{"id":16565,"date":"2019-02-08T09:43:09","date_gmt":"2019-02-08T12:43:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16565"},"modified":"2019-02-08T09:43:09","modified_gmt":"2019-02-08T12:43:09","slug":"historias-que-gosto-de-contar-o-caipira-perdido-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/historias-que-gosto-de-contar-o-caipira-perdido-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias que gosto de contar: o caipira perdido (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 disse que quando morto, quero ser cremado, mas&#8230; Mas se tivesse uma l\u00e1pide, ou outra qualquer homenagem feita em material duradouro, ficaria agradecido com uma inscri\u00e7\u00e3o singela dizendo \u201caqui jazz um contador de hist\u00f3rias\u201d. Sim, gosto muito de ouvir e de narrar casos. Os fatos me seduzem mais que as varia\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas ou te\u00f3ricas. Talvez esta seja minha completa tradu\u00e7\u00e3o de interiorano, de filho de imigrante que adorava conversar. Ouvir, contar e principalmente recontar hist\u00f3rias era a mais praticada experi\u00eancia de meu pai. Lembro-me que a cada jantar, todos juntos, ouv\u00edamos os melhores casos. E n\u00e3o presidia nenhum tom cr\u00edtico negativo. Pelo contr\u00e1rio, tudo era narrado como epopeias deliciosas e os caipiras viravam, magicamente, her\u00f3is: Ulisses, Zeus, Argos.<\/p>\n<p>Havia tanto encanto que chego a dizer que foram estas historietas que me fizeram optar pela Hist\u00f3ria como mat\u00e9ria profissional. Mais do que Weber, Marx, Bauman, foram as lendas refeitas pelo pai que me enterneceram e me conduziram \u00e0 academia. E essas falas se estenderam a outros campos da percep\u00e7\u00e3o como a m\u00fasica caipira, as rezas e at\u00e9 o herb\u00e1rio que cura falta de sono, dor de est\u00f4mago e falhas do amor. A imagem do \u201ccaipira picando fumo\u201d da tela de Almeida J\u00fanior, por exemplo, me encanta pela impon\u00eancia e pela autonomia em assumir um tempo dedicado ao que d\u00e1 prazer. O semblante do \u201cpicador,\u201d seu olhar atento ao fumo de rolo me faz evocar saudade de circunst\u00e2ncias que n\u00e3o se tem mais. Ningu\u00e9m mais conta casos. Ficamos mudos e nos restringimos \u00e0 leituras de mensagens instant\u00e2neas, vivenciando o que de pior os aparelhos eletr\u00f4nicos causam. No meu caso, jogar conversa fora, contando hist\u00f3rias funciona como ant\u00eddoto a tudo que temos passado. E luto por reviver as \u201clendat\u00f3rias\u201d ent\u00e3o claras e expl\u00edcitas em personagens que conheci.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Menino-da-porteira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16566\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Menino-da-porteira.jpg\" alt=\"Menino da porteira\" width=\"322\" height=\"157\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Menino-da-porteira.jpg 322w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Menino-da-porteira-300x146.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 322px) 100vw, 322px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Menino da porteira&#8221; na entrada da cidade de Ouro Fino<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 H\u00e1 uma hist\u00f3ria que gosto de recordar mais que outra qualquer e, antes, vale lembrar que a \u201cconta\u00e7\u00e3o\u201d caipira implica enredos com come\u00e7o, meio e fim. Por vital, o sentido tr\u00e1gico ambienta tudo e convida l\u00e1grimas que me rolam f\u00e1ceis. Basta enunciar isto para se ter clareza do impacto de can\u00e7\u00f5es como \u201cMenino da porteira\u201d, na intepreta\u00e7\u00e3o memor\u00e1vel de S\u00e9rgio Reis. Seria f\u00e1cil declinar muitas outras \u201cmodas de viola\u201d que se pronunciam nessa dire\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 algumas hist\u00f3rias que merecem viso. Repasso uma que, particularmente, me acomete sempre.<\/p>\n<p>Lembro-me, menino ainda, assombrado com um caso de um tal Seu Dito da Serra. Ele, morador do campo, teria se afastado, interior adentro, a cada vez que a estrada aberta pelo governo chegava pr\u00f3ximo \u00e0 sua casa. Interiorando-se mais e mais, mudava, mudava, mudava, e junto ia toda fam\u00edlia com os poucos pertences. Foi indo, indo, indo, indo mais, at\u00e9 que avistou o mar. Assustado, temendo o fim do caminho, depois de noites acordado, meditando, resolveu que ia pegar a estrada e, de volta, descobrir onde ela teria come\u00e7ado. Era como uma vingan\u00e7a, ou raiva matadora de seu destino de fugitivo do tal progresso.<\/p>\n<p>Sem avisar ningu\u00e9m, numa madrugada, juntou algumas coisinhas, fez uma trouxa e a amarrou no cajado que levava \u00e0s costas. E foi sem se despedir de ningu\u00e9m. Andou, andou, andou&#8230; Viu porteiras novas, as primeiras vendas, as insipientes casinhas que se avizinhavam, outras mais densas, mais algumas, at\u00e9 que chegou a cidade.<\/p>\n<p>Continuou, mais outra cidade, outra ainda. Tanto caminhou que o Seu Dito da Serra chegou a outra serra e, perdido entre tantos come\u00e7os, nunca mais voltou. N\u00e3o sabia dos retornos. Perdeu-se para sempre e sozinho. De tal maneira este \u201ccauso\u201d me marcou que, a cada vez que ou\u00e7o a express\u00e3o \u201ccaminho sem volta\u201d, me vem \u00e0 mente o caso do caipira desvalido. Por l\u00f3gico, n\u00e3o me faltam digre\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e at\u00e9 fa\u00e7o ila\u00e7\u00f5es com o cancioneiro da MPB e me pergunto se a m\u00fasica \u201cPonteio\u201d n\u00e3o \u00e9 decorr\u00eancia do caso do Seu Dito da Serra: parado no meio do mundo&#8230;<\/p>\n<p>O tempo fluiu. R\u00e1pido demais para quem contempla o passado da altura de mais de 75 anos de idade. E quando olho o tempo decorrido, quando medito sobre tudo que vivi me lembro com afeto esparramado da historinha preferida, contada por meu pai. Os olhos verdes e penetrantes dele se fazem voz e entona\u00e7\u00e3o para supor o paradoxo de pr\u00f3pria trajet\u00f3ria: sai tamb\u00e9m do interior, mas fiz o roteiro inverso, fui em busca de cidade, cada vez mais, e perdido desaprendi onde est\u00e1 o lugar de origem. Mas continuo buscando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 disse que quando morto, quero ser cremado, mas&#8230; Mas se tivesse uma l\u00e1pide, ou outra qualquer homenagem feita em material duradouro, ficaria agradecido com &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16567,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16565","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16565","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16565"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16565\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16568,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16565\/revisions\/16568"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16567"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16565"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16565"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16565"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}