{"id":16058,"date":"2018-07-26T17:47:08","date_gmt":"2018-07-26T20:47:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16058"},"modified":"2018-07-26T17:47:08","modified_gmt":"2018-07-26T20:47:08","slug":"moteiro-lobato-e-dona-purezinha-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/moteiro-lobato-e-dona-purezinha-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Moteiro Lobato e Dona Purezinha (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Visto sempre como \u201chomem p\u00fablico\u201d parece que Lobato foi s\u00f3 editor, s\u00f3 defensor do petr\u00f3leo, s\u00f3 escritor de sucesso sem vieses humanos. E Purezinha uma figura apagada. Ledo engano!<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Sempre fiquei desconfiado da express\u00e3o \u201catr\u00e1s de um grande homem, existe uma mulher\u201d. E minhas d\u00favidas variavam do eventual elogio do feminino, ao refor\u00e7o do machismo, pois, afinal, o referente principal \u00e9 a exist\u00eancia de um \u201cgrande homem\u201d. A mulher ficaria, assim, como complemento. Tudo se complica na medida em que se aprofundam os questionamentos suplementares, algo do tipo \u201ce atr\u00e1s dos homens, n\u00e3o t\u00e3o grandes\u201d? Pior ainda quando se inverte a equa\u00e7\u00e3o \u201ce atr\u00e1s de alguma mulher grande\u201d? Os desdobramentos podem se multiplicar ao infinito e, de qualquer conclus\u00e3o, sabe-se que n\u00e3o despontar\u00e1 nada que qualifique a mulher por si, sem homem que lhe garanta protagonismo. Estas min\u00facias decorreram de uma situa\u00e7\u00e3o concreta e surpreendente. Estive no arquivo da Unitau, em Taubat\u00e9, investigando sobre a documenta\u00e7\u00e3o de Lobato. Por ouvir falar, uma amiga solicitou que eu buscasse os cadernos de Dona Purezinha, esposa de Lobato. Coisa aqui, coisa ali, acabei por demorar at\u00e9 que surgisse a possibilidade de examinar o material espec\u00edfico. Confesso que fui prevenido, pois imaginava (e acertei em cheio) a precariedade do acervo e a mod\u00e9stia nas condi\u00e7\u00f5es de guarda. Mas fui, at\u00e9 o fim da proposta.<\/p>\n<p>Com simpatia, a atendente me ajudou a achar as quatro caixas com os documentos supostos. Come\u00e7ava a\u00ed minha perplexidade.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, devo dizer que n\u00e3o me abati frente o maltrato do material. De in\u00edcio, definitivamente, nem fiz muita quest\u00e3o, posto que nenhuma grande revela\u00e7\u00e3o ocorria. Aconteceu que na \u00faltima caixa encontrei um pequeno tesouro: um caderno de anota\u00e7\u00f5es de Dona Purezinha. Sabe-se que ela, na surdina das companheiras de personagens famosos, selecionava e reescrevia textos inteiros ou fragmentos significativos de documentos pessoais. E, no caso, foram sete cadernos que n\u00e3o est\u00e3o reunidos e sequer considerados. Na l\u00f3gica rasteira dos bi\u00f3grafos \u00e9 Lobato o centro das aten\u00e7\u00f5es. Sem nenhum cuidado requerido, como qualquer outro papel sem valor espec\u00edfico, um gasto caderninho guarda os tais registros da ainda pouco conhecida Dona Purezinha.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Petroleo-nosso.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-16059\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Petroleo-nosso-450x338.jpg\" alt=\"Petroleo nosso\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Petroleo-nosso-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Petroleo-nosso-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Petroleo-nosso.jpg 638w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Na surdina, Dona Purezinha selecionava e reescrevia textos do marido<\/p>\n<p>As c\u00f3pias que a esposa dedicada fazia do marido famoso dizem muito dele, mas dizem muito mais dela. Com cuidadosa letra, cartas inteiras ou peda\u00e7os foram juntadas \u00e0 outras informa\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m fracionadas: rela\u00e7\u00e3o de parentescos em suposta \u00e1rvore geneal\u00f3gica; princ\u00edpios espiritualistas e informa\u00e7\u00f5es cont\u00e1beis. Entre as cartas, uma me enterneceu mais que todas, e esta foi, talvez, a primeira, escrita quando esteve fora de Taubat\u00e9, e, com cuidados e vergonha, avisava a todos os familiares que havia sido reprovado nos exames. No outro extremo, uma carta escrita na cadeia, em 1941, ele falava da experi\u00eancia de ser preso. \u00c9 sabido que, no pres\u00eddio, Lobato escreveu muitas cartas, mas esta, a primeira, ele enviou para a esposa.<\/p>\n<p>Independente dos t\u00f3picos da carta da pris\u00e3o, h\u00e1 algo mais que clama reflex\u00f5es e, dentre tantas, uma pergunta desponta sobre todas: qual o papel de Dona Purezinha na vida de Lobato? Na apar\u00eancia seria ela mais uma das tais \u201cmulheres atr\u00e1s de um grande homem\u201d? Por certo n\u00e3o se trata de deslocar o personagem de seu papel no complexo panorama da hist\u00f3ria das mulheres. Dona Purezinha n\u00e3o poderia fugir do desempenho desenhado para o g\u00eanero de acordo com os padr\u00f5es de sua \u00e9poca. E nada dessa lengalenga de \u201cmulher fora de seu tempo\u201d. O tempo de cada qual \u00e9 o tempo que lhe cabe, e pronto. O que distingue essa mulher das demais \u00e9 a dedica\u00e7\u00e3o irrestrita a seu marido. E isso se mede pelas delicadezas com que acompanhou o agitado escritor e como ela recortou fatos marcantes de sua admira\u00e7\u00e3o. O fato de ter guardado as cartas, feito c\u00f3pias das mesmas, revela tamb\u00e9m a colagem de temas fundamentais para se pensar a pr\u00f3pria biografia dessa mulher desfocada. Discreta, cuidadosa, receptiva, ela ocupou o lugar que lhe cabia, mas com mais solenidade do que se esperava.<\/p>\n<p>Um dos problemas que muito me enquizilam nas an\u00e1lises sobre Monteiro Lobato \u00e9 a despersonaliza\u00e7\u00e3o de suas manifesta\u00e7\u00f5es. Visto sempre como \u201chomem p\u00fablico\u201d parece que ele foi s\u00f3 editor, s\u00f3 defensor do petr\u00f3leo, s\u00f3 escritor de sucesso, tudo, por\u00e9m sem vieses humanos. E ela, figura apagada. Por ironia, foi pelas letras escritas que o \u201ctaubateano rebelde\u201d se fez conhecer. Ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 pelas letras de Dona Purezinha que a devemos reconhecer?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Visto sempre como \u201chomem p\u00fablico\u201d parece que Lobato foi s\u00f3 editor, s\u00f3 defensor do petr\u00f3leo, s\u00f3 escritor de sucesso sem vieses humanos. 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