{"id":16825,"date":"2019-05-10T12:26:45","date_gmt":"2019-05-10T15:26:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16825"},"modified":"2019-05-10T12:37:44","modified_gmt":"2019-05-10T15:37:44","slug":"escrevendo-escrevendo-escrevendo-e-falando-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/escrevendo-escrevendo-escrevendo-e-falando-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Escrevendo, escrevendo, escrevendo e falando (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para o amigo Cl\u00e1udio que provocou este texto<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Aconteceu!&#8230; Eu terminava de ler \u201cDe volta aos textos de Freud: dando voz a documentos mudos\u201d de Ilse Grubrich-Simitis (Imago, 1995) quando recebi um post de amigo que alimenta um animado grupo de WhatsApp. O livro trata do papel da escrita na formula\u00e7\u00e3o das ideias do \u201cpai da psican\u00e1lise\u201d; j\u00e1 a mensagem na rede social dizia de regras do bem escrever. Justamente porque tenho insistido na distin\u00e7\u00e3o entre fala e escrita, senti-me provocado pelo cruzamento das duas pr\u00e1ticas expressivas. Por l\u00f3gico tomei cuidado para n\u00e3o confundir os dois c\u00f3digos que s\u00e3o diferentes. Uma coisa \u00e9 a fala e outra a escrita. Ali\u00e1s, logo me veio \u00e0 lembran\u00e7a de um coment\u00e1rio feito por J\u00f4 Soares e corri para ilustrar o que digo:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u201cPois \u00e9. U purtugu\u00eais \u00e9 muinto f\u00e1ciu di aprender, purqui \u00e9 uma l\u00edngua qui a genti iscrevi ixatamenti cumu si fala. Num \u00e9 cumu ingl\u00eais qui d\u00e1 at\u00e9 vontadi di ri quandu a genti discobri cumu \u00e9 qui si iscrevi algumas palavras. Im purtugu\u00eais n\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 prest\u00e1ten\u00e7\u00e3o. U alem\u00e3o pur exemplu. Qu\u00e9 coisa mais doida? Num bate nada cum nada. At\u00e9 nu espanhol qui \u00e9 parecidu, si iscrevi muinto diferenti. Qui bom qui a minha l\u00edngua \u00e9 upurtugu\u00eais. Quem soub\u00e9 fal\u00e1 sabi iscrev\u00ea&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 E n\u00e3o foi sem motivo que ri, pois no grupo \u2013 formado por amigos velhos (em todos os sentidos) \u00e9 comum o pessoal imitar pela escrita o jeito caipira de falar (\u201cNum disse pro c\u00ea\u201d; \u201cte falei que n\u00f3is vai\u201d, \u201cos6tudo\u201d). E dando asas, resolvi declinar o texto vindo pela rede. Sob o t\u00edtulo \u201c20 dicas para escrever bem\u201d (na verdade eram 19 e a \u00faltima nem estava terminada), luzia uma s\u00e9rie de \u201cv\u00edcios gramaticais\u201d, versando sobre \u201crepeti\u00e7\u00e3o de palavras na mesma frase\u201d, \u201cabreviaturas\u201d, \u201cuso express\u00f5es anacr\u00f4nicas ou esdruxulas\u201d, \u201caplica\u00e7\u00e3o de par\u00eantesis\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/James-Michener.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16826\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/James-Michener-450x433.jpg\" alt=\"James Michener\" width=\"450\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/James-Michener-450x433.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/James-Michener-300x289.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/James-Michener-768x740.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/James-Michener.jpg 1495w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Michener: o bem falar depende do dom\u00ednio da escrita<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Minha primeira perplexidade comprometia algumas dessas \u201cregras\u201d. Como sempre fa\u00e7o busquei saber do autor dos tais mandamentos. Achei! Achei, mas n\u00e3o fiquei satisfeito com as notas indicativas e tratei de ler uma ador\u00e1vel biografia intitulada \u201cJames Michener, a Biography\u201d. E me deliciei sabendo que o professor de pequena cidade do interior da Pensilv\u00e2nia, tendo sido abandonado pela m\u00e3e ao nascer, filho adotivo de fam\u00edlia Quaker, tinha virado escritor de sucesso e, antes de morrer em 1995, ganhado o prestigioso Pr\u00eamio Pulitzer, honraria distintiva delegada a autores norte-americanos. E pensei comigo: e agora Jos\u00e9; e agora? E agora o que V. Sa. acha?<\/p>\n<p>A biografia de Michener explicita a preocupa\u00e7\u00e3o com as regras do bem escrever e progride mostrando que Michener se casou tr\u00eas vezes, sendo que a terceira foi com uma nipo-americana que pouco sabia da l\u00edngua de Shakespeare. Para auxili\u00e1-la, tratou de compilar as tais dicas. O premiado autor partia do pressuposto que pontifica o bem falar s\u00f3 se realiza depois do dom\u00ednio da escrita. Ent\u00e3o, escrever seria pr\u00e1tica funcional exigente. \u00c0 medida que lia a biografia, ia me inquietando, pois um dos t\u00f3picos abrangidos remetia ao uso do ger\u00fandio, t\u00e3o maltratado por n\u00f3s, brasileiros. Detive-me neste item que sob o n\u00famero 4 rezava:<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Voc\u00ea nunca deve estar usando o ger\u00fandio! Porque, assim, vai estar deixando o texto desagrad\u00e1vel para quem vai estar lendo o que voc\u00ea vai estar escrevendo. Por isto deve estar prestando aten\u00e7\u00e3o, pois, caso contr\u00e1rio, quem vai estar recebendo a mensagem vai estar comentando que esse seu jeito de estar redigindo vai estar irritando todas as pessoas que v\u00e3o estar lendo.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Drummond.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16827\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Drummond.jpg\" alt=\"Drummond\" width=\"297\" height=\"170\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Carlos Drummond, autor do poema A Morte da Gram\u00e1tica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Isso bastou para questionar a equipara\u00e7\u00e3o. O ger\u00fandio em ingl\u00eas (<em>I\u2019m thinking,<\/em> por exemplo) n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 consagrado como faz parte da aceita\u00e7\u00e3o de express\u00f5es orais e\/ou escritas. Nos Estados Unidos como no nosso caso \u2013 pa\u00edses colonizados \u2013 temos raz\u00f5es especiais para o uso do ger\u00fandio. Antes de tudo, por\u00e9m, \u00e9 preciso n\u00e3o confundir ger\u00fandio com gerundismo e, na din\u00e2mica das l\u00ednguas derivadas de matrizes metropolitanas, perceber o ger\u00fandio (substantivo masculino) como agente do tempo continuado, algo em processo de mudan\u00e7as, caracterizado pelo \u201cnd\u201d que, ali\u00e1s, se explica n\u00e3o s\u00f3 pela gram\u00e1tica, mas tamb\u00e9m pela hist\u00f3ria. O tempo verbal colonizador \u00e9 sempre infinitivo e se presentifica: \u201cestou a pensar\u201d. O colonizado se expressa no \u201cestou pensando\u201d, \u201candando\u201d, \u201cfazendo\u201d. De pronto um exemplo dignifica esta minha explica\u00e7\u00e3o. Diz nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, no encantador poema que ironiza as normas do vern\u00e1culo \u201cA Morte pela Gram\u00e1tica\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>N\u00e3o amando mais escolher<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Entre mil ser\u00f4dios programas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>E posto entre o t\u00e9dio e o dever,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Sabendo a ironia das camas&#8230;<\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Assim, pude retomar as tais normas vindas pelas redes sociais e filtrar o artif\u00edcio ardiloso usado pelo autor norte-americano. Com apoio de Drummont, incorporei os v\u00edcios neste texto, a come\u00e7ar pelo enunciado: escrevendo, escrevendo, escrevendo e falando&#8230; Aprendi! Nesta breve medita\u00e7\u00e3o procurei assumir algumas das provoca\u00e7\u00f5es prezadas na tradu\u00e7\u00e3o das ordens (atribu\u00eddas a Michener) e: repeti palavras, pontuei de forma \u201cerrada\u201d, usei termos incomuns, rimei alguns, coloquei par\u00eantesis e travess\u00f5es e, se voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui em sua leitura, pode concluir que nem sempre o que mandam fazer serve para uma reda\u00e7\u00e3o suport\u00e1vel. E volto ao livro sobre a escrita de Freud, o importante \u00e9 escrever, s\u00f3 nos conhecemos, e s\u00f3 nos reconhecemos pela escrita. E Freud explica&#8230; E Drummond alerta contra a Morte pela Gram\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o amigo Cl\u00e1udio que provocou este texto \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Aconteceu!&#8230; Eu terminava de ler \u201cDe volta aos textos de Freud: dando &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16829,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16825","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16825"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16825\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16828,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16825\/revisions\/16828"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16829"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}