{"id":15968,"date":"2018-06-26T10:11:41","date_gmt":"2018-06-26T13:11:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15968"},"modified":"2018-06-26T10:11:41","modified_gmt":"2018-06-26T13:11:41","slug":"nada-e-dado-tudo-e-conquistado-daniel-aarao-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/nada-e-dado-tudo-e-conquistado-daniel-aarao-reis\/","title":{"rendered":"Nada \u00e9 dado, tudo \u00e9 conquistado (Daniel Aar\u00e3o Reis*)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>A Passeata dos Cem Mil, ocorrida h\u00e1 exatos 50 anos, foi resultado de todo um processo de lutas que se estendeu por v\u00e1rios anos<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O verso que d\u00e1 nome a essa cr\u00f4nica, do poeta F\u00e9lix de Athayde, exprime, melhor do que um tratado, o estado de esp\u00edrito dos que lutavam nas ruas do pa\u00eds contra a ditadura, instaurada em fins de mar\u00e7o de 1964 por uma ampla coaliz\u00e3o civil-militar.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas adotadas pelo primeiro governo ditatorial suscitaram descontentamento. Os trabalhadores sofriam com o arrocho salarial. Os empres\u00e1rios, com a falta de cr\u00e9ditos. As classes m\u00e9dias, protagonistas das Marchas da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade, que deram respaldo social ao golpe, n\u00e3o se viam recompensadas. Grande parte da m\u00eddia que incentivara os militares a depor Jo\u00e3o Goulart cobria o governo de cr\u00edticas, alguns chegavam a pedir o restabelecimento das liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15969\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir-450x337.jpg\" alt=\"Vladimir\" width=\"450\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir-450x337.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Vladimir.jpg 619w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Vladimir Palmeira liderou a manifesta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Os universit\u00e1rios e secundaristas exprimiam com vigor as insatisfa\u00e7\u00f5es. Em 1966-1967, passeatas nas grandes cidades do pa\u00eds conferiram musculatura a suas entidades e autoconfian\u00e7a \u00e0s lideran\u00e7as. A repress\u00e3o policial, sempre violenta, n\u00e3o conseguia deter o processo.<\/p>\n<p>Em 1968, o pa\u00eds vivia sob o segundo governo ditatorial. Ele veio com promessas de \u201cdi\u00e1logo\u201d e \u201chumaniza\u00e7\u00e3o\u201d, por\u00e9m, estas boas palavras n\u00e3o mereciam cr\u00e9dito da opini\u00e3o p\u00fablica. O assassinato do jovem Edson Lu\u00eds de Lima Souto, em fins de mar\u00e7o, desencadeou novas ondas de protesto em todo o pa\u00eds. No Rio de Janeiro, o enterro do jovem, acompanhado por cerca de 60 mil pessoas, foi pac\u00edfico. No entanto, em outras cidades o pau quebrou feio, havendo inclusive novos assassinatos, provocados pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>As den\u00fancias, entretanto, n\u00e3o esmoreciam. As demandas estudantis tornavam-se conhecidas: ensino universit\u00e1rio p\u00fablico e gratuito, mais verbas para as universidades, melhores laborat\u00f3rios e bibliotecas, reformula\u00e7\u00e3o de curr\u00edculos arcaicos, novas concep\u00e7\u00f5es sobre o ensino e a pesquisa, assist\u00eancia social aos necessitados, aboli\u00e7\u00e3o das obsoletas c\u00e1tedras vital\u00edcias. Havia identidade com a luta pelas liberdades democr\u00e1ticas e o fim da ditadura, mas o movimento ganhara consist\u00eancia e amplo apoio social, por ter sido capaz de alcan\u00e7ar uma rara sintonia com as reivindica\u00e7\u00f5es mais sentidas dos estudantes comuns. Da\u00ed provinha a sua for\u00e7a e o prest\u00edgio de suas lideran\u00e7as.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Chico-e-Vinicius.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15970\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Chico-e-Vinicius-450x268.jpg\" alt=\"Chico e Vinicius\" width=\"450\" height=\"268\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Chico-e-Vinicius-450x268.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Chico-e-Vinicius-300x178.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Chico-e-Vinicius-768x457.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Chico-e-Vinicius.jpg 1345w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Chico Buarque e Vinicius de Moraes e muitos outros artistas apoiaram o movimento<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em maio e junho de 1968, passeatas no Rio alcan\u00e7aram um novo auge. O processo desembocou em 21 de junho, a sexta-feira \u201csangrenta\u201d. Os dados oficiais confirmavam a viol\u00eancia dos confrontos: 4 mortos, 57 civis e 35 militares feridos, cerca de mil presos. Para al\u00e9m dos estudantes, surgira um novo protagonista: o \u201cpovo das cidades\u201d. Do alto dos edif\u00edcios, choviam sobre os policiais cinzeiros, cadeiras, peda\u00e7os de pau, tampas de vasos sanit\u00e1rios, m\u00e1quinas de escrever, tudo o que pudesse machuc\u00e1-los. Nas ruas, lado a lado com os universit\u00e1rios e secundaristas, comerci\u00e1rios, banc\u00e1rios, funcion\u00e1rios enfrentavam, destemidos, a pol\u00edcia. Do alto de um poste, Vladimir Palmeira orientava: \u201cVamos com calma. Agora, se eles atacarem, pau neles\u201d. Uma frase percorria as barricadas que se formavam: \u201ca gente apanha, mas tamb\u00e9m d\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Era uma luta desigual. De um lado, as armas dos que protestavam: sacos pl\u00e1sticos cheios d\u2019\u00e1gua, pedras, paus, gelo, garrafas, tijolos. Para fazer escorregar os cavalos, bolas de gude, corti\u00e7as. De outro lado, as armas dos que reprimiam: rev\u00f3lveres, baionetas, fuzis, bombas de efeito moral e de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Noite chegada, foi poss\u00edvel \u00e0 pol\u00edcia, afinal, \u201climpar\u201d uma cidade cheia de escombros e de sinais de luta. Uma triste vit\u00f3ria, pois o prest\u00edgio estava com os derrotados. O quadro da \u00e9poca foi bem expresso pelo c\u00e2ndido coment\u00e1rio de Jos\u00e9 Mauro, um menino de 5 anos: \u201cDepois das cenas bacanas que vi, acho os bangue-bangues da TV muito chatos. N\u00e3o quero ser mais mocinho. Quero ser estudante\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Passeata-N-Benguel.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15971\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Passeata-N-Benguel-450x279.jpg\" alt=\"Passeata N Benguel\" width=\"450\" height=\"279\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Passeata-N-Benguel-450x279.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Passeata-N-Benguel-300x186.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Passeata-N-Benguel-768x476.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Passeata-N-Benguel.jpg 1252w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Detalhe da linha de frente formada por atrizes<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As lutas culminaram na passeata chamada dos Cem Mil (a rigor, havia muito mais do que cem mil pessoas no centro do Rio naquele dia), ocorrida h\u00e1 exatos cinquenta anos, em 26 de junho de 1968.<\/p>\n<p>Muito j\u00e1 se disse e se escreveu sobre esta manifesta\u00e7\u00e3o. Caberia, contudo, destacar alguns aspectos, nem sempre adequadamente avaliados. Ela foi resultado de todo um processo de lutas que se estendeu por v\u00e1rios anos. Organizadas pelas bases, nas faculdades e nas universidades. E por entidades de fato representativas, comprometidas com as demandas estudantis. Al\u00e9m disso, aut\u00f4nomas, em rela\u00e7\u00e3o ao Estado, aos governos e aos partidos pol\u00edticos, o que lhes conferia um selo de ineg\u00e1vel autenticidade. Demonstrou-se tamb\u00e9m uma not\u00e1vel capacidade de articula\u00e7\u00e3o de diferentes tend\u00eancias, internas ao pr\u00f3prio movimento estudantil e tamb\u00e9m no contexto da sociedade civil: artistas, intelectuais, profissionais liberais, assalariados urbanos. E souberam ainda os manifestantes organizar sua autodefesa, sempre apanhando, \u00e9 verdade, mas, quando poss\u00edvel, \u201ctamb\u00e9m dando\u201d.<\/p>\n<p>Legados deixados para o futuro. \u00c0 procura de olhos capazes de v\u00ea-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>*Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Passeata dos Cem Mil, ocorrida h\u00e1 exatos 50 anos, foi resultado de todo um processo de lutas que se estendeu por v\u00e1rios anos O &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15972,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15968","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15968","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15968"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15968\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15973,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15968\/revisions\/15973"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15972"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15968"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15968"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15968"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}