{"id":17419,"date":"2019-11-27T09:10:21","date_gmt":"2019-11-27T12:10:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=17419"},"modified":"2019-11-27T09:10:54","modified_gmt":"2019-11-27T12:10:54","slug":"sal-salario-salada-soldo-soldado-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/sal-salario-salada-soldo-soldado-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Sal, sal\u00e1rio, salada, soldo, soldado&#8230;  (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Calcula-se que cerca de 800 palavras, na l\u00edngua portuguesa, se iniciam com a raiz \u201csal\u201d. \u00c9 muito diriam alguns; outros, por\u00e9m, enviesar\u00e3o o exagero para salientar os males que esse produto acarreta e, neste quesito, n\u00e3o faltam cr\u00edticas, pois algumas at\u00e9 o colocam entre \u201cos tr\u00eas p\u00f3s brancos malditos\u201d, juntamente com a coca\u00edna e o a\u00e7\u00facar. Sem d\u00favida alguma, o sal virou uma esp\u00e9cie de veneno e \u00e9 condenado por especialistas que inscrevem o s\u00f3dio entre os maiores inimigos da humanidade. E nem falta quem o enquadre como \u201cproblema de sa\u00fade p\u00fablica\u201d. Progressivamente caminhando para a nega\u00e7\u00e3o, h\u00e1 milhares de refer\u00eancias ao sal, condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deixa de temperar debates. Os <em>goumerts<\/em>, claro, o exaltam e de regra evitam ataques diretos, tratando de mostrar as diversas e sutis variedades, supostamente menos perigosas: sal do Himalaia; sal rosa; sal de lagoas chilenas secas, hidratados, iodificados. Os pr\u00f3s e contras, contudo, seguem uma escalada sem precedentes e isso acende mais e mais debates, digamos, \u201csalgados\u201d.<\/p>\n<p>As crendices populares, por exemplo, est\u00e3o cheias de sal, e v\u00e3o desde o conhecido \u201csal grosso\u201d, recomendado para \u201ctirar o mal olhado\u201d, at\u00e9 a fatalidade de derrub\u00e1-lo sem querer como press\u00e1gio de m\u00e1 sorte e, sob essa eventualidade, aconselha-se que seja jogado um tanto maior por cima do ombro direito para compensar. \u00a0At\u00e9 a ben\u00e7\u00e3o no batismo cat\u00f3lico inclui o sal quando o celebrante faz o sinal da cruz na testa do ne\u00f3fito. H\u00e1 muito mais, diga-se, e chega a ser surpreendente o repert\u00f3rio sobre o sal nas reminisc\u00eancias gerais de todos os povos da Terra e nas mandingas familiares, inclusive das nossas. Em diversos n\u00edveis, do popular ao cient\u00edfico, do religioso \u00e0 p\u00e2ndega, \u00e9 dif\u00edcil dizer o que seria a vida sem o sal. Diz-se, na linha folcl\u00f3rica, inclusive, que a cada gr\u00e3o ca\u00eddo h\u00e1 de ser derramada uma l\u00e1grima.<\/p>\n<p>E isto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 coisa de pa\u00edses de fundo ib\u00e9rico onde ali\u00e1s, o maior poeta, Fernando Pessoa, escreveu \u201c<em>\u00f3<\/em><em> mar salgado, quanto do teu sal, s\u00e3o l\u00e1grimas de Portugal!\/ por te cruzarmos, quantas m\u00e3es choraram\/ quantos filhos em v\u00e3o rezaram!\/ quantas noivas ficaram por casar\/ para que fosses nosso, \u00f3 mar!<\/em>\u201d. E nem \u00e9 s\u00f3 l\u00e1: os japoneses quando v\u00e3o a um funeral devem levar um pouco de sal nas roupas; na Argentina diz-se que algu\u00e9m com m\u00e1 sorte est\u00e1 \u201csalgado\u201d; na It\u00e1lia recomenda-se que os saleiros n\u00e3o passem de diretamente de m\u00e3o em m\u00e3o, e que sejam colocados \u00e0 mesa para que os solicitantes os peguem; na Jord\u00e2nia, a noiva deve dar um sache de sal para o marido antes do cas\u00f3rio; no M\u00e9xico um pacote de sal deve ser deixado ao lado dos t\u00famulos no dia dos mortos; na Irlanda recomenda-se que \u00e0 cada mudan\u00e7a de casa, seja colocado um pote de sal antes da entrada dos pertences. E por que ser\u00e1 que no Brasil colonial era recomendado que mulheres virgens n\u00e3o servissem sal?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Fernando-Pessoa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17420\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Fernando-Pessoa.jpg\" alt=\"Fernando Pessoa\" width=\"293\" height=\"172\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Fernando Pessoa: &#8220;\u00f3\u00a0mar salgado, quanto do teu sal, s\u00e3o l\u00e1grimas de Portugal!&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Lembremos do bord\u00e3o \u201c<em>ser\u00e1 que salguei a Santa Ceia<\/em>\u201d na boca do personagem F\u00e9lix Khoury, o vil\u00e3o interpretado por Matheus Solano na novela <em>Amor \u00e0 Vida<\/em> de Walcyr Carrasco&#8230; Ali\u00e1s, uma das obras mais famosas do Renascimento, A Santa Ceia de Leonardo da Vinci mostra o sal derrubado por Cristo como an\u00fancio de mal auguro. Nenhuma refer\u00eancia seria completa sem falar do sal nas m\u00fasicas, seja com Nando Reis e principalmente com Elis Regina cantando \u201c<em>\u00c1gua vira sal l\u00e1 na salina\/ quem diminuiu \u00e1gua do mar\/ \u00e1gua enfrenta o sol l\u00e1 na salina\/ sol que vai queimando at\u00e9 queimar\/ trabalhando o sal<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Seguramente, a B\u00edblia \u00e9 a fonte mais generosa para informa\u00e7\u00f5es sobre o sal e no Cristianismo, pois s\u00e3o 25 os vers\u00edculos encontrados, sendo o mais famoso o contido na passagem em que Jesus, depois de nomear as \u201cbem-aventuran\u00e7as\u201d diz publicamente <em>\u201c<\/em><em>v\u00f3s sois o sal da terra; e se o sal for ins\u00edpido, com que se h\u00e1 de salgar? Para nada mais presta sen\u00e3o para se lan\u00e7ar fora, e ser pisado pelos homens<\/em>\u201d (Mateus 5:13). A par das discuss\u00f5es sobre o sentido do sal para aben\u00e7oar ou excomungar, bendizer ou amaldi\u00e7oar, h\u00e1 uma passagem espetacular quando num gesto de castigo, o Deus Todo Poderoso, no ato de destro\u00e7o de Sodoma e Gomorra, transforma a mulher de L\u00f3 em est\u00e1tua de sal (Juizes 9, 45).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Est\u00e1tua-de-sal.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-17421\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Est\u00e1tua-de-sal-450x253.jpg\" alt=\"Est\u00e1tua de sal\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Est\u00e1tua-de-sal-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Est\u00e1tua-de-sal-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Est\u00e1tua-de-sal-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Est\u00e1tua-de-sal-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Est\u00e1tua-de-sal-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Est\u00e1tua-de-sal.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Mulher de L\u00f3 vira est\u00e1tua de sal<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas, independente de ju\u00edzos, historicamente o sal sempre foi importante, fundamental mesmo. Conta-se at\u00e9 que era deixado em testamento como bem, j\u00e1 na antiguidade romana, quando servia para conservar alimentos. Sal\u00e1rio seria o ganho de mercen\u00e1rios nas guerras \u2013 soldados \u2013 e, depois virou pagamento de trabalho alongando metaforicamente o resultado de jornadas. Salada \u00e9 a mistura de legumes e demais produtos salinizados; e salgadinho os aperitivos gerais servidos antes de refei\u00e7\u00f5es ou nas festas. \u00c9 poss\u00edvel que no futuro o sal seja recriminado como componente alimentar, mas jamais sa\u00edra de nosso imagin\u00e1rio e de nossa boca que, \u00e9 bom lembrar, o testa pela saliva. Pois \u00e9, ser\u00e1 que o sal tem salva\u00e7\u00e3o? Ou \u00e9 melhor saltar deste debate salteado?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Calcula-se que cerca de 800 palavras, na l\u00edngua portuguesa, se iniciam com a raiz \u201csal\u201d. \u00c9 muito diriam alguns; outros, por\u00e9m, enviesar\u00e3o o exagero para &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17422,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-17419","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17419"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17419\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17424,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17419\/revisions\/17424"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17422"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}