{"id":16630,"date":"2019-02-23T09:40:01","date_gmt":"2019-02-23T12:40:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16630"},"modified":"2019-02-23T09:40:01","modified_gmt":"2019-02-23T12:40:01","slug":"carnaval-desengano-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/carnaval-desengano-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Carnaval, desengano&#8230; (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Chico Buarque de Hollanda, como se sabe, \u00e9 compositor dos melhores, celebrado em diversos quadrantes, principalmente pela harmonia equilibrada entre m\u00fasica e letra. N\u00e3o tem como deixar de admir\u00e1-lo seja pelo dom\u00ednio da m\u00e9trica exata ou da rima perfeita. Assim ele \u00e9 consagrado como dos mais significativos compositores populares em l\u00edngua portuguesa.<\/strong> <\/em><\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, algo mais a ser respeitado em termos de express\u00e3o cantante: o significado metaf\u00f3rico trocado em mi\u00fados. Por certo, o aprendizado com a censura nos \u201canos de chumbo\u201d valeu como experi\u00eancia que ambientou sua atividade. E s\u00e3o can\u00e7\u00f5es que falam de paix\u00f5es, amores clandestinos, tristezas de miser\u00e1veis, mas tamb\u00e9m de alegrias de conv\u00edvio. Tudo com destreza e comprometimentos. Concordemos ou n\u00e3o com ele, seu posicionamento pol\u00edtico \u00e9 constante, intenso e coerente. Mapear a obra desse mago das palavras \u00e9 tarefa exigente, e tem sido feita em artigos, disserta\u00e7\u00f5es e teses. Num r\u00e1pido voo, por\u00e9m, em aud\u00e1cia desmedida, evoco o sentido do carnaval em sua vasta produ\u00e7\u00e3o e busco nesse conjunto reflex\u00f5es sobre a passagem do tempo na cultura brasileira, em particular sob o regime dos militares. Esta aventura, diga-se, requer acatar a sutileza inerente \u00e0 discuss\u00e3o sobre o sentido do carnaval na cultura brasileira.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Roberto-DaMatta.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16631\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Roberto-DaMatta-337x450.jpg\" alt=\"Roberto DaMatta\" width=\"337\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Roberto-DaMatta-337x450.jpg 337w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Roberto-DaMatta-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Roberto-DaMatta.jpg 470w\" sizes=\"auto, (max-width: 337px) 100vw, 337px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Roberto DaMatta: leva em conta a &#8220;invers\u00e3o do cotidiano&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Grosso modo, presidem duas teses explicativas sobre aquele que \u00e9 o maior ritual festivo do planeta. O carnaval para alguns autores, em particular para o mais difundido e badalado antrop\u00f3logo brasileiro, \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o que leva em conta a \u201cinvers\u00e3o do cotidiano\u201d. Roberto DaMatta explica suas teorias supondo a dramatiza\u00e7\u00e3o coletiva de uma cultura que dramatiza os dilemas da vida cotidiana num ritual dan\u00e7ante onde grupos assumem a suspens\u00e3o dos comandos di\u00e1rios e, de forma \u201cextraordin\u00e1ria\u201d, transformam suas pr\u00e1ticas em alegorias contr\u00e1rias. A permissividade \u00e9 a regra que autoriza mudan\u00e7as que permitem, por exemplo, que a tristeza se transforme em alegria e, na suspens\u00e3o do tempo \u201cordin\u00e1rio\u201d, pobre seja rico, conde ou rei, citadinos virem \u00edndios&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Renato-Ortiz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16632\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Renato-Ortiz.jpg\" alt=\"Renato Ortiz\" width=\"219\" height=\"231\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Renato Ortiz se contrap\u00f5e a DaMatta: as institui\u00e7\u00f5es continuam a existir<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o da permissividade com libera\u00e7\u00e3o sensual \u00e9 autorizada, e o uso da pouca roupa se justifica no ver\u00e3o brasileiro, sugerindo fuga da repress\u00e3o constante nos demais dias do calend\u00e1rio. Ainda que bastante fotog\u00eanica e aceita, a tese de DaMatta \u00e9 rebatida por outro antrop\u00f3logo, Renato Ortiz, que se contrap\u00f5e mostrando que, em vez de \u201cinverter o cotidiano\u201d, o carnaval o consagra e mostra que as institui\u00e7\u00f5es controladoras n\u00e3o deixam de exercer suas fun\u00e7\u00f5es. O estado continua a existir com inst\u00e2ncias de comando e por meio de seu mando, pol\u00edcia, hospitais, clubes e submetem \u00e0s leis que n\u00e3o cessam e nem se interrompem. \u00c9 sob este paradoxo interpretativo que se coloca a quest\u00e3o das m\u00fasicas de Chico Buarque. Pergunta-se, ent\u00e3o, como ele se comportaria no caso das duas teorias?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Qdo-carnaval-chegar.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16633\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Qdo-carnaval-chegar-445x450.jpg\" alt=\"Qdo carnaval chegar\" width=\"445\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Qdo-carnaval-chegar-445x450.jpg 445w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Qdo-carnaval-chegar-296x300.jpg 296w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Qdo-carnaval-chegar-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Qdo-carnaval-chegar.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tema frequente nas can\u00e7\u00f5es do compositor, o carnaval apareceu pela primeira vez no elenco das m\u00fasicas buarqueanas em 1965, com uma can\u00e7\u00e3o que aparece com dois t\u00edtulos: \u201cSonho de Carnaval\u201d e \u201cQuando o Carnaval Chegar\u201d, e suas primeiras palavras alertam para a inevitabilidade do que acontecer\u00e1 depois do carnaval pol\u00edtico. Estava dado o recado de forma capaz de vazar a censura e alertar os sambistas, ou melhor, o povo: Carnaval, desengano\/ Deixei a dor em casa me esperando\/ E brinquei e gritei e fui vestido de rei\u201d e logo vem a advert\u00eancia \u201cQuarta-feira sempre desce o pano\/ Carnaval, desengano\u201d. A continuidade da m\u00fasica depois de passar por um significativo \u201cM\u00e3o na m\u00e3o, p\u00e9 no ch\u00e3o\/ E hoje nem lembra n\u00e3o\u201d retoma \u201cQuarta-feira sempre desce o pano\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o sem inten\u00e7\u00e3o, no ano seguinte, em 1966, j\u00e1 sentindo que os militares chegaram para ficar, Chico comp\u00f4s o prof\u00e9tico \u201cVai passar\u201d que, afinal, era resposta do pr\u00f3prio autor \u00e0 censura que havia proibido algumas de suas can\u00e7\u00f5es. A picardia mais agu\u00e7ada se apresentou na composi\u00e7\u00e3o que metaforizava a supera\u00e7\u00e3o daqueles dias autorit\u00e1rios e anunciava \u201cVai passar\/ Nessa avenida um samba popular\/ Cada paralelep\u00edpedo\/ Da velha cidade\/ Essa noite vai\/ Se arrepiar\/ Ao lembrar\/ Que aqui passaram\/ sambas imortais\u201d e de maneira sutil garantia que \u201cQue aqui sangraram pelos nossos p\u00e9s\/ Que aqui sambaram\/ nossos ancestrais\u201d. E a continuidade evoca a instala\u00e7\u00e3o do governo militar \u201cNum tempo\/ P\u00e1gina infeliz da nossa hist\u00f3ria\/ Passagem desbotada na mem\u00f3ria\/ Das nossas novas gera\u00e7\u00f5es\u201d. A sequ\u00eancia \u00e9 bastante eloquente e direta ao mostrar que \u201cDormia\/ A nossa p\u00e1tria m\u00e3e t\u00e3o distra\u00edda\/ Sem perceber que era subtra\u00edda\/ Em tenebrosas transa\u00e7\u00f5es\u201d, e, novamente comparando o regime ao governo, deixava claro que aquele momento (que haveria de passar) \u201cse chamava carnaval\u201d, mas que \u201cVai passar\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo ano, em 1966, desponta o \u201cQuem \u00e9 voc\u00ea\u201d, can\u00e7\u00e3o que garante a identifica\u00e7\u00e3o do carnaval com o regime militar e assume tacitamente \u201cMas \u00e9 Carnaval!\/\u00a0 N\u00e3o me diga mais quem \u00e9 voc\u00ea!\u201d e de forma desafiadora pontifica \u201cAmanh\u00e3 tudo volta ao normal\/ Deixa a festa acabar\/ Deixa o barco correr\u201d. Depois de po\u00e9ticas indaga\u00e7\u00f5es, o autor encerra sua disserta\u00e7\u00e3o dizendo, como que evocando a hist\u00f3ria \u201cQuem \u00e9 voc\u00ea?\/ Por que te amo sem querer\/ Algu\u00e9m, por mim\/ Me fa\u00e7a enfim te conhecer\/ Pra ter um fim\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Chico-e-Mangueira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16635\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Chico-e-Mangueira.jpg\" alt=\"Chico e Mangueira\" width=\"240\" height=\"210\" \/><\/a><em><strong><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Chico-Buarque.jpg\">C<\/a>hico, fluminense homenageado pela Mangueir<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na abertura dos anos 70, Chico Buarque colocava a p\u00fablico, j\u00e1 sem sutileza alguma o seu samba \u201cApesar de voc\u00ea\u201d e entusiasmado assumia \u201cHoje voc\u00ea \u00e9 quem manda\/ Falou, t\u00e1 falado\/ N\u00e3o tem discuss\u00e3o\/ A minha gente hoje anda\/ Falando de lado\/ E olhando pro ch\u00e3o, viu\/ Voc\u00ea que inventou esse estado\/ E inventou de inventar\/ Toda a escurid\u00e3o\/ Voc\u00ea que inventou o pecado\/ Esqueceu-se de inventar o perd\u00e3o\u201d. Sem se referir ao carnaval, ficava subentendido o sentido da festa como argumento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ainda que fazendo muitas outras can\u00e7\u00f5es aludindo ao carnaval, falando de tamborins, pandeiros, \u00e9 com uma can\u00e7\u00e3o de 1979 que ele define o papel do festival no amplo arco de suas can\u00e7\u00f5es e o faz com \u201cEla desatinou\u201d. Debochando da dor, do pecado, do tempo perdido, do jogo acabado, Chico Buarque, curiosamente, passada a abertura pol\u00edtica e a volta \u00e0 democracia, n\u00e3o mais usou o carnaval diretamente em suas letras. Por certo, continua como baluarte da democracia e cr\u00edtico, mas suas tem\u00e1ticas tamb\u00e9m evolu\u00edram como o pr\u00f3prio tr\u00edduo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chico Buarque de Hollanda, como se sabe, \u00e9 compositor dos melhores, celebrado em diversos quadrantes, principalmente pela harmonia equilibrada entre m\u00fasica e letra. N\u00e3o tem &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16634,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16630","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16630"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16630\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16636,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16630\/revisions\/16636"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16634"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}