{"id":17185,"date":"2019-09-17T17:09:20","date_gmt":"2019-09-17T20:09:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=17185"},"modified":"2019-09-17T17:11:55","modified_gmt":"2019-09-17T20:11:55","slug":"anti-intelectualismo-censura-e-os-idiotas-da-aldeia-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/anti-intelectualismo-censura-e-os-idiotas-da-aldeia-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Anti-intelectualismo, censura e os \u201cidiotas da aldeia\u201d (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Comecemos pela express\u00e3o cunhada por Umberto Eco \u201cidiota da aldeia\u201d. \u00c9 forte, bem sei, mas traduz com nitidez o perfil de quantos se presentificam pela internet, e no galope iconoclasta apedrejam tudo que n\u00e3o lhes \u00e9 espelho. E na sauda\u00e7\u00e3o expl\u00edcita \u00e0 ignor\u00e2ncia se valem de ataques pessoais, morais, familiares, corporativos &#8211; qualquer coisa para consagrar o estabelecido e manter inalterada a velha ordem. Nada de renova\u00e7\u00e3o; nada de mudan\u00e7a; nada de inteligente. S\u00f3 se permite repetir <em>ad nauseam<\/em>. Assumindo pressupostos ris\u00edveis, tais idiotas garantem que a Terra \u00e9 plana, que Lacan e Foucault s\u00e3o fals\u00e1rios, que vacinas s\u00e3o nocivas, que Darwin estava errado ao propor a evolu\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 que n\u00e3o vivemos o aquecimento global. Tendo o dinheiro p\u00fablico como \u00e1libi e a anticorrup\u00e7\u00e3o como ponta de lan\u00e7a, sem bem saber em que guerra combatem, os tais alucinados acusam, abatem, calam tudo que \u00e9 diferente, se posicionando com defensores da moral e dos bons costumes. Inventam causas, planejam pretextos, usam Deus como mandat\u00e1rio e espumam \u00f3dio, raiva, intoler\u00e2ncia, preconceito.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Humberto-Eco.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17186\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Humberto-Eco.jpg\" alt=\"Humberto Eco\" width=\"288\" height=\"175\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Humberto Eco cunhou a express\u00e3o &#8220;idiota da aldeia&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 claro que a p\u00e1tria, a fam\u00edlia, a prote\u00e7\u00e3o dos menores s\u00e3o evocadas como p\u00f3los vulner\u00e1veis e pass\u00edveis da tutela deles, guardi\u00f5es her\u00f3icos. Como donos de um poder inquestion\u00e1vel, sempre exercido como miss\u00e3o redentora e de inspira\u00e7\u00e3o divinal, tais santos n\u00e3o suportam di\u00e1logos, atacam com virul\u00eancia express\u00f5es de tudo que lhes \u00e9 diferente, detratando o saber e a est\u00e9tica como se fosse algo conden\u00e1vel por imoral, cara e sat\u00e2nica. E de nada valem os ju\u00edzos instru\u00eddos, nem a no\u00e7\u00e3o de cultura continuada, ou a aceita\u00e7\u00e3o da obra de arte como elixir da vida ou o avan\u00e7o cient\u00edfico. Como apetrechos dispendiosos, express\u00f5es do livre pensar lhes \u00e9 sempre um entrave caro e imoral. A pesquisa cient\u00edfica, por exemplo, \u00e9 dinheiro jogado fora, ali\u00e1s, lhes \u00e9 odorante e bem pode ser desenvolvida alhures, sem assinatura nacional. O importante para essa gente \u00e9 quebrar, desprezar, desmoralizar e se poss\u00edvel demonizar a intelig\u00eancia como se ela n\u00e3o se explicasse na iner\u00eancia humana ao direito, \u00e0 beleza e ao aperfei\u00e7oamento inteligente. Nesse impulso aniquilador da cr\u00edtica ao estabelecido, nada deve ser poupado, principalmente os agentes art\u00edsticos, cient\u00edficos, o jornalismo. Tudo em nome de dogmas nutridos em mentes bem pouco dadas \u00e0 democracia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Idiota-da-aldeia.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17187\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Idiota-da-aldeia.png\" alt=\"Idiota da aldeia\" width=\"215\" height=\"235\" \/><\/a><\/p>\n<p>Umberto Eco no impulso definidor do \u201cidiota da aldeia\u201d foi al\u00e9m, diagnosticou a oportunidade do problema delegando \u00e0 internet a responsabilidade pela dissemina\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es transmitidas por essa \u201clegi\u00e3o de imbecis\u201d. Como que inconformado com a velocidade do aumento das barbaridades, o intelectual italiano apontou o impacto atual dessa gente que sempre existiu, mas que agora ganha poder outra vez. Antes, mais atomizados, agiam \u201cem um bar e depois de uma ta\u00e7a de vinho, sem prejudicar a coletividade\u201d. Desdobrando argumentos, garante Eco que \u201cnormalmente, eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora t\u00eam o mesmo direito \u00e0 palavra de um Pr\u00eamio Nobel\u201d. \u00c9 f\u00e1cil, atualmente, identificar isso, basta ligar as redes sociais e l\u00e1 est\u00e3o eles de plant\u00e3o, acusando os gastos p\u00fablicos com escolas, com arte e informa\u00e7\u00e3o instru\u00edda. Idem lastim\u00e1vel com os avan\u00e7os cient\u00edficos. Sem nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o ou sensibilidade, rasos, sem preparo algum para debater argumentos, quase sempre se valendo do \u201cilumina e cola\u201d, os ventr\u00edloquos da eletr\u00f4nica, se prestam como soldados de um ex\u00e9rcito destruidor da din\u00e2mica do mundo, contra o saber e a beleza (musical, cinematogr\u00e1fica, de exposi\u00e7\u00f5es de arte, de livros, de escolas p\u00fablicas, museus, institui\u00e7\u00f5es e programas de incentivo \u00e0 cultura). Nada de pensamento cr\u00edtico, esta \u00e9 lei \u00fanica dos arautos da burrice patrioteira.<\/p>\n<p>Mas, que fique claro, h\u00e1 uma metodologia neste desmonte. Sejamos avisados que o veneno que circula pelo corpo social empoderado obedece a procedimentos progressivos, carregando propostas cada vez mais virulentas que visam detratar o fundamento de toda e qualquer cultura elaborada, principalmente se for transgressora. \u00c9 a\u00ed que obram os novos ide\u00f3logos, gente desprovida de forma\u00e7\u00e3o e que precisam gritar, usar palavr\u00f5es, falar sem interlocu\u00e7\u00e3o, esconder-se em cursos <em>online<\/em> pagos por seguidores pouco versados em di\u00e1logos. Numa moldura ampliada, conv\u00e9m lembrar que essa postura se alimenta das <em>fake news<\/em> e do combate incessante \u00e0 liberdade de express\u00e3o. \u00c9 quando a censura entra em cena para \u201csanear\u201d os males provocados por Sat\u00e3s decantados em m\u00fasicas, obras de arte, livros escolares, romances e at\u00e9 gibis.<\/p>\n<p>A correnteza dessa destrui\u00e7\u00e3o tem matrizes hist\u00f3ricas e, dentre tantas, o modelo mais acabado nos foi dado por Hitler que em maio de 1933 promoveu em Berlin a grande queima de livros, em pra\u00e7a p\u00fablica \u2013 entre os autores com obras incineradas estavam Einstein, Thomas Mann, Brecht, Freud, e, claro, Marx. Aquela atitude patrocinada pelo poder n\u00e3o parou a\u00ed. Al\u00e9m de se desdobrar em leis redentoras da suposta pureza germ\u00e2nica, em 1937 os nazistas promoveram a primeira grande exposi\u00e7\u00e3o onde seriam exibidas, de maneira pedag\u00f3gica, obras de pintores e escultores tidos como subversivos como Van Gogh, Matisse, Picasso. Sob o t\u00edtulo \u201cArte Degenerada\u201d, para demonstrar de maneira rid\u00edcula as correntes modernistas, depois de confiscar mais de 5 000 obras famosas das quais 600 foram selecionadas, fez-se mostra para mostrar a cultura ex\u00f3tica como deformadora do car\u00e1ter.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Capitaes-da-areia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-17188\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Capitaes-da-areia-450x253.jpg\" alt=\"Capitaes da areia\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Capitaes-da-areia-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Capitaes-da-areia-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Capitaes-da-areia.jpg 624w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Hitler queimou livros em 1937 enquanto o Estado Novo queimava obras como as de Jorge Amado<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Eis que, entre n\u00f3s, eco da sanha nazista, emerge com fulgor o anti-intelectualismo. Nada mais oportuno para os agentes do obscurantismo do que detratar professores, artistas, jornalistas, gente que cria, critica e educa. Tenhamos ju\u00edzo enquanto \u00e9 tempo, lembremo-nos que tivemos Machado de Assis, Clarice Lispector, Vila Lobos, Tom Jobim e que temos ainda Chico Buarque de Holanda dizendo \u201cAmanh\u00e3 h\u00e1 de ser outro dia&#8230;\u201d Abaixo os \u201cidiotas da aldeia\u201d, pelo fim dos ventr\u00edloquos das redes sociais, e combatamos a censura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comecemos pela express\u00e3o cunhada por Umberto Eco \u201cidiota da aldeia\u201d. \u00c9 forte, bem sei, mas traduz com nitidez o perfil de quantos se presentificam pela &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17189,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-17185","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17185","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17185"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17185\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17191,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17185\/revisions\/17191"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17189"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17185"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17185"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17185"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}