{"id":16658,"date":"2019-03-12T18:32:35","date_gmt":"2019-03-12T21:32:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16658"},"modified":"2019-03-12T18:32:35","modified_gmt":"2019-03-12T21:32:35","slug":"tres-mortes-carnavalizadas-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/tres-mortes-carnavalizadas-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas mortes carnavalizadas (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempo venho pensando em transformar em cr\u00f4nicas certas hist\u00f3rias que gosto de contar. J\u00e1 consegui formatar algumas, e outras se avolumam em vontades incontidas. Como se fosse ponta de lan\u00e7a, no entanto, uma muito recente convocou urg\u00eancia. Talvez pela bizarrice, talvez pelo quase paradoxal, um vel\u00f3rio repontou como tema.<\/p>\n<p>Trata-se da morte de um personagem tipicamente carioca, o Alfredo Jacinto Mello \u2013 Alfredinho como era conhecido, respeitado e amado por todos. Aos 75 anos, ele era dono de um boteco desses poucos que podem ser chamados de \u201cmeu\u201d. O Bip Bip, ou Bip como era conhecido, se tornou um dos locais preferentes de artistas, jornalistas, e bo\u00eamios em geral. O pr\u00f3prio dono foi seu fundador em 1984 e dele dizia que \u201ceste estabelecimento foi parido na abertura pol\u00edtica\u201d. Ali\u00e1s, como leg\u00edtimo espa\u00e7o democr\u00e1tico, l\u00e1 se deram alguns dos mais incendiados brados de defesa das liberdades democr\u00e1ticas. Sinceramente, n\u00e3o h\u00e1, em todo Rio de Janeiro, point que se iguale no g\u00eanero \u201cturma fiel\u201d. Tudo no Bip \u00e9 aut\u00eantico e quase inacredit\u00e1vel.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Alfredinho-com-placa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16659\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Alfredinho-com-placa.jpg\" alt=\"Alfredinho com placa\" width=\"274\" height=\"184\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O Bip Bip teria sido inaugurado no dia em foi decretado o AI 5<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Vale come\u00e7ar pelo atendimento. Imagine, em plena Copacabana, um lugar frequentad\u00edssimo, mas sem nenhum gar\u00e7om, sem comanda, sem card\u00e1pio. O pedido \u00e9 feito diretamente no caixa e cada qual se serve de bebidas no frigobar. A informalidade ganha mais destaque ainda quando se v\u00ea que a maioria das pessoas n\u00e3o se espreme dentro da casa e se esparrama na rua. Ali\u00e1s, h\u00e1 frequentadores que levam os pr\u00f3prios banquinhos para garantir algum conforto nas longas horas de conv\u00edvio sempre afinado.<\/p>\n<p>As pequenas paredes \u2013 acredito que o bar n\u00e3o tenha 20 metros quadrados \u2013 s\u00e3o cobertas por fotos de frequentadores famosos, por cartazes pol\u00edticos (de esquerda, \u00e9 claro) e por cenas do Botafogo, time do cora\u00e7\u00e3o do propriet\u00e1rio. Chico Buarque, Beth Carvalho, Milton Nascimento quando vem ao Rio, Neguinho da Beija-flor, figuram entre os ass\u00edduos e l\u00e1, na paz, gozam de tranquilidade impens\u00e1vel em outro lugar.<\/p>\n<p>Durante anos, Alfredinho manteve uma rotina de atendimento que contempla segunda e ter\u00e7a, chorinho, marca da casa; os demais dias dedicados \u00e0 bossa nova e MPB em geral (m\u00fasica estrangeira, s\u00f3 jazz de vez em quando). Ah! n\u00e3o era dif\u00edcil ver gente dan\u00e7ando na rua ou ouvir \u201cparab\u00e9ns pra voc\u00ea\u201d. N\u00e3o bastasse tanta autonomia, o dono do Bip Bip, o Alfredinho fez quest\u00e3o de morrer no s\u00e1bado \u00faltimo, abertura do carnaval. Pode uma coisa destas?! Pode?!?!?!&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Despedida.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16660\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Despedida-450x300.jpeg\" alt=\"Despedida\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Despedida-450x300.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Despedida-300x200.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Despedida.jpeg 627w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O cortejo f\u00fanebre de Alfredinho transformou-se em um bloco carnavalesco<\/strong><\/p>\n<p>Por certo um dilema se instalou nas almas foli\u00e3s, frequentadoras daquele templo de alegria e resist\u00eancia: e agora?! Confesso que na minha cabe\u00e7a, logo que soube, me veio \u00e0 cabe\u00e7a os primeiros versos de Olavo Bilac ao dizer \u00e0 amada morta \u201cnunca morrer assim num dia assim! de um sol assim!\u201d. Sem d\u00favida, por\u00e9m, nos frequentadores outra perplexidade reinou. Numa rede de comunica\u00e7\u00e3o imediata, sem demora alguma, apareceram solu\u00e7\u00f5es que se abra\u00e7aram em consolo coletivo. E parecia un\u00e2nime a proposta de manter a festa viva, ou seja, n\u00e3o cancelar os planos da celebra\u00e7\u00e3o carnavalesca. E mais, resolveram junto \u00e0 fam\u00edlia que o vel\u00f3rio seria no pr\u00f3prio bar. \u201cNem pensar no Alfredinho em uma capela mortu\u00e1ria, jamais\u201d disse o chefe do grupo do whatsapp. Sim, o Bip Bip foi aberto para a visita\u00e7\u00e3o do corpo e rolou muita m\u00fasica, velhos sucessos e bebedeira.<\/p>\n<p>O \u201ccortejo-foli\u00e3o\u201d como foi chamado o acompanhamento saiu em prociss\u00e3o, no domingo, rumo ao cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, onde foi, finalmente, entoado o samba-can\u00e7\u00e3o \u201ccarinhoso\u201d de Pixinguinha e Jo\u00e3o de Barro.<\/p>\n<p>Pois \u00e9: ironia cruel da hist\u00f3ria! Cruel e n\u00e3o menos par\u00f3dica, pois o Pixinguinha, o tal autor de \u201ccarinhoso\u201d tamb\u00e9m morreu em um dia de carnaval. O caso, ali\u00e1s, chega a ser intrigante, pois Pixinguinha tamb\u00e9m morreu aos 75 anos, mas faleceu dentro de uma Igreja, Nossa Senhora da Paz, onde havia ido para apadrinhar uma crian\u00e7a. Era um domingo e a Banda de Ipanema j\u00e1 percorria seu tradicional trajeto quando avisado, na porta do templo, Albino Pinheiro que comandava a passagem da Banda, inv\u00e9s de interromper, exatamente na esquina da Igreja entoou \u201cCarinhoso\u201d, fato que acontece at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Com-Beth-Carvalho.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16661\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Com-Beth-Carvalho.jpg\" alt=\"Com Beth Carvalho\" width=\"259\" height=\"194\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Alfredinho com a querida amiga Beth Carvalho<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outra morte fatal em pleno folguedo de Momo. Em 1912, \u00e0s v\u00e9speras do carnaval morria o Bar\u00e3o do Rio Branco. Hermes da Fonseca, ent\u00e3o presidente, decretou luto oficial e no ato determinou que os festejos fossem transferidos para o m\u00eas de abril. A popula\u00e7\u00e3o em geral, no entanto, n\u00e3o acatou a ordem e manteve suas atividades festivas como se nada de novo houvesse. A insist\u00eancia do decreto, por\u00e9m fez obedecer a ordem decretada, e no dia 6 do m\u00eas de abril realizou-se outro carnaval que, ali\u00e1s, valeu uma deliciosa marchinha popular: \u201cCom a morte do Bar\u00e3o\/ Tivemos dois Carnav\u00e1\/ Ai, que bom! Ai, que gostoso! Se morresse o Marech\u00e1!\u201d.<\/p>\n<p>Mas o que se aprende com estas mortes carnavalescas? Sobretudo, ressalta-se o vigor da vontade popular. Nos dois eventos \u2013 morte de Alfredinho e Pixinguinha \u2013 valeu a ternura do p\u00fablico em geral. Frente ao decreto c\u00edvico oficial \u2013 da morte do Bar\u00e3o \u2013 al\u00e9m da desobedi\u00eancia popular, vibrou a ironia contra o poder estabelecido, militar, que insistia em disciplinar o indisciplin\u00e1vel: a vontade legitimada do povo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempo venho pensando em transformar em cr\u00f4nicas certas hist\u00f3rias que gosto de contar. 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