem da padroeira do Brasil Esta hist\u00f3ria \u00e9 mais velha do que se pensa. &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18056,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18052","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18052","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18052"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18052\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18061,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18052\/revisions\/18061"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18056"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18052"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18052"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}