{"id":16888,"date":"2019-05-29T15:07:10","date_gmt":"2019-05-29T18:07:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16888"},"modified":"2019-05-29T15:07:10","modified_gmt":"2019-05-29T18:07:10","slug":"musica-brega-e-o-espelho-de-narciso-1-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/musica-brega-e-o-espelho-de-narciso-1-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"M\u00fasica brega e o espelho de Narciso 1 (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Com estranha insist\u00eancia tem me vindo \u00e0 cabe\u00e7a uma frase fatal, escrita por Thomas Mann em um dos meus livros favoritos \u201cJos\u00e9 e seus irm\u00e3os\u201d. Diz o autor alem\u00e3o, filho de m\u00e3e brasileira: \u201c<em>\u00e9 muito fundo o po\u00e7o do passado. N\u00e3o seria melhor dizermos que \u00e9 um po\u00e7o sem fundo? Quanto mais fundo sondamos&#8230; Quanto mais longe nos aventuramos nas sondagens, mais distante nos parece o fundo do po\u00e7o e, \u00e0 medida que vamos descobrindo novos pontos de apoio e atingindo aparentes metas, mais longe temos de levar a nossa sonda, que se estira e se aprofunda cada vez mais, como se tudo quanto encontramos e investig\u00e1vel estivesse preparado para zombar das nossas laboriosas pesquisas&#8230; H\u00e1, portanto origens provis\u00f3rias&#8230;<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Confesso que esta passagem d\u00f3i em mim, em especial quando algu\u00e9m ilumina um caminho escuro retra\u00e7ado pela mem\u00f3ria de minha gera\u00e7\u00e3o. Sim, \u00e9 dif\u00edcil ser brasileiro e a eternidade desta nossa sina grita forte quando olhamos o passado recente, aquele que ambientou um grupo de jovens que ousou sonhar com um Brasil diferente daquele que temos em m\u00e3os. E exatamente quando ataques virulentos se manifestam com o conhecimento filos\u00f3fico ou human\u00edstico, a dor chega a convocar desilus\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Thomas-Mann.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16889\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Thomas-Mann.jpg\" alt=\"Thomas Mann\" width=\"185\" height=\"272\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;&#8230; mais distante nos parece o fundo do po\u00e7o&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Diria que entre os dilemas que aturdem nossas d\u00favidas est\u00e1 a qualidade da consci\u00eancia de classe. Vivemos propalando que somos brasileiros acima de tudo e esquecemos que alguns s\u00e3o brasileiros acima de todos os outros, como se eles n\u00e3o fossem brasileiros, n\u00e3o tivessem os mesmos direitos e oportunidades. Sim, a cultura formal, o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o neste pa\u00eds tem sido dos privilegiados, dos brancos, cidad\u00e3os urbanos e propriet\u00e1rios, de uma minoria que podemos chamar de elite. E assim vamos vivendo como se todos nasc\u00eassemos iguais, homog\u00eaneos socialmente, e partilhamos supostos falsos como a valoriza\u00e7\u00e3o da meritocracia. Nada mais melanc\u00f3lico do que supor igualdades a partir de pontos de partida diferentes.<\/p>\n<p>Os vivas dados \u00e0 meritocracia se entoam considerando os mesmos n\u00edveis de partida, desprezando lugares diversos de sa\u00eddas. Penso nos interiores de estados como Piau\u00ed, Maranh\u00e3o, Par\u00e1. E mesmo sem ir t\u00e3o longe considero as periferias das grandes e m\u00e9dias cidades, e nelas situo legi\u00f5es de jovens desfavorecidos, tamb\u00e9m os negros e pardos, e ent\u00e3o, mais do que indignado com o apagamento das diferen\u00e7as, me sondo do ju\u00edzo l\u00f3gico da nossa classe m\u00e9dia. E como n\u00e3o falar de exclus\u00e3o silenciosa e perversa? E como suportar a ignor\u00e2ncia de uma elite min\u00fascula que teve seu passado constitu\u00eddo pelo trabalho, durante 400 anos, pelo maior contingente de escravos negros da hist\u00f3ria. E que essas v\u00edtimas da servid\u00e3o foram libertadas sem um projeto de participa\u00e7\u00e3o na sociedade? Arde em mim, pensar que ao mesmo tempo em que compusemos uma sociedade de classe ainda tenhamos uma das mais berrantes diferen\u00e7as de condi\u00e7\u00f5es do planeta.<\/p>\n<p>Mas como j\u00e1 sabemos que o entendimento do Brasil n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria para iniciantes, convido a uma visita a um tema que nos afeta de maneira contundente: a m\u00fasica popular. Motivado por busca de compreens\u00e3o do que seria nossa cultura popular, provoquei alguns debates em minhas redes sociais. E com vi\u00e7o insuspeitado vi aflorada uma determina\u00e7\u00e3o interessante: o olhar desprez\u00edvel sobre algumas manifesta\u00e7\u00f5es sonoras do \u201coutro\u201d. O termo est\u00e9tica aqui \u00e9 usado propositadamente, at\u00e9 porque \u00e9 complicado entender que os chamados subalternos, o tal \u201cpov\u00e3o\u201d, a classe C ou D detenha alguma l\u00f3gica pr\u00f3xima do bom gosto elegante, das manifesta\u00e7\u00f5es ditas apuradas. Ressalta assim o nosso poder julgador e os tais outros viram bregas, cafona, sem gosto.<\/p>\n<p>A par desta constata\u00e7\u00e3o emerge outro constrangimento. A cultura brasileira em geral simplesmente apagou da considera\u00e7\u00e3o de estudos sobre o passado este tema que aos poucos foi sendo esquecido e at\u00e9 visto como ex\u00f3tico, coisa quase que folcl\u00f3rica. A desqualifica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das estrat\u00e9gias de apagamento de um pret\u00e9rito que foi imperfeito na configura\u00e7\u00e3o da modernidade brasileira. E no lugar, novos figurantes \u2013 Roberto Carlos, por exemplo \u2013 foram se constituindo com base de novos acordes e entona\u00e7\u00f5es. Posto isto fica estabelecido um pressuposto aberto \u00e0s an\u00e1lises: m\u00fasica brega deixou de existir e foi esquecida, ou, no processo de constitui\u00e7\u00e3o de uma nova elite urbana deu lugar \u00e0 outra est\u00e9tica, evolu\u00edda daquela antes negada? Traduzindo de maneira mais simples, Roberto Carlos e correlatos seriam adapta\u00e7\u00f5es da breguice? Afinal, h\u00e1 acertos em se considerar a MPB uma variante da cafon\u00e1lia? Caso haja concord\u00e2ncia, a n\u00e3o considera\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brega seria justificada? Apelando para Caetano, \u201cNarciso acha feio o que n\u00e3o \u00e9 espelho\u201d?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Slecao-bregas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16890\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Slecao-bregas.jpg\" alt=\"Slecao bregas\" width=\"259\" height=\"194\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a os mais importantes autores de hist\u00f3ria da nossa m\u00fasica e de antologias da chamada nossa m\u00fasica popular n\u00e3o levaram avante o registro da soma de can\u00e7\u00f5es que, afinal, se constitu\u00edram no mais aceito g\u00eanero pelas camadas numericamente mais populosas do pa\u00eds. Note-se que nesse caldo est\u00e3o autores como Zuza Homem de Melo, Tarik de Souza, Nelson Mota, S\u00e9rgio Cabral e mesmo o pessoal de esquerda como Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o ou Ruy Castro tiveram a sensibilidade de relevar tal g\u00eanero, que foi \u00e0 \u00e9poca o mais vendido, tocado e considerado na alma brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>*****<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>ARA\u00daJO, Paulo Cesar de. Eu n\u00e3o sou cachorro, n\u00e3o: m\u00fasica popular cafona e ditadura militar<\/strong><\/em>. <em>Rio de janeiro: Record, 2010. 7\u00aa. Ed. 458p.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com estranha insist\u00eancia tem me vindo \u00e0 cabe\u00e7a uma frase fatal, escrita por Thomas Mann em um dos meus livros favoritos \u201cJos\u00e9 e seus irm\u00e3os\u201d. &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16891,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16888","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16888","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16888"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16888\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16892,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16888\/revisions\/16892"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16891"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16888"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16888"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16888"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}