{"id":16302,"date":"2018-10-17T08:38:01","date_gmt":"2018-10-17T11:38:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16302"},"modified":"2018-10-17T08:38:36","modified_gmt":"2018-10-17T11:38:36","slug":"quem-ganha-perde-a-sagrada-licao-do-tempo-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/quem-ganha-perde-a-sagrada-licao-do-tempo-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"QUEM GANHA PERDE: a sagrada li\u00e7\u00e3o do tempo (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Foi por mero acaso. Havia comprado o livro \u201cquem perde ganha\u201d, de autoria de Ana Maria Machado, para dar a uma neta que tinha ent\u00e3o oito anos. Por algum motivo o presente ficou guardado, e em recente arruma\u00e7\u00e3o de minha estante pessoal encontrei o mimo. Cansado com a movimenta\u00e7\u00e3o de quem tira e p\u00f5e livros arranjados em nova ordem tem\u00e1tica, parei e li o precioso texto como se voltasse \u00e0 inf\u00e2ncia. Foi um bom del\u00edrio. Viagem em tempos distintos: inf\u00e2ncia e maturidade. Flanei&#8230;<\/p>\n<p>Esse texto trata de uma quest\u00e3o filos\u00f3fica profunda, vertida para o alcance infantil. Como manda o figurino, Ana Maria Machado cuidou do assunto de maneira pedag\u00f3gica, leve e com humor delicado, quase po\u00e9tico. S\u00e3o tr\u00eas hist\u00f3rias combinadas: &#8220;Fiapo de trapo&#8221;, &#8220;A menina que vivia perdendo&#8221; e &#8220;O boto e a estrela&#8221;. Sob ju\u00edzo cr\u00edtico e liter\u00e1rio, trata-se de um magnifico jogo de linguagem que coloca em d\u00favida o dilema da perda. Mais do que propor nexos que se esgotam em vit\u00f3rias, os tr\u00eas casos projetam continuidades transformadoras. Tudo, por\u00e9m, visto pelo \u00e2ngulo saud\u00e1vel de quem perde. Opondo os vencedores aos menos afortunados, a autora sugere medita\u00e7\u00e3o sobre a falibilidade dos fatos e deixa entrever o efeito do tempo que, afinal, mostra que nem sempre a vit\u00f3ria determina perman\u00eancias ben\u00e9ficas. H\u00e1 algo de Lavoisier na proposta que consagra a m\u00e1xima: tudo se transforma.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ilustracao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16303\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ilustracao.jpg\" alt=\"Ilustracao\" width=\"400\" height=\"256\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ilustracao.jpg 400w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ilustracao-300x192.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por l\u00f3gico, o texto se vale de exemplifica\u00e7\u00f5es. S\u00e3o historietas que ilustram o sentido moral e, nesta linha, a segunda narrativa, sobre a menina Lena, \u00e9 destac\u00e1vel. O relato remete a uma situa\u00e7\u00e3o de crescimento biol\u00f3gico. Em plena fase de transforma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo, a crian\u00e7a que caminha para a adolesc\u00eancia vai perdendo roupas e sapatos. Tudo se passa sob o zelo da m\u00e3e que contempla a ambiguidade da menina que, no compasso do crescimento inerente a vida, se v\u00ea for\u00e7ada a perder. A l\u00f3gica filos\u00f3fica proposta pela autora me levou a recorrer a outro texto escrito por Grahan Greene, ingl\u00eas cat\u00f3lico e not\u00e1vel escritor pol\u00eamico (ele bradou contra a \u201cmenininha\u201d Shirley Temple, personagem dos sonhos dos norte-americanos no cinema, durante a Segunda Guerra Mundial). Greene em \u201cQuem perde ganha\u201d se vale da mesma estrat\u00e9gia narrativa e tamb\u00e9m coloca o momento da vit\u00f3ria em quest\u00e3o dram\u00e1tica. Mais do que ganhar uma contenda qualquer, interessa ver o rearranjo da situa\u00e7\u00e3o no futuro. Como quem dissesse, olha, a vit\u00f3ria n\u00e3o significa fim, ambos os textos nos animam pensar o futuro.<\/p>\n<p>Filtrei, pessoalmente, ambos textos e fiz uma aproxima\u00e7\u00e3o com o momento pol\u00edtico que vivemos. Foi assim que resolvi dar um balan\u00e7o nas ladainhas de perdas de minha vida. Tirando a aus\u00eancia de entes amados, que por raz\u00f5es emocionais n\u00e3o constelam meu ju\u00edzo racional, percebi que as hist\u00f3rias de derrotas n\u00e3o foram cabais. Sempre, sempre, tudo resultou em algo bom. Foi com esta b\u00fassola que decompus momentos \u00e1ridos de meu conv\u00edvio com adversidades. Decantados tais enredos, aprendi que, passado o choque do veredito, um abatimento me aproximava da raiva. Tamb\u00e9m me foi v\u00e1lido lembrar que ter uma dose pequena de raiva \u00e9 condi\u00e7\u00e3o ponte, passagem para outra fase. Nunca fui de me conformar com os dados apresentados por situa\u00e7\u00f5es de perda. \u00c9 verdade, pois, que algumas vezes, depois da raiva \u2013 e por causa dela \u2013 me vi nas cercanias da depress\u00e3o, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sou chegado a baixo astral. Superada esta segunda fase, um alerta de reconstru\u00e7\u00e3o se me apossa, e neste momento vivo a sabedoria imposta pelo verbo \u201caceitar\u201d. E tudo se ilumina. \u00c9 mais ou menos assim que me sinto agora. Vejo, em termos sociais e coletivos, um momento em que meu ardor democr\u00e1tico ser\u00e1 arranhado. Preparo-me para perder. D\u00f3i-me muito achar que estou como aquela m\u00e3e que, ante um desfile militar, via apenas o filho com o passo certo, os demais todos marchando em outro ritmo.<\/p>\n<div id=\"attachment_16304\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ana-Maria-Machado1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-16304\" class=\"size-large wp-image-16304\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ana-Maria-Machado1-450x258.jpg\" alt=\"Brasil, S\u201eo Paulo, SP. 22\/05\/2009. Retrato da escritora Ana Maria Machado, na \u00c8poca em que estreou na poesia com o livro &quot;Sinais do Mar&quot;, em S\u201eo Paulo. - Cr\u00c8dito:JONNE RORIZ\/AG\u00a0NCIA ESTADO\/AE\/Codigo imagem:46928\" width=\"450\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ana-Maria-Machado1-450x258.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ana-Maria-Machado1-300x172.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ana-Maria-Machado1.jpg 610w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16304\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Escritora Ana Maria Machado, em 2009<\/strong><\/em><\/p><\/div>\n<p>A oportunidade dos dois textos com o mesmo nome \u201cQuem perde ganha\u201d, um escrito para crian\u00e7as e outro para p\u00fablico adulto, me alenta de maneira jeitosa. Preparo-me para enfrentar a tempestade que se anuncia devastadora. Mas, muito mais do que isto, estou aberto a entender o que a hist\u00f3ria tem a dizer para meu empenho cidad\u00e3o, e o que me significa perder o compasso do coletivo. Ganhei antes (me \u00e9 bom n\u00e3o esquecer), e agora se perder, al\u00e9m de reconhecer as virtudes do passado recente, tenho que me preparar para renascer. Tomara que as sagradas li\u00e7\u00f5es eivadas de leituras t\u00e3o prazerosas resultem v\u00e1lidas. Estou pronto para ser derrotado agora. Estou pronto, tamb\u00e9m, para ganhar no futuro. \u00c9 a vida, dir\u00e3o os mais s\u00e1bios. \u00c9 a vida, digo para mim mesmo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi por mero acaso. 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