{"id":16053,"date":"2018-07-25T10:06:18","date_gmt":"2018-07-25T13:06:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=16053"},"modified":"2018-07-25T10:06:18","modified_gmt":"2018-07-25T13:06:18","slug":"as-ilusoes-da-memoria-daniel-aarao-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/as-ilusoes-da-memoria-daniel-aarao-reis\/","title":{"rendered":"As ilus\u00f5es da mem\u00f3ria (*Daniel Aar\u00e3o Reis)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>\u201cN\u00e3o faremos como os colegas de 1968, n\u00e3o lutaremos pelo poder\u201d. A frase, de autoria de um l\u00edder estudantil, foi recordada em recente entrevista de Vladimir Palmeira. Trata-se de um equ\u00edvoco, a ser esclarecido, mesmo porque continua sendo compartilhado por uma certa mem\u00f3ria social que confunde numa mesma aventura as lutas dos estudantes daquele ano e as experi\u00eancias guerrilheiras de luta armada que marcaram a hist\u00f3ria do pa\u00eds entre 1966 e 1974.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A confus\u00e3o, como \u00e9 pr\u00f3prio do exerc\u00edcio memorial\u00edstico, tem fundamentos reais. As maiores lutas estudantis e as primeiras a\u00e7\u00f5es armadas ocorreram numa mesma temporalidade, 1966-1968. Por outro lado, eram ineg\u00e1veis as simpatias da maioria dos estudantes pelos vietnamitas em guerra contra a invas\u00e3o dos EUA, assim como pela saga do Che Guevara, assassinado na Bol\u00edvia, em 9 de outubro de 1967. N\u00e3o poucos l\u00edderes estudantis cultivavam tamb\u00e9m uma no\u00e7\u00e3o \u2013 difusa \u2013 de que a ditadura brasileira seria vencida, em algum momento, pela mesma for\u00e7a \u2013 armada \u2013 com que se impusera. Tais refer\u00eancias seriam ainda mais defendidas depois do Ato Institucional n\u00b0 5, que fechou as possibilidades, por tempo indeterminado, de altera\u00e7\u00f5es pac\u00edficas do poder, e incentivou in\u00fameros estudantes a aderir \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es comprometidas com a luta armada.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Che-Guevara.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16054\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Che-Guevara.jpg\" alt=\"Che Guevara\" width=\"225\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Che-Guevara.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Che-Guevara-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Che-Guevara-80x80.jpg 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Guevara, um mito da revolu\u00e7\u00e3o cubana<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Estas aproxima\u00e7\u00f5es n\u00e3o autorizam, por\u00e9m, a estabelecer um sinal de igualdade entre os movimentos sociais estudantis e a luta armada contra a ditadura. Coincidindo no tempo e muito embora compartilhassem algumas importantes refer\u00eancias, constitu\u00edram linhas de for\u00e7a aut\u00f4nomas, de qualidade diversa.<\/p>\n<p>As concep\u00e7\u00f5es de luta armada come\u00e7aram a fermentar antes mesmo do golpe de 1964. Inspiravam-se nos exemplos de revolu\u00e7\u00f5es vitoriosas (R\u00fassia, China, Cuba, Arg\u00e9lia), e em movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional que se fortaleciam na \u00e9poca. Tratava-se, segundo o paradigma ent\u00e3o hegem\u00f4nico entre os revolucion\u00e1rios, de tomar o poder central pela viol\u00eancia e, a partir da\u00ed, sob a vig\u00eancia de uma ditadura revolucion\u00e1ria, efetivar as mudan\u00e7as consideradas essenciais para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade.<\/p>\n<p>No Brasil, tais perspectivas nutriam-se tamb\u00e9m da desesperan\u00e7a de que reformas profundas pudessem ter lugar de modo pac\u00edfico. A partir do golpe civil-militar de 1964, renomados intelectuais constru\u00edram, com suas obras, uma esp\u00e9cie de \u201cutopia do impasse\u201d. O Brasil entrara num beco sem sa\u00edda. A repress\u00e3o cresceria sem parar. A luta armada impunha-se como \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Formaram-se, ent\u00e3o, grupos guerrilheiros em v\u00e1rias partes do pa\u00eds. No campo e na cidade tentaram fazer valer seus projetos. N\u00e3o obtiveram, por\u00e9m, apoio da popula\u00e7\u00e3o, sendo massacrados por um aparelho repressivo centralizado, que usou e abusou da tortura como pol\u00edtica de Estado.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15969\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir-450x337.jpg\" alt=\"Vladimir\" width=\"450\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir-450x337.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir.jpg 619w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Movimento estudantil de 1968, na contram\u00e3o da guerrilha<\/strong><\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 os movimentos estudantis que alcan\u00e7aram o auge em 1968 assumiriam um perfil muito distinto. Suas ra\u00edzes s\u00e3o posteriores ao golpe de 1964, tomando corpo a partir de 1965-1966. Premidos pelas circunst\u00e2ncias e pela repress\u00e3o da ditadura, efetuaram-se algumas rupturas \u2013 hist\u00f3ricas \u2013 com a tradi\u00e7\u00e3o das lutas estudantis. N\u00e3o mais o apoio e a prote\u00e7\u00e3o do Estado, invi\u00e1veis sob a ditadura, mas a conquista da autonomia frente \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e aos partidos pol\u00edticos legais.\u00a0 A proposta de concentrar as lutas estudantis na defesa de reivindica\u00e7\u00f5es imediatas e contra a pol\u00edtica educacional do governo potencializou bastante a for\u00e7a das entidades estudantis, que se tornaram representativas, capilarmente estruturadas nas faculdades e nas universidades. Foram estas caracter\u00edsticas que ensejaram um not\u00e1vel processo de auto-organiza\u00e7\u00e3o, vis\u00edvel na realiza\u00e7\u00e3o das passeatas e nos m\u00e9todos de autodefesa que permitiram que os manifestantes n\u00e3o apenas fugissem dos policiais, mas os enfrentassem, \u00e0s vezes com \u00eaxito, com o apoio do \u201cpovo da cidade\u201d.<\/p>\n<p>Assim, e sem abandonar as den\u00fancias contra a ditadura, o movimento estudantil aproximou-se de um outro paradigma de mudan\u00e7a social, apoiado na persuas\u00e3o das consci\u00eancias e na conquista progressiva de direitos. Da\u00ed \u00e9 que advieram sua for\u00e7a e sua representatividade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Atentado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16055\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Atentado.jpg\" alt=\"Atentado\" width=\"254\" height=\"199\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Atentado que vitimou um soldado em S\u00e3o Paulo em 1968<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As distin\u00e7\u00f5es entre a proposta de luta armada revolucion\u00e1ria e a din\u00e2mica democr\u00e1tica do movimento estudantil ficariam muito evidentes no dia 26 de junho de 1968. Enquanto as lideran\u00e7as sociais \u2013 n\u00e3o apenas estudantis \u2013 concentravam-se na organiza\u00e7\u00e3o da maior passeata do per\u00edodo, conquistando \u2013 pela luta \u2013 o direito de se manifestar pacificamente; neste mesmo dia, de madrugada, sem qualquer articula\u00e7\u00e3o com \u2013 e sem nenhum respeito pelo &#8211; movimento estudantil, um grupo guerrilheiro\u00a0 jogava um carro cheio de explosivos sobre a entrada do Quartel General do II Ex\u00e9rcito, em S\u00e3o Paulo, matando o soldado Mario Kozel.<\/p>\n<p>Evidenciavam-se a\u00ed duas linhas de for\u00e7a \u2013 aut\u00f4nomas -, distintas experi\u00eancias e projetos pol\u00edticos, cujas diferen\u00e7as \u2013 radicais &#8211; as ilus\u00f5es da mem\u00f3ria, no futuro iriam apagar.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Daniel Aar\u00e3o Reis<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Email: daniel.aaraoreis@gmail.com<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o faremos como os colegas de 1968, n\u00e3o lutaremos pelo poder\u201d. 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