{"id":16266,"date":"2018-10-04T17:35:06","date_gmt":"2018-10-04T20:35:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16266"},"modified":"2018-10-04T17:51:47","modified_gmt":"2018-10-04T20:51:47","slug":"memoria-do-cangaco-uma-experiencia-de-brasil-profundo-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/memoria-do-cangaco-uma-experiencia-de-brasil-profundo-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria do canga\u00e7o: uma experi\u00eancia de Brasil profundo (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Na alvorada da d\u00e9cada de 1950, um livro escrito por um jornalista respeitado, Viana Moog, se prop\u00f4s a explicar nossa realidade at\u00e9 aquele ent\u00e3o. Sob o t\u00edtulo de \u201cOs dois Brasis\u201d, o autor resumia o resultado de anos de contraste entre o norte e o sul, o litoral e o interior, a cidade e o campo. Tudo seria polarizado no claro x escuro, no certo x errado, no progresso x tradi\u00e7\u00e3o. E o livro prosperou como verdade repetida at\u00e9 protestos que tanto mostravam a unidade inerente das partes como relativizava os extremos. Desse denso debate emergiram teorias que qualificam nossas caracter\u00edsticas para al\u00e9m dos jogos duais. O Brasil \u00e9 uno, culturalmente auto explicado pela diversidade expressa em muitos n\u00edveis de nosso comportamento. Passado o tempo, situa\u00e7\u00f5es multiplicadas t\u00eam proposto experi\u00eancias que ainda chocam e que, de maneira sutil, convocam as velhas propostas de Moog. O turismo e os neg\u00f3cios colocam em cheque essas teorias, e, em vista dos resultados sempre chocantes, ainda s\u00e3o clamados argumentos que testem situa\u00e7\u00f5es que, na pr\u00e1tica, justificam o julgamento dos \u201cDois Brasis\u02dc.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Vianna-Moog.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16267\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Vianna-Moog-316x450.jpg\" alt=\"Vianna Moog\" width=\"316\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Vianna-Moog-316x450.jpg 316w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Vianna-Moog-211x300.jpg 211w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Vianna-Moog-768x1093.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Vianna-Moog.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 316px) 100vw, 316px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Vianna Moog, um dos int\u00e9rpretes do Brasil<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Pela segunda vez, recentemente cumpri situa\u00e7\u00f5es de trabalho no interior nordestino. Convidado pela Universidade Federal de Campina Grande para confer\u00eancia em Cajazeiras, no semi\u00e1rido paraibano, pude tamb\u00e9m participar de programa de treinamento de jovens pesquisadores. Preocupado com o implemento de uma \u201coutra hist\u00f3ria\u201d ou da \u201chist\u00f3ria vista de baixo\u201d, fa\u00e7o parte do grupo interessado em ver outras vers\u00f5es do passado, em particular das percep\u00e7\u00f5es n\u00e3o oficiais ou oficializadas. Nesta linha, as experi\u00eancias do canga\u00e7o se mostram como fontes ricas. Tudo, por\u00e9m, come\u00e7ou antes, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Preocupado com programas de atendimento a migrantes nordestinos, a C\u00faria Metropolitana iniciou vasto programa de assist\u00eancia aos rec\u00e9m-chegados, em particular \u00e0queles que n\u00e3o possuem apoios. A busca de op\u00e7\u00f5es de trabalhos levou \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o de que existe um bols\u00e3o de trabalho dominado por nordestinos: as portarias e zeladorias de pr\u00e9dios. Feito levantamento, constatou-se que mais de 90% dessas fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o exercidas por tais migrantes e seus filhos, parentes ou amigos. A quest\u00e3o que se levanta diz respeito \u00e0s raz\u00f5es de tais postos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Lampiao-e-seu-bando.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16268\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Lampiao-e-seu-bando-450x326.jpg\" alt=\"Lampiao e seu bando\" width=\"450\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Lampiao-e-seu-bando-450x326.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Lampiao-e-seu-bando-300x217.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Lampiao-e-seu-bando-768x556.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Lampiao-e-seu-bando.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Bando de jagn\u00e7os de Virgulino Lampi\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sob a chave de um procedimento conhecido como \u201chist\u00f3ria oral de vida\u201d foram feitas 50 entrevistas de sondagem. Logo se constatou que essa manifesta\u00e7\u00e3o se originou na d\u00e9cada de 1940 quando empataram duas manifesta\u00e7\u00f5es: uma ligada a onda imigrat\u00f3ria de 1942, ocasi\u00e3o de grande seca; outra, a multiplica\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios destinados \u00e0 nova classe m\u00e9dia, em particular nas grandes cidades do sudeste, exatamente as que mais recebiam esses deslocados. Decorr\u00eancia mec\u00e2nica de tais constata\u00e7\u00f5es, surgiu a pergunta fat\u00eddica: mas porque os nordestinos se no Rio de Janeiro, como em outras capitais, existiam bols\u00f5es de pobreza local, em particular com negros que compunham contingente de baixa renda? Novas levas de entrevistas ligaram situa\u00e7\u00f5es de escolhas. Os dirigentes de trabalho optaram pelos nordestinos que, a um tempo, n\u00e3o possu\u00edam ainda tradi\u00e7\u00e3o de conv\u00edvio urbano \u2013 e por isto seriam mais adapt\u00e1veis \u00e0 nova condi\u00e7\u00e3o trabalhista \u2013 e ao mesmo tempo manteria um preconceito derivado da escravid\u00e3o que consagraria o negro a marginalidade.<\/p>\n<p>Em meio a tantas suposi\u00e7\u00f5es, notou-se que tamb\u00e9m vigorou o pressuposto da jagun\u00e7agem. Sendo que fazia parte da no\u00e7\u00e3o de jagun\u00e7o zelar pela propriedade do coronel, de maneira mim\u00e9tica, tomar conta dos apartamentos e demais depend\u00eancias de pr\u00e9dios equivaleria \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o do mesmo fazer. Uma coisa levando a outra, restou indagar das ra\u00edzes dessa manifesta\u00e7\u00e3o. Sob a chancela que questiona o que resta da jagun\u00e7agem, orientou-se novo projeto, feito in loco, questionando as decorr\u00eancias das ra\u00edzes dessas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Porteiro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16269\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Porteiro-450x338.jpg\" alt=\"Porteiro\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Porteiro-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Porteiro-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Porteiro.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Porteiro e zelador de pr\u00e9dios, destino dos nordestinos nos grandes centros<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Desenvolvida a proposta, logo fomos levados \u00e0 busca dos parentes dos migrantes porteiros. Foi relativamente f\u00e1cil chegar at\u00e9 eles para entrevistas. Foi assim que aprendemos o sentido \u00e9tico da jagun\u00e7agem e sua aplica\u00e7\u00e3o urbana no Brasil moderno. Da mesma forma, chegou-se \u00e0 hist\u00f3ria do canga\u00e7o como um extremo de isolamento dos mecanismos de pertencimento de contingentes que, isolados, n\u00e3o teriam rela\u00e7\u00f5es integrativas com os representantes do estado. Sem chegar at\u00e9 os remanescentes populacionais daquelas regi\u00f5es, os padr\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o do estado se chocaram com o mandonismo local. Levados ao extremo, pela no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os, sob comando deles mesmos, jagun\u00e7os se juntaram para resolver situa\u00e7\u00f5es segundo seus mandamentos.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 fascinante nesta resenha, mas sem d\u00favida, al\u00e9m do entendimento do \u201coutro\u201d, do jagun\u00e7o, cabe questionar a for\u00e7a do nosso preconceito, da rejei\u00e7\u00e3o ao negro, atitude plasmada al\u00e9m da for\u00e7a consciente de nossa compreens\u00e3o imediata. Admitir isso \u00e9 um passo que vai al\u00e9m da compreens\u00e3o de um problema isolado. H\u00e1 algo a mais a ser entendido em nossa democracia que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o flex\u00edvel e miscigenada como pensamos. E como s\u00e3o fortes, sutis e resistentes tais valores. Nossa!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na alvorada da d\u00e9cada de 1950, um livro escrito por um jornalista respeitado, Viana Moog, se prop\u00f4s a explicar nossa realidade at\u00e9 aquele ent\u00e3o. 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