{"id":17199,"date":"2019-09-19T17:49:09","date_gmt":"2019-09-19T20:49:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=17199"},"modified":"2019-09-19T17:49:09","modified_gmt":"2019-09-19T20:49:09","slug":"um-belo-dia-taubateano-em-paris-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/um-belo-dia-taubateano-em-paris-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Um belo dia taubateano em Paris (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Luis Issa, pelos resgates<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Certa feita, corria o m\u00eas de julho de 2016, aconteceu uma remarca\u00e7\u00e3o de passagens motivada por problemas da companhia a\u00e9rea e, no meio da surpresa, me sobrou um dia livre em Paris. O que fazer restou ser um doce dilema. Passada a temporada de trabalho com intervalos suficientes para museus, restaurantes, teatros, aquele presente do acaso merecia cuidado especial\u00edssimo: mas como bem aproveitar? Por l\u00f3gico, n\u00e3o cabia pensar em compras ou cinema (imagine), nem passeio pelas cercanias sempre t\u00e3o convidativas como a Giverny de Monet, o Castelo de Chantilly, a ador\u00e1vel Catedral de Chartres, ou o Pal\u00e1cio de Fontainebleau ou Versailles.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Paris.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17200\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Paris.jpg\" alt=\"Paris\" width=\"297\" height=\"169\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Torre Eifel e esfinge da Catedral de Notre Dame, s\u00edmbolos da Cidade Luz<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Absolutamente perdido entre mil alternativas lembrei-me de tantos que decantaram a Cidade Luz e declinei lembran\u00e7as liter\u00e1rias que me viajaram por Victor Hugo, sugerindo a vivacidade perigosa de \u201cOs miser\u00e1veis\u201d; pensei em percorrer as ruas descritas por Nerval indicando o terror dos becos; supus o Marqu\u00eas de Sade preso na Bastilha. E, um depois do outro, fui me lembrado de Apollinaire, Rimbaud, Zola. Foi assim que de repente me senti como no filme \u201cMeia noite em Paris\u201d e, via Woody Allen, me convidei \u00e0s aventuras experimentadas por Madame de St\u00e4el junto com toda a Gera\u00e7\u00e3o Perdida: Hemingway, Fitzgerald, Ezra Pound, James Joyce. E ent\u00e3o me era dado confirmar se \u201cParis \u00e9 uma festa\u201d por mais um dia inesperado. Tomei tento para me deixar ao l\u00e9u, sem destino e descuidado da eloqu\u00eancia do rel\u00f3gio. Foi como \u2013 outra vez pela literatura \u2013 melhor pude entender Baudelaire no significado do verbo \u201cflanar\u201d. E n\u00e3o h\u00e1 como deixar de ligar Baudelaire a Walter Benjamin, ambos aquilatando a alegria de se soltar livre por Paris. Ponto, estava decidido iria ser <em>flaneur<\/em> e nos limites conjugar o tal verbo que significa, antes de mais nada, absorver a atmosfera da cidade.<\/p>\n<p>Decidido que andaria, restava caminhar, caminhar e andar ainda mais&#8230; E eis que de repente Taubat\u00e9 me veio \u00e0 cabe\u00e7a. Estava na <em>Place d\u2019\u00e9toile<\/em>&#8230; Ah, que sensa\u00e7\u00e3o! Com a certeza da for\u00e7a do instinto, n\u00e3o mais que num zap, l\u00e1 estava eu naquele entroncamento fervilhante, em frente ao Arco do Triunfo. Senti-me, juro, como dentro da melhor estrela urbana. Outra vez sem pensar, flanava pela <em>Avenue Foch<\/em> com uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00e3o estimulante como se isso me fosse familiar. Caminhei bastante, passei pelas lojas de marcas famosas, tomei sorvete na inigual\u00e1vel Bertillon (badalada como a melhor sorveteria da cidade), e por fim resolvi sentar-me \u00e0 sombra e tentar alguma rela\u00e7\u00e3o entre a <em>Place d\u2019\u00e9tolie<\/em> dos franceses com a nossa Pra\u00e7a da Estrela, de Taubat\u00e9.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Place-d-Etoile.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17201\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Place-d-Etoile.jpg\" alt=\"Place d Etoile\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Place-d-Etoile.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Place-d-Etoile-265x147.jpg 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Place d&#8217; \u00c9toile, em Paris, inspirou Felix Guisard<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Dif\u00edcil aproxima\u00e7\u00e3o. Buscando conex\u00f5es restou o tra\u00e7ado, posto que a atmosfera era, fatalmente, outra. A ideia de progresso incutida nas duas pra\u00e7as, contudo, se mostrou denominador comum, mas qual seria a rela\u00e7\u00e3o fatal que projetava uma na outra. A hist\u00f3ria diria, e fui a ela. A <em>Place d\u2019\u00e9toile<\/em> parisiense \u00e9 de 1777 e despontou como resposta da vibra\u00e7\u00e3o local que pretendida superar o passado modesto e problem\u00e1tico, antigo reduto bo\u00eamio e de prostitui\u00e7\u00e3o; o nosso surgiu do nada, pois foi obra de um vision\u00e1rio, Felix Guisard, que tendo morado em Paris resolveu reeditar um peda\u00e7o daquele desenho urbano, em 1894. Que sonho lindo!<\/p>\n<p>Ainda que n\u00e3o d\u00ea para comparar escalas, \u00e9 not\u00f3rio que a moderniza\u00e7\u00e3o da nossa ent\u00e3o modesta urbe estava na cabe\u00e7a brilhante de um dos pioneiros da ind\u00fastria t\u00eaxtil brasileira. \u00c9 exatamente esta a chave que atua a beleza do fato urban\u00edstico. Cabe contextualizar a interven\u00e7\u00e3o que ganha condi\u00e7\u00e3o estelar real na medida em que a ousadia se impunha como aventura. Taubat\u00e9, como cidade, era at\u00e9 o come\u00e7o do s\u00e9culo XIX um local sem express\u00e3o. Por mais que os rom\u00e2nticos tentem ver din\u00e2mica, \u00e9ramos apenas um centro burocr\u00e1tico, pequeno, inscrito no roteiro das cidades do caf\u00e9. Interessava aos fazendeiros a liga\u00e7\u00e3o direta entre suas unidades produtivas e os portos, condi\u00e7\u00e3o que fazia das tropas e dos tropeiros agentes de tr\u00e2nsito. Monteiro Lobato, muito mais tarde, inventou o termo \u201ccidades mortas\u201d, mas, na realidade, nossos rinc\u00f5es, at\u00e9 recentemente, nunca tiveram pujan\u00e7a ou fun\u00e7\u00e3o. A constata\u00e7\u00e3o da proposta vibrante de Felix Guisard e de seus s\u00f3cios, ao implantar a f\u00e1brica de tecidos, correspondeu \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da linhagem colonial.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Praca-da-Estrela.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-17205\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Praca-da-Estrela-450x247.jpg\" alt=\"Praca da Estrela\" width=\"450\" height=\"247\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Praca-da-Estrela-450x247.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Praca-da-Estrela-300x165.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Praca-da-Estrela-768x421.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Praca-da-Estrela.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Pra\u00e7a da Estrela na terra de Lobato no auge do sucesso da CTI<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Como me foi revelador pensar nisso tudo estando em Paris. Entendi melhor o velho Guisard, pois supor Paris em Taubat\u00e9 era muito mais do que imitar, equivalia a indica\u00e7\u00e3o de uma radical virada de p\u00e1gina na nossa hist\u00f3ria. Despir a roupagem de um passado escravocrata, restrito \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas decadentes, e no lugar propor nova aventura econ\u00f4mica era um desafio marcante. E n\u00e3o era apenas o tra\u00e7ado da Pra\u00e7a que impunha isto. N\u00e3o, n\u00e3o mesmo. Junto vieram as vilas oper\u00e1rias, o trabalho feminino, a parafern\u00e1lia das m\u00e1quinas, organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores. Enfim, a moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Felix-Guisard.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17206\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Felix-Guisard.jpg\" alt=\"Felix Guisard\" width=\"189\" height=\"266\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Felix Guisard inspirou-se em Paris para elaborar seu projeto revolucion\u00e1rio<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sabe que mais pensei naquele ent\u00e3o? Lembrei-me \u2013 por ir\u00f4nico que pare\u00e7a \u2013 da aus\u00eancia de mem\u00f3ria de nossos concidad\u00e3os. Pois \u00e9, passamos pela nossa Pra\u00e7a da Estrela e nem notamos o tempo das utopias que nos permitiram ser o que somos. Sou grato a Jos\u00e9 Eug\u00eanio Guisard Ferraz por ter escrito um livro sobre sua fam\u00edlia em Taubat\u00e9. O \u201cSol da manh\u00e3\u201d ilumina uma p\u00e1gina da hist\u00f3ria que merece ser visitada. Tomara que nossa estrela brilhe e que n\u00e3o percamos o direito de ver uma Pra\u00e7a na outra, e nas duas a beleza de dar mat\u00e9ria aos sonhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Luis Issa, pelos resgates Certa feita, corria o m\u00eas de julho de 2016, aconteceu uma remarca\u00e7\u00e3o de passagens motivada por problemas da companhia a\u00e9rea &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17208,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-17199","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17199"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17199\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17209,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17199\/revisions\/17209"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17208"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}