{"id":16774,"date":"2019-04-23T12:29:21","date_gmt":"2019-04-23T15:29:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16774"},"modified":"2019-04-23T17:10:42","modified_gmt":"2019-04-23T20:10:42","slug":"a-onda-marrom-na-europa-daniel-aarao-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-onda-marrom-na-europa-daniel-aarao-reis\/","title":{"rendered":"A onda marrom na Europa (Daniel Aar\u00e3o Reis*)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>O triste \u00e9 perceber que os partidos de esquerda carecem de propostas<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 As democracias e os valores democr\u00e1ticos estariam em crise terminal? Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em livro\u00a0recente, aventuraram-se a apresentar uma reflex\u00e3o sobre como as democracias morrem. Ora, h\u00e1 poucas d\u00e9cadas, sobretudo depois da desagrega\u00e7\u00e3o do socialismo sovi\u00e9tico, em 1991, a democracia parecia destinada a ser o ponto de chegada da hist\u00f3ria mundial. O que teria acontecido?<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o do autoritarismo, sob diversas formas, de direita e de esquerda, desenvolve-se em diferentes contextos e, em cada regi\u00e3o ou pa\u00eds, suscita interpreta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>Seria ousado propor uma explica\u00e7\u00e3o geral para o fen\u00f4meno.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Steven-Levitsky-e-Daniel-Ziblatt.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16775\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Steven-Levitsky-e-Daniel-Ziblatt.jpg\" alt=\"Steven Levitsky e Daniel Ziblatt,\" width=\"293\" height=\"172\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Steven Levitsky e Daniel Ziblat, autores do livro Como as Democracias Morrem<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Consideremos, por\u00e9m, o caso da Europa, em particular, onde \u00e9 vis\u00edvel a popularidade do autoritarismo de direita. Na Pol\u00f4nia, na Hungria e na Eslov\u00e1quia, governos direitistas d\u00e3o as cartas. Na It\u00e1lia e na \u00c1ustria, for\u00e7as extremadas de direita, em coliga\u00e7\u00e3o, acedem ao governo. Na Fran\u00e7a, h\u00e1 anos, ela s\u00f3 tem sido vencida por votos de uma ampla e informal frente democr\u00e1tica. At\u00e9 mesmo em sociedades do \u201cbem-estar social\u201d, como Inglaterra, Holanda, B\u00e9lgica, Su\u00ed\u00e7a, Dinamarca e Su\u00e9cia, a tenta\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria de direita aparece com for\u00e7a. \u00c9 o caso tamb\u00e9m da Alemanha, onde, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, ingressou no Parlamento um partido de extrema-direita, embora minorit\u00e1rio. Seria razo\u00e1vel igualar estas tend\u00eancias a uma nova \u201conda marrom\u201d (cor do uniforme usado pelas SA, os Sturmabteilung, mil\u00edcias nazistas dos anos 1930)? Um renascimento do nazifascismo sob novas formas? Enquanto se trava o debate conceitual, seria importante considerar alguns aspectos relevantes.<\/p>\n<p>Comecemos pelo fato de que as propostas ultraconservadoras, mesmo depois da II Guerra Mundial, permaneceram vivas e bem vivas na Europa. No ocidente do continente, a Guerra Fria impediu pol\u00edticas s\u00e9rias de desnazifica\u00e7\u00e3o. Na Europa oriental, as mal chamadas \u201cdemocracias populares\u201d existiam em virtude da ocupa\u00e7\u00e3o das tropas sovi\u00e9ticas. Assim, ideias e movimentos de extrema-direita ficaram fermentando, \u00e0 espera e \u00e0 espreita de circunst\u00e2ncias prop\u00edcias. Estas desenharam-se com a subvers\u00e3o radical de valores introduzida pela grande revolu\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica, desde os anos 1960. Da organiza\u00e7\u00e3o da economia \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, da configura\u00e7\u00e3o das classes sociais aos valores culturais, um verdadeiro terremoto aconteceu, abalando certezas, instaurando o medo. Grandes contingentes populacionais passaram a ter dificuldade em se encontrar num mundo que mudava numa velocidade imprevis\u00edvel. Desamparados pelos partidos tradicionais \u2014 de direita e de esquerda \u2014e pelas institui\u00e7\u00f5es vigentes, tenderam a encontrar em discursos simplistas respostas para seus anseios e ang\u00fastias.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Michael-Lowi-e-Daniel-Bensaid.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16776\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Michael-Lowi-e-Daniel-Bensaid-450x298.jpg\" alt=\"Michael Lowi e Daniel Bensaid\" width=\"450\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Michael-Lowi-e-Daniel-Bensaid-450x298.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Michael-Lowi-e-Daniel-Bensaid-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Michael-Lowi-e-Daniel-Bensaid.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Daniel Bensaid e Michel L\u00f6wy se referem ao p\u00e2nico identit\u00e1rio<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 O processo acirrou-se com a crise econ\u00f4mico-financeira iniciada em 2008. Pagaram pelos custos da supera\u00e7\u00e3o do desastre os trabalhadores e os assalariados em geral. Pagaram com desemprego, subemprego, sal\u00e1rios aviltados e servi\u00e7os p\u00fablicos degradados. J\u00e1 os capitais financeiros, respons\u00e1veis diretos pela crise, receberam subs\u00eddios, est\u00edmulos, prote\u00e7\u00e3o e cobertura dos respectivos governos. Aprofundou-se o quadro de desespero, amargura e ressentimento. Caldo de cultura favor\u00e1vel aos demagogos direitistas.<\/p>\n<p>Por outro lado, os imigrantes, que haviam desempenhado papel vital no desenvolvimento econ\u00f4mico dos anos 1950-1960, assimilados pela prosperidade europeia, passaram a ser percebidos com hostilidade, gerando uma esp\u00e9cie de \u201cp\u00e2nico identit\u00e1rio\u201d (express\u00e3o de Daniel Bensaid, citado por Michel Lowy em recente artigo), um outro poderoso nutriente das direitas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O triste \u00e9 perceber que os partidos de esquerda carecem de propostas. Ou conciliam com os interesses dos grandes capitais financeiros ou cedem ao canto de sereia dos nacionalismos, um terreno armadilhado que n\u00e3o \u00e9 o seu. Em ambos os casos, abandonam o caminho de uma Europa dos trabalhadores, \u00fanica sa\u00edda comprometida com a justi\u00e7a social e \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o da democracia, uma terceira margem, alternativa ao dom\u00ednio atual da especula\u00e7\u00e3o financeira e \u00e0 onda marrom.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>daniel.aaraoreis@gmail.com<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O triste \u00e9 perceber que os partidos de esquerda carecem de propostas \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 As democracias e os valores democr\u00e1ticos estariam em &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16776,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16774","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16774"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16774\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16778,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16774\/revisions\/16778"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16776"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}