{"id":16461,"date":"2018-12-21T09:03:48","date_gmt":"2018-12-21T12:03:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16461"},"modified":"2018-12-21T09:03:48","modified_gmt":"2018-12-21T12:03:48","slug":"cachorradas-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/cachorradas-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Cachorradas&#8230; (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Jo\u00e3o Coroa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Fim de ano&#8230; Que escrever? Sentei-me decidido a n\u00e3o falar de pol\u00edtica e de perspectivas ideol\u00f3gicas. A ideia era fugir de temas que tanto atormentaram o combalido 2018 coletivo. Tamb\u00e9m queria esquecer o inc\u00eandio do Museu, a divis\u00e3o do pa\u00eds, o fracasso do meu time de futebol conjugado com o vexame da Sele\u00e7\u00e3o, a morte de tantos amigos e \u00eddolos de todas as \u00e1reas, o tratamento injusto a mulheres, gays, \u00edndios e negros. Tinha certeza de evitar a greve dos caminhoneiros, os dramas \u2013 t\u00e3o tocantes \u2013 dos exilados, imigrantes, deportados, e deixar de lado o aquecimento global e os novos\/velhos quadros mandat\u00e1rios. Queria apagar o debate sobre o estado laico, a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, os efeitos da judicializa\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas poderes e o amargo espet\u00e1culo multiplicador dos moradores de rua. Marielle, nem pensar&#8230; Presidia em mim a certeza de que a exalta\u00e7\u00e3o reversa, a epifania dos bons momentos, que certamente existiram, seria pouca mat\u00e9ria para emblemar a fatalidade de um calend\u00e1rio que, paradoxalmente, parece ter passado r\u00e1pido demais. Vapt-vupt, e o ano acabou: feliz ano novo, adeus ano velho&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16462\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Manchinha.jpg\" alt=\"Manchinha\" width=\"284\" height=\"178\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Manchinha foi v\u00edtima do despreparo de um seguran\u00e7a do Carrefour de Osasco<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Houve, por\u00e9m, um caso que me chamou a aten\u00e7\u00e3o e ati\u00e7ou argumentos que se abra\u00e7aram para uma conversa sobre o acabamento desta jornada que, de forma estranha, mistura, em plena primavera, dias de calor intenso e frios repentinos. Sim, h\u00e1 alguma coisa que vai al\u00e9m dos mist\u00e9rios clim\u00e1ticos e sociais: o tratamento dado aos animais, no caso espec\u00edfico aos cachorros. De sa\u00edda, devo dizer que estou comovido com a morte (quase escrevi assassinato) de Manchinha, o c\u00e3ozinho agredido com uma tacada de ferro no p\u00e1tio do Supermercado Carrefour, nas imedia\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Paulo. Eu que leio jornal com tesoura na m\u00e3o, fiquei surpreso com a pequena montanha de recortes feitos sobre o assunto. N\u00e3o foi sem sentido que me vi motivado a tal pena, pois poucos dias antes tamb\u00e9m me comovi com a fidelidade elegante do c\u00e3o de guarda no funeral do presidente Bush\/pai naquele adeus derradeiro. Decidi considerar ambos, e por eles medir meus sentimentos sobre o tempo que se encerra.<\/p>\n<p>De forma gostosa declinei lembran\u00e7as de outros cachorros que afinal compuseram a mitologia bichana que anima meus sentimentos por animais. O primeiro que me alentou foi Marley, o labrador descrito no livro \u201cMarley e eu\u201d (que depois virou filme), de onde guardei uma frase preciosa \u201cQuantas pessoas fazem voc\u00ea se sentir raro, puro e especial? Quantas pessoas nos fazem sentir extraordin\u00e1rios?\u201d. N\u00e3o teria como deixar de lado as sess\u00f5es televisivas sobre \u201cRin Tin Tin\u201d que, desde os anos 1950, animaram o tema \u201ccompanheirismo\u201d. Certamente o filme \u201cBeethoven\u201d emocionou o mundo, perdendo, contudo, em enternecimento para o insuper\u00e1vel \u201cHachiko\u201d, de 2009, pel\u00edcula que contava a hist\u00f3ria de um animalzinho que, mesmo depois de quase dez anos da morte do dono, ia diariamente espera-lo na esta\u00e7\u00e3o de trem. \u00c9 l\u00f3gico que \u201cA Dama e o Vagabundo\u201d, bem como \u201cOs 101 Dalmatas\u201d, n\u00e3o deixaram mais pobre a ladainha de loas.<\/p>\n<p>Nem vou contar minha hist\u00f3ria pessoal com os cachorros que tive; apenas permito-me mencionar uma passagem recente que ado\u00e7ou um reencontro com velhos amigos. Na ocasi\u00e3o, festiva, o colega de juventude evocava um presente que lhe dei, um filhote que al\u00e9m de manter o nome que decidi \u201cTango\u201d, se tornou melhor amigo do pai que havia perdido seu antigo parceiro bichano. Mesmo que sem que os demais notassem, tive que mudar o assunto, pois as l\u00e1grimas cab\u00edveis n\u00e3o combinariam com o jantar. Desse embargo interdito resultou um sonho que tive com minha \u00faltima \u201cc\u00e3\u201d, Susy que tanta dor provocou quando a perdi.<\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico que cabe men\u00e7\u00e3o aos c\u00e3es bravios, aos amedrontadores cachorros maus como o mitol\u00f3gico C\u00e9rbero vindo do submundo (de onde adveio a refer\u00eancia ao diabo como c\u00e3o), mas isto sempre esteve longe de anular a fidelidade de um Argos, amigo de Ulisses, e \u00fanico a reconhec\u00ea-lo depois de 20 anos na guerra.<\/p>\n<p>Quero agora falar de Manchinha, um \u201csem dono\u201d, desses que perambulam por a\u00ed em busca de sobreviv\u00eancia. Indo de c\u00e1 para l\u00e1, sua vida \u2013 nem triste, nem alegre \u2013 fazia parte de uma hist\u00f3ria de valor menor, como algu\u00e9m que \u00e9, no m\u00e1ximo, complemento rotineiro de uma paisagem comum. N\u00e3o se pode definir com precis\u00e3o de onde viera, qual sua trajet\u00f3ria, mas \u00e9 certo que chegou ao tal supermercado em busca de algum resto. Entrou, olhou, foi espantado por zeladores das ordens sanit\u00e1rias. At\u00e9 a\u00ed, tudo bem, ainda que discut\u00edvel, pois, por certo era \u201cum c\u00e3o sem dono\u201d. O que \u00e9 desalentador \u00e9 a forma com que foi tratado depois do escorra\u00e7o. Zeladores de regras o espantaram, mas na pacatez dos desalentados, Manchinha caminhava em marcha lenta. Presumo que ele sabia de seu destino de continuidades. E foi assim at\u00e9 que um obstinado pegou uma vergo e o atingiu com convite \u00e0 morte. Nossa!&#8230; As cenas que se seguiram foram cru\u00e9is demais. \u201cdesumana\u201d seria adjetiva\u00e7\u00e3o cab\u00edvel?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Protesto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16464\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Protesto-450x300.jpg\" alt=\"Protesto\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Protesto-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Protesto-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Protesto.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A morte cruel de Manchinha provocou protestos\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Mas, qual seria a li\u00e7\u00e3o a ser tomada? Al\u00e9m da solidariedade que se avolumou, uma multid\u00e3o em nome da justi\u00e7a tem bradado, e, pelas redes sociais, se imp\u00f4s. Lembrei-me de Waldick Soriano no segundo verso da cantiga brega \u201cEu n\u00e3o sou cachorro, n\u00e3o\u201d: Tu n\u00e3o sabes compreender\/Quem te ama, quem te adora\/ Tu s\u00f3 sabes maltratar-me\/ E por isso eu vou embora. E Manchinha se foi. Adeus Manchinha. Feliz ano novo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Jo\u00e3o Coroa \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Fim de ano&#8230; Que escrever? Sentei-me decidido a n\u00e3o falar de pol\u00edtica e de perspectivas ideol\u00f3gicas. 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