{"id":18015,"date":"2020-06-14T08:35:18","date_gmt":"2020-06-14T11:35:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18015"},"modified":"2020-06-14T08:35:18","modified_gmt":"2020-06-14T11:35:18","slug":"tarzan-e-george-floyd-vamos-abordar-o-racismo-estrutural-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/tarzan-e-george-floyd-vamos-abordar-o-racismo-estrutural-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"TARZAN E GEORGE FLOYD: vamos abordar o racismo estrutural?  Mestre JC Sebe Bom Meihy"},"content":{"rendered":"<p>Lembro-me aluno do col\u00e9gio interno, do S\u00e3o Joaquim em Lorena, no interior de S\u00e3o Paulo. Um entre centenas de adolescentes, havia certa liberdade para os que preferiam usar de forma diferente a hora do recreio: em vez dos esportes, conversas, correrias, optava por ir \u00e0 biblioteca. Exce\u00e7\u00e3o. Era o que precisava para exercitar mais minha curiosidade do que os m\u00fasculos.<\/p>\n<p>Os livros que compunham o acervo da <em>Sala de Leitura Dom Bosco<\/em>, como seria de se esperar, tratavam da vida de santos, her\u00f3is religiosos, m\u00e1rtires, fatos not\u00e1veis do cristianismo. Havia tamb\u00e9m, em complemento, uma sele\u00e7\u00e3o de obras cl\u00e1ssicas, quase sempre de autores portugueses &#8211; no caso de E\u00e7a de Queiroz, hoje fico em d\u00favida se constava \u201cO crime do Padre Amaro\u201d. Mas para surpresa, <em>\u00e0 gauche<\/em>, constava uma s\u00e9rie que fazia minhas del\u00edcias e permitia soltar a imagina\u00e7\u00e3o. Devorava a cole\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias do \u201cTarzan, o Rei das Selvas\u201d. Sei l\u00e1 por que, mas dos 24 livros da s\u00e9rie escrita pelo americano Edgar Rice Burroughs entre 1912 e 1965, havia os 18 publicados no Brasil pela Companhia Editora Nacional, alguns com tradu\u00e7\u00e3o de Monteiro Lobato. Fico pensando no significado dessas leituras para o menino que fui. Emo\u00e7\u00f5es. Encerrado entre paredes que se me afiguravam monumentais, sentindo-me confinado, o suposto desbravado e valente Tarzan me era o pr\u00f3prio emblema da liberdade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tarzan.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18016\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tarzan-310x450.jpg\" alt=\"Tarzan\" width=\"310\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tarzan-310x450.jpg 310w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tarzan-207x300.jpg 207w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tarzan-768x1115.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tarzan.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>\u00a0Personagem que fazia a cabe\u00e7a do autor<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A lembran\u00e7a deste epis\u00f3dio me veio \u00e0 cabe\u00e7a quando me deparei com o desafio de entendimento do crudel\u00edssimo assassinato do negro norte-americano George Floyd, h\u00e1 algumas semanas. Haveria alguma conex\u00e3o entre uma coisa e outra? Foi ent\u00e3o quando lembrei-me que o nome Tarzan significava \u201cpele branca\u201d, e que o hipot\u00e9tico sobrevivente do naufr\u00e1gio dos pais, lordes ingleses que foram atacados em algum lugar da \u00c1frica em 1888, foi adotado por uma macaca de nome Kala que cuidou do menino que, afinal, liderou um bando de s\u00edmios. O \u201cpele branca\u201d, que mal falava, era tamb\u00e9m amigo de alguns outros animais, elefantes, p\u00e1ssaros, mas feroz inimigo dos le\u00f5es, leopardos, cobras e crocodilos.<\/p>\n<p>O tempo passou. Continuei arrebatado pelo personagem Tarzan que ganhou o cinema, quadrinhos, pe\u00e7as teatrais. A imagem que sempre me vem \u00e0 mente o mostra enfrentando inimigos, quebrando o pesco\u00e7o de feras e conduzindo negros obedientes e indefesos. Demorou para que procedesse uma leitura mais armada do fen\u00f4meno e a aproximasse das cr\u00edticas feitas ao nosso Monteiro Lobato. Instado pelo pretenso investigador que cultivo em mim, primeiro me perguntei se haveria alguma liga\u00e7\u00e3o entre o Tarzan e o nosso Pedrinho, aquele das \u201cCa\u00e7adas\u201d, que via Tia Nast\u00e1cia assustada, subindo em \u00e1rvore como macaca. Deixei de lado a medita\u00e7\u00e3o gen\u00e9tico-anal\u00edtica dos personagens e sondei coment\u00e1rios a respeito do anacronismo, ou do tempo de produ\u00e7\u00e3o de cada uma dessas obras. Sei que \u00e9 errado julgar manifesta\u00e7\u00f5es do passado filtradas por preceitos de nosso tempo. Erro grave, ali\u00e1s, verdadeira afronta aos historiadores que respeitam condicionantes das reflex\u00f5es propostas. Os paralelos, contudo, s\u00e3o inevit\u00e1veis e reclamam explica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem padecer de simplismos ou chav\u00f5es que anulam espa\u00e7o, tempo e circunst\u00e2ncias. Assumir o produto sem defini\u00e7\u00e3o das parcelas \u00e9 um equ\u00edvoco at\u00e9 em aritm\u00e9tica, sabe-se bem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tia-Nastacia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18017\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tia-Nastacia.jpg\" alt=\"Tia Nastacia\" width=\"350\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tia-Nastacia.jpg 350w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tia-Nastacia-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tia-Nastacia-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tia-Nastacia-80x80.jpg 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Personagem de Monteiro Lobato amea\u00e7ada de censura<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No caso de Floyd, um guarda branco sufocando por oito minutos um cidad\u00e3o negro por pequeno delito \u00e9 algo a ser seriamente avaliado em termos de limites. Insuport\u00e1vel. Alguma coisa precisa ser corrigida e logo, mas, baseado em que diagn\u00f3stico? Quais as parcelas desta conta? E no caso dos dois polos haveria nexo em aproximar a leitura de Tarzan e Floyd? Em termos de homologia, \u00e9 erro fatal transpor uma situa\u00e7\u00e3o e vincul\u00e1-la a outra sem media\u00e7\u00f5es instru\u00eddas. E lembrei-me de Mohamed Ali, o lutador militante antirracista, perguntando \u00e0 m\u00e3e, frente a uma pintura da Santa Ceia, se os negros n\u00e3o estavam sentados ao lado de Cristo porque estariam na cozinha. Precisei pensar mais um pouco e, juntando os pontos, pude compreender que a mem\u00f3ria hist\u00f3rica \u00e9 sutil e muito mais potente que os indiv\u00edduos em seu tempo. Frente a tais premissas me perguntei mais severamente sobre a import\u00e2ncia de recomendar a leitura de Tarzan hoje, e refor\u00e7o a afirmativa garantindo que, com os elementos que temos no presente, \u00e9 poss\u00edvel fazer uma leitura cr\u00edtica dos enredos e analisar posi\u00e7\u00f5es que nos parecem conden\u00e1veis por cargas de preconceito atuais, mas n\u00e3o o eram antes. Condenar ou censurar, jamais. Jamais. Estudar, sim.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18018\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida-450x450.jpg\" alt=\"Estatua destruida\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida-768x768.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida-750x750.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Estatua-destruida.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Est\u00e1tua de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo sendo destru\u00edda<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Assistimos no mundo todo a manifesta\u00e7\u00f5es iconoclastas. Derrubam-se est\u00e1tuas de personagens que foram considerados ilustres no passado \u2013 at\u00e9 Colombo foi atacado \u2013 mas, n\u00e3o seria o caso de aproveitar exatamente estas situa\u00e7\u00f5es para motivar exames novos, feitos agora \u00e0 luz dos produtos somados? Vale desprez\u00e1-los ou \u201cdesconstru\u00ed-los\u201d sem crit\u00e9rios claros? Creio que a melhor abordagem para o racismo estrutural \u00e9 o aprendizado dos fragmentos que prop\u00f5em a corre\u00e7\u00e3o da fatalidade que nos compete refutar. Vamos ler Tarzan para compreender melhor nossa desgra\u00e7a racista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro-me aluno do col\u00e9gio interno, do S\u00e3o Joaquim em Lorena, no interior de S\u00e3o Paulo. 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