{"id":17334,"date":"2019-11-03T09:36:11","date_gmt":"2019-11-03T12:36:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=17334"},"modified":"2019-11-03T09:36:11","modified_gmt":"2019-11-03T12:36:11","slug":"monteiro-lobato-e-conceicao-evaristo-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/monteiro-lobato-e-conceicao-evaristo-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Monteiro Lobato e Concei\u00e7\u00e3o Evaristo (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Era para ser uma visita r\u00e1pida, um breve aceno de lembran\u00e7a, coisa para matar a\u00a0saudade. Eu ainda cansado de longa viagem e ela em expediente de trabalho. Mas\u00a0era caminho e a vontade se fez alternativa. Fui. A conversa depois do abra\u00e7o\u00a0correu pelos \u00faltimos acontecimentos de nossas vidas. A troca foi veloz e, num repente, passamos do plano nacional \u00e0s nossas vidas.<\/p>\n<p>Entre realizada e euf\u00f3rica, ela me reportava \u00e0s novidades de um curso produzido e executado por mulheres negras na USP. Empunhando o programa declinou as aulas j\u00e1 dadas e se fazia arauta de vindouras. \u00c9 preciso dizer que conhe\u00e7o Teresa Telles h\u00e1 mais de dez anos. Bonita demais, no come\u00e7o de nossa amizade, usava roupas discretas\u00a0condizentes com algu\u00e9m que ainda arrastava experi\u00eancias de assessora de\u00a0sucesso no mundo dos neg\u00f3cios. Foi a paix\u00e3o incontrolada pelas Humanidades\u00a0que a fez largar carreira em curso, e trocar seguran\u00e7a econ\u00f4mica pela decifra\u00e7\u00e3o\u00a0dos c\u00f3digos da Hist\u00f3ria. Lembro-me do cabelo bem-posto, impec\u00e1vel nos\u00a0alisamentos e arranjos impec\u00e1veis. Outros os tempos. Todas as mudan\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Os anos correram e ela se tornou guardi\u00e3 de institui\u00e7\u00f5es da USP, funcionando\u00a0acima de secret\u00e1ria ou de qualquer outro posto administrativo. Sobra-lhe\u00a0compet\u00eancia. Creio que ela jamais saber\u00e1 da emo\u00e7\u00e3o de acompanh\u00e1-la nos\u00a0programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e v\u00ea-la, muito mais do que funcion\u00e1ria fundamental, mestre com disserta\u00e7\u00e3o defendida. \u00c9 preciso dizer que seu cabelo naturalmente livre dava a ela, ainda mais, uma qualidade de beleza exuberante e tudo se completava com os extravagantes turbantes coloridos e brincos exagerados. A tradu\u00e7\u00e3o da formosura afro se fazia brasileira nela. E no embalo de apoios m\u00fatuos houve muita troca de presentes. Com emo\u00e7\u00e3o, lembro-me de ter lhe ofertado \u201cPoncia Vic\u00eancio\u201d o livro de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Conceicao-Evaristo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17335\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Conceicao-Evaristo.jpg\" alt=\"Conceicao Evaristo\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, uma escritora popular<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Devorado o texto, lhe passei meu exemplar autografado de \u201cBecos da mem\u00f3ria\u201d. Pronto, estava plantada uma \u00e1rvore de frutos multiplicados. Confesso que havia um doce veneno na minha proposta. Secretamente percebia nela o efeito progressivo do\u00a0desenho de novo protagonismo negro na cultura brasileira. E Concei\u00e7\u00e3o Evaristo\u00a0\u00e9 a musa irradiante da intensidade liter\u00e1ria que se renova negra com a cara do\u00a0Brasil do futuro.<\/p>\n<p>O inusitado do nosso reencontro naquele exato dia, por\u00e9m, me assustou. N\u00e3o\u00a0mais que de repente, est\u00e1vamos falando de uma destas detratoras de Monteiro\u00a0Lobato, de pessoa que cumpre a zanga de atribuir a ele uma s\u00edntese da educa\u00e7\u00e3o\u00a0antirracista de largura nacional. Confesso que ando cansado disto, em particular\u00a0pelo fechamento de di\u00e1logos e pontifica\u00e7\u00f5es fracionadas.<\/p>\n<p>Os recortes convenientes do grande escritor de Taubat\u00e9 t\u00eam sido repetidos ad nauseam, como mantra capaz de ferir um pilar fundamental da chamada literatura infantil brasileira. Esta estrat\u00e9gia importada \u2013 come\u00e7ou nos Estados Unidos com a detrata\u00e7\u00e3o de Mark Twain em \u201cTom Sawyer\u201d j\u00e1 nos idos de 1965 \u2013 teve impacto\u00a0modelar no Brasil. A rigor, conv\u00e9m mencionar um esfor\u00e7o pouco valorizado por\u00a0estudiosos que n\u00e3o consideram que para a opini\u00e3o p\u00fablica, o primeiro argumento a favor do debate sobre o negro nas artes visuais foi a novela \u201cA cabana de pai Tom\u00e1s\u201d, feita pela Globo em 1968. Tudo interessa nesse epis\u00f3dio, pois a obra escrita por uma mulher negra estadunidense, Harriet Stowe em 1852, chamava aten\u00e7\u00e3o por v\u00e1rios aspectos, mas principalmente por ser escrita por negra e cobrir um tema pouco ventilado entre n\u00f3s: a escravid\u00e3o. Como novela, no Brasil, a \u201cCabana\u201d recebeu ampla cobertura, em particular porque o pol\u00eamico dramaturgo Pl\u00ednio Marcos fazia pesadas cr\u00edticas ao uso de ator branco (S\u00e9rgio Cardoso) no papel principal. Depois dos artigos do pol\u00eamico autor de \u201cNavalha na carne\u201d estava aberto o debate sobre os negros e arte no Brasil.<\/p>\n<p>Na linha dos programas televisivos, por outro lado, desde a inaugura\u00e7\u00e3o da\u00a0televis\u00e3o no Brasil, Lobato em sido usado em adapta\u00e7\u00f5es variadas, fato que o notabiliza como um dos cinco autores brasileiros mais populares de todos os tempos. Por isto, ali\u00e1s, serve de pretexto para cr\u00edticos que o elegeram como motivo de nega\u00e7\u00e3o (por que ser\u00e1 que pouparam Jos\u00e9 de Alencar, Aloisio Azevedo ou Jorge Amado?). Resta dizer, em primeiro lugar que \u00e9 lament\u00e1vel, frente a uma obra enorme como a de Lobato, reduzir o conjunto e abrevi\u00e1-lo a adjetivos simples. Lobato talvez seja a maior v\u00edtima deste tipo de ju\u00edzo, seja de um lado ou outro. Ao mesmo tempo em que \u00e9 mostrado como comunista, socialista, anarquista, monarquista, \u00e9 tido tamb\u00e9m como racista. Haja limita\u00e7\u00f5es! E recortes de passagens sempre descontextualizadas e refor\u00e7adas por outras cita\u00e7\u00f5es extra\u00eddas de cartas ou artigos sempre circunstanciais, jamais em conjunto.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/ML-Homens-e-livros.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17336\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/ML-Homens-e-livros.jpg\" alt=\"ML Homens e livros\" width=\"259\" height=\"194\" \/><\/a><\/p>\n<p>Jamais, pois certamente isto demandaria maiores cuidados.\u00a0Permitam-me lembrar que somos frutos de nossos tempos e que a recep\u00e7\u00e3o de\u00a0qualquer produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica depende do consumo e do mercado, n\u00e3o apenas da\u00a0emiss\u00e3o. Falamos de uma \u00e9poca em que os temas eug\u00eanicos estavam na pauta e \u00e9\u00a0erro crasso julgar pela vis\u00e3o de hoje o que fomos um dia. E Lobato modulou\u00a0muito isso. Ali\u00e1s, na senda revisionista, seria recomend\u00e1vel mudar a B\u00edblia no\u00a0elogio ao sal, transformar sambas memor\u00e1veis com novas imagens de mulatas,\u00a0encrespar cabelos de fotos de escravos&#8230;<\/p>\n<p>A favor de Lobato, ainda no seu tempo, conv\u00e9m ter iluminadas as cita\u00e7\u00f5es simp\u00e1ticas aos negros em contos como \u201cNegrinha\u201d e \u201cJardineiro Tim\u00f3teo\u201d, \u201cBocatorta\u201d, entre outros. Al\u00e9m do mais, cabe tamb\u00e9m inscrever a releitura de Lobato na ordem do \u201cpoliticamente correto\u201d, pois de seus personagens, antes e sem reclama\u00e7\u00f5es, foram tirados o cachimbo, a menina L\u00facia perdeu sua \u201ccor de jambo\u201d, e o saci virou, de violento, um bonequinho de efeito pedag\u00f3gico mulatinho e quase branco; tudo diverso do que Lobato prop\u00f4s. Mas estas metamorfoses todas ficam pequenas frente o equ\u00edvoco\u00a0de certas linhas do movimento negro (retomado no Brasil a partir de 1978) que insiste em trocar a consist\u00eancia de novas cria\u00e7\u00f5es e insistir em reinventar come\u00e7os j\u00e1 trilhados sem sucesso.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente a\u00ed que entra o pulso de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Suas obras criam, s\u00e3o novidades cr\u00edticas e lindas, h\u00e1beis a mostrar possibilidades na produ\u00e7\u00e3o f\u00e9rtil. Isto \u00e9 muito mais relevante do que mal requentar aspectos, quase sempre mostrados sem argumentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era para ser uma visita r\u00e1pida, um breve aceno de lembran\u00e7a, coisa para matar a\u00a0saudade. 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