{"id":17453,"date":"2019-12-20T16:51:03","date_gmt":"2019-12-20T19:51:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=17453"},"modified":"2019-12-20T16:51:03","modified_gmt":"2019-12-20T19:51:03","slug":"pequenas-grandes-mudancas-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/pequenas-grandes-mudancas-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Pequenas grandes mudan\u00e7as (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Que o tempo passa n\u00e3o resta d\u00favida alguma. Nossos corpos denunciam: cabelos embranquecem, m\u00fasculos ficam pl\u00e1cidos, a vista se debilita, o cansa\u00e7o insiste, debilidades mil&#8230; Quando chegamos l\u00e1, num piscar de olhos, vemos que as coisas tamb\u00e9m mudam. \u00c1rvores envelhecem, animais dom\u00e9sticos morrem, modelos de carros tornam-se obsoletos, aparelhos el\u00e9tricos queimam e perdem validade. O efeito dos \u00e1lbuns fotogr\u00e1ficos nos surpreende com flashes de registros hoje inimagin\u00e1veis. \u00a0At\u00e9 o clima padece altera\u00e7\u00f5es e deixa avisos amea\u00e7adores de novas mudan\u00e7as. A moda dita regras que se op\u00f5em \u00e0s antigas, e o consumismo reafirma as configura\u00e7\u00f5es dos novos tempos. Ser moderno \u00e9 um pouco desmentir o passado disfar\u00e7ando as marcas do pret\u00e9rito.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas formas de constata\u00e7\u00e3o do tempo, uma abrupta, outra mansa, ambas perversas. A primeira me faz lembrar o filme do italiano Federico Fellini \u201c<em>E la nave v\u00e1<\/em>\u201d, feito em 1983. A pel\u00edcula narra a hist\u00f3ria do funeral de uma cantora de \u00f3pera que tem suas cinzas carregadas, em pat\u00e9tico s\u00e9quito, em um navio no qual os fi\u00e9is f\u00e3s as espalhariam no mar. A encomenda da falecida mandava que se buscasse o rumo de uma ilha, local de seu nascimento. A inten\u00e7\u00e3o do grupo muda de qualidade quando se descobre que o capit\u00e3o teria acolhido clandestinamente um bando de refugiados e, em conseq\u00fc\u00eancia, se daria um ataque de navio inimigo, situa\u00e7\u00e3o que transformava os amigos da falecida em prisioneiros c\u00famplices. O tom surrealista do encaminhamento da hist\u00f3ria permite pensar que a vida \u00e9 um del\u00edrio e que o inesperado exerce papel crucial na exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Queiramos ou n\u00e3o, a \u00fanica certeza absoluta que nos resta \u00e9 a morte. Mas antes dela envelhecemos. Sou daqueles que acham que fazer 60 anos \u00e9 \u2013 para os que lograram chegar at\u00e9 essa idade \u2013 a mais importante celebra\u00e7\u00e3o de qualquer vida. \u201cSessentar\u201d implica fazer uma op\u00e7\u00e3o decisiva: que tipo de velho se quer ser? Serei um desses ranzinzas, chatos, irritadi\u00e7os, ou pelo contr\u00e1rio, um velhinho simp\u00e1tico, gentil desses que tem voca\u00e7\u00e3o para Papai ou Mam\u00e3e Noel? Pois bem, pensando no fluir do tempo, dia destes, dei conta das transforma\u00e7\u00f5es que se operam em surdina, na intimidade da chamada \u201crealidade geracional\u201d. Sim, \u00e9 bom olhar os mais jovens e notar como as pequenas coisas, os detalhes de nossos cotidianos mudaram. \u00c9 preciso certa perspic\u00e1cia para medir a vida por altera\u00e7\u00f5es sutis implicadas nas formas de viver. Notei, por exemplo, que n\u00e3o se v\u00ea mais crian\u00e7as com bra\u00e7os ou pernas quebradas, que os jovens n\u00e3o t\u00eam mais espinhas na cara, que as vidra\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o mais quebradas e n\u00e3o s\u00e3o vistas mais brigas de alunos nos port\u00f5es das escolas, nem vendedores de balas caseiras, de quebra-queixo ou maria-mole. Estranho, n\u00e3o?! N\u00e3o \u00e9 que alguns objetos que faziam parte do er\u00e1rio infantil s\u00e3o desconhecidos hoje. E podemos come\u00e7ar pelas velhas enciclop\u00e9dias que instru\u00edam nossos saberes curiosos: Tesouro da Juventude, Barsa, Larousse&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/E-la-nave-va.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17455\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/E-la-nave-va.jpg\" alt=\"E la nave va\" width=\"400\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/E-la-nave-va.jpg 400w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/E-la-nave-va-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Relata funeral de uma cantora de \u00f3pera que tem suas cinzas carregadas, em pat\u00e9tico s\u00e9quito<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Fiquei estarrecido dia desses quando tive que explicar para um menino o que era um estilingue e bolinha de gude. M\u00e1quina de escrever exerce poder de maravilhar esta gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 nasceu no reino dos eletr\u00f4nicos. Nem se fala mais de coisas como \u201ccair a ficha\u201d, \u201cvirar o disco\u201d ou \u201ctirar retrato\u201d. Entendi melhor quando em conversa com um jovem eu exaltei o tamanho de um bolo de anivers\u00e1rio dizendo que \u201cera tamanho fam\u00edlia\u201d e minha surpresa se explicava pela presen\u00e7a no mesmo evento de pais separados, mas com seus novos pares, sendo inclusive que o pai estava junto com seu novo marido. Ent\u00e3o, \u201ctamanho fam\u00edlia\u201d n\u00e3o fazia mesmo sentido, nem \u201cpegar o bonde\u201d.<\/p>\n<p>Dando corda (ai meu Deus, \u201cdando corda\u201d, imagine) a essas reminisc\u00eancias lembrei-me de sambas antigos onde \u201cAm\u00e9lia era mulher de verdade, n\u00e3o tinha nenhuma vaidade\u201d e as mulatas podiam ser \u201cBossa nova e cair no <em>hully gally<\/em>\u201d e s\u00f3 dava ela, como queria Jo\u00e3o Robrto Kelly, e, para espanto meu, vi que Lamartine Babo seria censurado se apresentasse hoje \u201cO seu cabelo n\u00e3o nega mulata\u201d. Tudo muda e a acelera\u00e7\u00e3o do tempo torna o vertiginoso sutil. Nem notamos&#8230;<\/p>\n<p>Fazendo p\u00e1lido invent\u00e1rio dessas coisas, filosofei sobre a fatalidade das transforma\u00e7\u00f5es. Elas podem ocorrer de duas formas: pela surpresa de um evento ocasional (outra vez Fellini reponta mostrando o impacto das interfer\u00eancias externas e inesperadas), ou pela mansid\u00e3o natural dos desgastes. Somando tudo, entende-se melhor a insist\u00eancia no uso contempor\u00e2neo do termo \u201cmem\u00f3ria\u201d. A seletividade das lembran\u00e7as \u00e9 m\u00e1gica e nos faz presentificar tudo, mas ser\u00e1 que mem\u00f3ria tamb\u00e9m n\u00e3o se inscreve no processo de mudan\u00e7as totais? Sim, hoje \u00e9 f\u00e1cil constatar o avan\u00e7o do chamado mal de Alzheimer e, ent\u00e3o, resta esperar que as pequenas grandes lembran\u00e7as da vida continuem a fazer de nosso momento existencial algo mais aceit\u00e1vel. Sen\u00e3o, sen\u00e3o \u00e9 melhor esquecer tudo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que o tempo passa n\u00e3o resta d\u00favida alguma. 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