{"id":16984,"date":"2019-07-15T17:30:33","date_gmt":"2019-07-15T20:30:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16984"},"modified":"2019-07-15T17:30:33","modified_gmt":"2019-07-15T20:30:33","slug":"insensatez-joao-gilberto-e-o-recado-brasileiro-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/insensatez-joao-gilberto-e-o-recado-brasileiro-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Insensatez: Jo\u00e3o Gilberto e o recado brasileiro (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Tornou-se comum parafrasear situa\u00e7\u00f5es da vida cotidiana com passagens musicais, algo do tipo: \u201ca gente vai levando\u201d, \u201cdeixa a vida me levar\u201d, \u201clevanta sacode a poeira e d\u00e1 volta por cima\u201d&#8230; Expressar-se por meio de letras de m\u00fasicas acabou, pode-se dizer, por virar h\u00e1bito e n\u00e3o h\u00e1 quem, mais ou menos, deixe de se valer desse recurso. Eu particularmente, nesta altura da vida, tento achar trilhas sonoras para cada evento, ou mesmo para justificar minha experi\u00eancia como um todo. Houve um tempo em que muito se comentava sobre can\u00e7\u00f5es preferidas e, em arroubos exagerados, lan\u00e7avam-se perguntas como \u201cquais suas dez m\u00fasicas mais queridas\u201d? Isso passou, pois seria desprez\u00edvel na altura dos nossos dias \u2013 com a facilita\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica e acesso a tudo por aparelhos port\u00e1teis \u2013 definir alguma ordem de escolha dur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sim, sem exagero, a cada hora temos uma nova mensagem musical e isto acelera tamb\u00e9m velocidade nas reposi\u00e7\u00f5es das tais \u201cm\u00fasicas preferidas\u201d. \u00c9 verdade que algumas resistem mais, e entre as estrangeiras tocadas \u00e0 exaust\u00e3o, \u201c<em>My way<\/em>\u201d tem ocupado lugar especial.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, conv\u00e9m lembrar que esta can\u00e7\u00e3o, originalmente \u00e9 francesa e foi composta por Claude Fran\u00e7ois, no ano de 1967, com o t\u00edtulo \u201cComme d\u2019habitude\u201d. Adaptada para o mercado norte-americano por Paul Anka em 1968, virou uma esp\u00e9cie de hino narcisista e vale como met\u00e1fora \u00fatil, filosoficamente port\u00e1til, justificadora de nossos erros e acertos vida afora.<\/p>\n<p>Mundialmente aclamada como um dos cl\u00e1ssicos de Frank Sinatra, todos conhecemos algu\u00e9m \u2013 \u00e0s vezes n\u00f3s mesmos \u2013 que se apropria desse caminho alheio para cham\u00e1-los de seu. E assim convertemos \u201c<em>My way<\/em>\u201d em testamento pessoal, e at\u00e9 poder\u00edamos chorar no enunciado \u201c<em>I did it in my way<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Claude-Francois.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16985\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Claude-Francois-450x338.jpg\" alt=\"Claude Francois\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Claude-Francois-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Claude-Francois-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Claude-Francois-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Claude-Francois.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Claude Fran\u00e7ois, autor de\u00a0\u201cComme d\u2019habitude\u201d, mais conhecida como &#8220;My Way&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias morreu o nosso j\u00e1 saudoso Jo\u00e3o Gilberto. Mal havia sido o corpo enterrado e, com justeza, as homenagens ressoaram em todos os alto-falantes, inclusive nos que bradam em nosso interior. Pois bem, foi assim que me perguntei \u201cqual a can\u00e7\u00e3o do baiano Jo\u00e3o Gilberto serviria para fundo de minha vida, no momento atual\u201d? Perfilei v\u00e1rias e fui deixando uma depois da outra. N\u00e3o seria a interpreta\u00e7\u00e3o de \u201cum cantinho um viol\u00e3o\u201d, pois n\u00e3o toco nada; \u201ca garota de Ipanema\u201d n\u00e3o teria cabimento, pois moro em Copacabana; \u201cdesafinado\u201d teria chance, pois nunca conseguiram classificar minha voz em coral algum, e, por ironia \u201c\u00e1guas de mar\u00e7o\u201d tamb\u00e9m se ajustaria por ser m\u00eas de meu anivers\u00e1rio. Destitui todas, por\u00e9m, filtradas algumas de suas 119 inte rpreta\u00e7\u00f5es, cheguei em um ponto calhou com alguma exatid\u00e3o: \u201cinsensatez\u201d. Vejamos a letra composta em parceria com Tom Jobim: \u201c\u00d3 insensatez que voc\u00ea fez\/ Cora\u00e7\u00e3o mais sem cuidado\/ Fez chorar de dor o seu amor\/ Um amor t\u00e3o delicado\/ Ah! Porque voc\u00ea foi fraco assim\/ Assim t\u00e3o desalmado?\/ Ah! meu cora\u00e7\u00e3o quem nunca amou\/ N\u00e3o merece ser amado\/ Vai meu cora\u00e7\u00e3o, ouve a raz\u00e3o\/ Usa s\u00f3 sinceridade\/ Quem semeia vento, diz a raz\u00e3o\/ Colhe sempre tempestade\/ Vai, meu cora\u00e7\u00e3o\/ Pede perd\u00e3o, perd\u00e3o apaixonado\/ Vai, porque quem n\u00e3o pede perd\u00e3o\/ N\u00e3o \u00e9 nunca perdoado\u201d.<\/p>\n<p>Feita a escolha, outro desafio se ecoou em meu debate pessoal: mas \u201cinsensatez\u201d seria trilha para que situa\u00e7\u00e3o? Serviria de fundo para meu momento atual, politicamente desiludido, ou para a vida toda, n\u00e3o menos desiludida frente nosso pais t\u00e3o mal amado? Foi assim que, consultando meu cora\u00e7\u00e3o cr\u00edtico, optei por ambas as situa\u00e7\u00f5es. No plano cidad\u00e3o e pessoal, lendo a letra da m\u00fasica com olhos culpados, conclui que sempre, eternamente, usei a emo\u00e7\u00e3o como b\u00fassola: acreditei, supus que historiador teria o produto dz minha faina efetivada na corre\u00e7\u00e3o de erros cr\u00f4nicos tidos como t\u00edpicos de um pa\u00eds bonito e pac\u00edfico. Errei muito, ainda que alguns importantes acertos tenham tamb\u00e9m estrelados. Mas, mesmo assim, dei estrada para tanta caminhada deste meu \u201ccora\u00e7\u00e3o mais sem cuidado\u201d e, com tristeza, admiti ter semeado mais tempestade do que deveria. A insensatez abriu c\u00e9u para equ\u00edvocos otimistas, para cren\u00e7as ut\u00f3picas e com as quais iludi o \u201ccora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o merecia ser amado\u201d. Isso me convida a pedir perd\u00e3o, \u201cperd\u00e3o apaixonado\u201d, pois deveria ter semeado ju\u00edzo em vez de amor enfeiti\u00e7ado. Fui insensato ao crer na cultura brasileira: tolerante, m\u00faltipla, af\u00e1vel e alegre, sem \u00f3dio. Olhemos ao nosso derredor o que restou de tanta insensatez&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Joao-e-Bebel.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16986\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Joao-e-Bebel-450x300.jpg\" alt=\"Joao e Bebel\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Joao-e-Bebel-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Joao-e-Bebel-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Joao-e-Bebel-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Joao-e-Bebel.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Jo\u00e3o Gilberto com Bebel, sua filha com Mi\u00facha, irm\u00e3 de Buarque<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas no meu espelho pessoal tendo que responder tamb\u00e9m \u201cporque foi fraco assim\u201d e, dessa forma, percebi que a mesma \u201cinsensatez\u201d se faz brilhar em outra possibilidade confessional que, por fim, fez \u201cchorar de dor o seu amor\/ um amor t\u00e3o delicado\u201d. Foi a\u00ed, exatamente neste ponto, que me compreendi na can\u00e7\u00e3o: errei por dentro ao me deixar cr\u00e9dulo que o mundo poderia ser melhor, que minha harmonia interna seria prolongamento do contexto geral daquele \u201cBrasil do jeitinho\u201d, ou do \u201cDeus \u00e9 brasileiro\u201d. Errei! N\u00e3o vi a \u00edndole m\u00e1 da nossa elite, e de alguma maneira permiti que a tirania pol\u00edtica e a injusti\u00e7a social me iludissem. No som baixinho de Jo\u00e3o Gilberto, ou\u00e7o que poderia ter sido mais aguerrido contra a institucionaliza\u00e7\u00e3o do poder como chegou at\u00e9 hoje, e acato que na verdade n\u00e3o soube amar o ser delicado ferido pela minha insensatez. Resta o perd\u00e3o, e pelo eco sussurrante de Jo\u00e3o Gilberto, pe\u00e7o perd\u00e3o, perd\u00e3o apaixonado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tornou-se comum parafrasear situa\u00e7\u00f5es da vida cotidiana com passagens musicais, algo do tipo: \u201ca gente vai levando\u201d, \u201cdeixa a vida me levar\u201d, \u201clevanta sacode a &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16987,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16984","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16984","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16984"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16984\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16988,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16984\/revisions\/16988"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16984"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16984"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16984"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}