{"id":16386,"date":"2018-11-29T15:08:46","date_gmt":"2018-11-29T18:08:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16386"},"modified":"2018-11-29T15:08:46","modified_gmt":"2018-11-29T18:08:46","slug":"sobre-virar-o-disco-meia-sola-e-pa-de-cal-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/sobre-virar-o-disco-meia-sola-e-pa-de-cal-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"SOBRE \u201cVIRAR O DISCO\u201d, \u201cMEIA SOLA\u201d E \u201cP\u00c1 DE CAL\u201d (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Por acaso, h\u00e1 pouco tempo, havia conversado com um amigo sobre palavras e ditos populares que mudam de sentido \u00e0 medida que o tempo passa. Essas conversas s\u00e3o sempre interessantes, posto dar medida da for\u00e7a da l\u00edngua viva e do nosso envelhecimento. Por coincid\u00eancia, dia desses me vi explicando a um jovem de seus 12 anos o que significava \u201cmudar o disco\u201d. Foi engra\u00e7ado, pois a express\u00e3o ainda \u00e9 frequente e eu mesmo me vejo aplicando-a constantemente. Depois de detalhar a evolu\u00e7\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es dos \u201cbiscoitos\u201d, daqueles discos de 78 rota\u00e7\u00f5es, pretos, grossos, quebradi\u00e7os, detalhei o advento dos LPs com repert\u00f3rio bem maior de can\u00e7\u00f5es, de qualidade de som inigual\u00e1vel, e com capas art\u00edsticas. Falei tamb\u00e9m dos <em>mini-discs<\/em>, grava\u00e7\u00f5es que continham poucas m\u00fasicas e \u00e0s vezes eram at\u00e9 coloridos, de pl\u00e1stico. A conversa se transformou em uma viagem no passado e uma ponte para o presente. Passadas as primeiras informa\u00e7\u00f5es, expliquei que com o tempo \u201cmudar o disco\u201d tinha se\u00a0convertido no sentido usual de \u201cmudar de assunto\u201d, em particular quando o tema de\u00a0conversas tinha chegado a um limite, ou se esgotado. A imagem do jovem interlocutor se iluminou ao relacionar a mudan\u00e7a de m\u00fasica com o \u201coutro lado da grava\u00e7\u00e3o\u201d ou mesmo com a substitui\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00f5es.<a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Mini-disc.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Mini-disc-recortado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16388\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Mini-disc-recortado-450x377.jpg\" alt=\"Mini disc recortado\" width=\"450\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Mini-disc-recortado-450x377.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Mini-disc-recortado-300x251.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Mini-disc-recortado.jpg 662w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O mini disc tinha apenas uma m\u00fasica gravada em cada lado<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E foi assim que progredi para explanar a met\u00e1fora da \u201cmeia sola\u201d, remetendo-me ao aproveitamento do sapato de sola gasta, como se fazia antigamente. Exercitei, neste caso, minhas habilidades hist\u00f3ricas, e lembrei que em pa\u00edses colonizados, em particular naqueles que se regeram pelo trabalho escravo, ter sapatos era sin\u00f4nimo de status social. E at\u00e9 puxei a conversa para os dias de minha inf\u00e2ncia e juventude, ocasi\u00e3o em que ainda a ind\u00fastria de cal\u00e7ado n\u00e3o havia al\u00e7ado os padr\u00f5es atuais \u2013 que, ali\u00e1s, coloca o Brasil como grande produtor.<\/p>\n<p>Novas admira\u00e7\u00f5es se estamparam no olhar curioso do quase mocinho. Saber que havia profissionais espec\u00edficos e estabelecimentos para promover o aproveitamento dos sapatos, com remendos sucessivos, foi novidade para quem hoje goza do privil\u00e9gio de reposi\u00e7\u00f5es frequentes. No embalo da conversa fiada, perguntei: voc\u00ea sabe o que significa \u201ccolocar p\u00e1 de cal\u201d? E nem precisei da negativa; fui logo explicando que os enterros de mortos eram feitos em covas rasas e que para evitar o mal- cheiro se colocava cal. A decorr\u00eancia disto resultou no significado de \u201cfim de conversa\u201d, ou como seria mais apropriado \u201cfim de papo\u201d.<\/p>\n<p>Passados momentos do fim desse \u201cpapo legal\u201d com o jovem, fiquei eu meditando sobre o impacto da atualiza\u00e7\u00e3o da linguagem em geral. Encontrei amparo em leituras que tantos prazeres me d\u00e3o, como as de Marcos Bagno, prezando a din\u00e2mica da l\u00edngua. Correlato da vida humana, as l\u00ednguas variam, as express\u00f5es mudam, e as palavras ou morrem ou ressuscitam com outras significa\u00e7\u00f5es. De tal forma, me entretive nessas constata\u00e7\u00f5es que me permiti um mergulho mais consequente, quase filos\u00f3fico: o que me diriam, hoje, tais express\u00f5es? E flanando no livre pensar, como se estivesse em est\u00e1gios loyolanos atentos aos \u201cexerc\u00edcios espirituais\u201d, fiz liga\u00e7\u00f5es convenientes. Considerei minha perplexidade pol\u00edtica, em particular com os resultados das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, como denominador comum.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Meia-sola.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16389\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Meia-sola.jpg\" alt=\"Meia sola\" width=\"425\" height=\"268\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Meia-sola.jpg 425w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Meia-sola-300x189.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Colocar meia sola em sapatos usados, uma arte exercida por sapateiro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi mec\u00e2nica a indica\u00e7\u00e3o de que era hora de \u201cmudar o disco\u201d. Chega, pensei. O curto per\u00edodo de campanha foi extenso\u00a0demais para as retalia\u00e7\u00f5es, desaven\u00e7as, brigas e exalta\u00e7\u00e3o de temperamentos. Vamos \u201cmudar o disco\u201d, aflorou-me o dito popular atualizado na incapacidade de entendimento do vertiginoso veredito democr\u00e1tico: eles ganharam. Foi quando ent\u00e3o me veio \u00e0 cabe\u00e7a o segundo ditado \u201cmeia sola\u201d. Professando a cren\u00e7a no vigor da sabedoria popular, professei que era hora de colocar \u201cmeia sola\u201d em minhas ideias e, mais que aceitar a derrota pol\u00edtica, deveria remendar meu incontrolado radicalismo e aproveitar da situa\u00e7\u00e3o. Logo despontou a ideia de que ser oposi\u00e7\u00e3o era o forte dos seguidores de minha orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E comecei a sentir firmeza na honrosa derrota eleitoral. Percebi tamb\u00e9m que faria parte da \u201cmeia sola\u201d supor o renascimento das id\u00e9ias que, por falidas, levaram o partido que aprecio a perder sua cara inaugural, e, o que \u00e9 mais sintom\u00e1tico, ter perdido exatamente nos rinc\u00f5es que lhe serviram de base. Com certo j\u00fabilo, por fim, conclu\u00ed que era necess\u00e1rio por uma \u201cp\u00e1 de cal\u201d no meu esfor\u00e7o isolado de lutar contra a correnteza. Ser democrata, afinal, deveria me significar \u201cmudar o disco\u201d, por \u201cmeia sola\u201d e por fim jogar uma \u201cp\u00e1 de cal\u201d no tema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por acaso, h\u00e1 pouco tempo, havia conversado com um amigo sobre palavras e ditos populares que mudam de sentido \u00e0 medida que o tempo passa. &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16390,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16386","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16386"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16386\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16391,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16386\/revisions\/16391"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}