{"id":15903,"date":"2018-05-29T15:51:35","date_gmt":"2018-05-29T18:51:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15903"},"modified":"2018-05-29T15:51:35","modified_gmt":"2018-05-29T18:51:35","slug":"maio-na-franca-do-tedio-ao-imprevisivel-daniel-aarao-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/maio-na-franca-do-tedio-ao-imprevisivel-daniel-aarao-reis\/","title":{"rendered":"Maio na Fran\u00e7a: do t\u00e9dio ao imprevis\u00edvel (Daniel Aar\u00e3o Reis)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201cA Fran\u00e7a entedia-se em paz. Deve-se lamentar a aus\u00eancia de greves, guerras e crises? O fato \u00e9 que h\u00e1 uma atmosfera esterilizante. O pa\u00eds est\u00e1 amea\u00e7ado de morrer de t\u00e9dio\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>As palavras, escritas pelo jornalista Pierre Pont\u00e9 em 15 de mar\u00e7o de 1968, davam conta de um longo per\u00edodo de prosperidade econ\u00f4mica e paz social. Nada de excitante acontecia. Uma pasmaceira. Pouco mais de um m\u00eas e meio depois, ele poderia reclamar de tudo, menos de t\u00e9dio.<\/p>\n<p>O vulc\u00e3o come\u00e7ou a estremecer na Universidade de Nanterre, na periferia de Paris, onde protestos estudantis ensejaram enfrentamentos com a pol\u00edcia. O reitor teve uma ideia que lhe pareceu genial: suspendeu os cursos. Fechada a universidade, os jovens rumaram para a Sorbonne, principal universidade francesa, no <em>Quartier Latin<\/em>, \u00e0 margem esquerda do Sena, pr\u00f3xima ao centro de Paris. Ali chegaram na manh\u00e3 de 3 de maio cerca de 400 mo\u00e7as e rapazes. Em rela\u00e7\u00e3o aos 160 mil universit\u00e1rios da cidade e aos 500 mil do pa\u00eds, uma gota d\u2019\u00e1gua no oceano, mas n\u00e3o lhes faltavam aud\u00e1cia, irrever\u00eancia e determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Nanterre.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15904\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Nanterre.jpg\" alt=\"Nanterre\" width=\"279\" height=\"180\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Uma interpreta\u00e7\u00e3o equivocada incendiou o maio franc\u00eas que teve in\u00edcio em Nanterre<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No in\u00edcio da tarde, j\u00e1 havia uma pequena multid\u00e3o assistindo, bem-humorada, mais curiosa e simp\u00e1tica do que participativa, \u00e0quela esp\u00e9cie de <em>happening<\/em>, onde se misturavam, num ar de festa, reivindica\u00e7\u00f5es imediatas e den\u00fancias pol\u00edticas. Para as autoridades aquilo passara dos limites. Chamaram a pol\u00edcia, que apareceu com cassetetes e bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. No fim da tarde, evacuou-se a universidade, mas os estudantes espalharam-se pelas ruas em passeatas de indigna\u00e7\u00e3o. O pau quebrou feio durante a noite. No balan\u00e7o final, havia mais de 100 feridos e 596 presos.<\/p>\n<p>Foi a primeira noite do Maio franc\u00eas.<\/p>\n<p>Nos dias 6 e 10, houve novas passeatas e enfrentamentos: 890 pris\u00f5es, 1.916 feridos (596 policiais), 317 hospitalizados e mais 250 carros destru\u00eddos ou queimados.<\/p>\n<p>Esbo\u00e7ou-se um programa de reformas: democratizar a educa\u00e7\u00e3o nacional, mudar os curr\u00edculos, alterar em profundidade as rela\u00e7\u00f5es entre professores e estudantes. Uma crise n\u00e3o apenas educacional, mas cultural, social e pol\u00edtica. Os dias seguintes o evidenciariam.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Policia-fora-do-quartier.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15905\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Policia-fora-do-quartier.jpg\" alt=\"Policia fora do quartier\" width=\"277\" height=\"182\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Os manifestantes exigiam a pol\u00edcia fora do Quartier Latin<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Os sindicatos chamaram uma greve geral a partir do 13 de maio. Neste dia, centenas de milhares de pessoas manifestaram-se. O governo fez concess\u00f5es, autorizando a reabertura das universidades. Muito pouco e tarde demais.<\/p>\n<p>No dia 14, em Nantes, numa empresa de 2 mil oper\u00e1rios, a Sud Aviation, come\u00e7ou uma greve inusitada, com ocupa\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica e deten\u00e7\u00e3o do diretor e demais quadros dirigentes. O exemplo contaminou centenas de f\u00e1bricas, assim como os transportes a\u00e9reos e terrestres. Em seguida, pararam os correios e a distribui\u00e7\u00e3o de jornais. O mundo das artes entrou em ebuli\u00e7\u00e3o com a ocupa\u00e7\u00e3o do Teatro Od\u00e9on e a interrup\u00e7\u00e3o do festival de Cannes. \u00a0No dia 20, cerca de dez milh\u00f5es de franceses estavam com os bra\u00e7os cruzados.<\/p>\n<p>As for\u00e7as pol\u00edticas tradicionais, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, n\u00e3o conseguiam se situar. O governo n\u00e3o governava. O poder vacilava. E caiu&#8230; nas ruas. O estranho \u00e9 que n\u00e3o havia quem pudesse tom\u00e1-lo. Uma crise revolucion\u00e1ria?<\/p>\n<p>No dia 24, outras manifesta\u00e7\u00f5es agitaram o pa\u00eds. Mais centenas de feridos e de pris\u00f5es. A bolsa de valores e duas delegacias foram atacadas. Partid\u00e1rios do governo organizavam-se em Comit\u00eas de Defesa da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Haveria uma guerra civil?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Flor-x-baionetas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15906\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Flor-x-baionetas-450x258.jpg\" alt=\"Flor x baionetas\" width=\"450\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Flor-x-baionetas-450x258.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Flor-x-baionetas-300x172.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Flor-x-baionetas.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Estudantes receberam a pol\u00edcia com flores<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A concilia\u00e7\u00e3o entrou em cena: por iniciativa do governo, depois de 36 horas de negocia\u00e7\u00f5es, patr\u00f5es e centrais sindicais chegaram a um acordo, com concess\u00f5es substanciais aos trabalhadores: aumento imediato de 35% para o sal\u00e1rio m\u00ednimo e de 10% para os demais n\u00edveis; redu\u00e7\u00e3o da carga hor\u00e1ria de trabalho e da idade de aposentadoria; reconhecimento de se\u00e7\u00f5es sindicais nas empresas.<\/p>\n<p>O acordo suscitou controv\u00e9rsias, muitos hesitavam em retomar o trabalho. Mesmo porque a maioria pensava que o general De Gaulle, h\u00e1 dez anos no poder, tinha seus dias contados.<\/p>\n<p>Mas ele virou o jogo no dia 30 de maio: dissolveu o Parlamento e convocou elei\u00e7\u00f5es, em dois turnos, para os dias 23 e 30 de junho. Uma aposta alta. Neste mesmo dia, uma grande manifesta\u00e7\u00e3o em Paris apoiou o general e a restaura\u00e7\u00e3o da Ordem. Gritavam os manifestantes: \u201cAbaixo o comunismo\u201d, \u201cDe Gaulle n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3!\u201d. \u201cA Fran\u00e7a para os franceses\u201d. No dia seguinte, manifesta\u00e7\u00f5es semelhantes se realizaram em cidades da prov\u00edncia. Invertia-se uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que parecia definida.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Proibido-proibir.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15907\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Proibido-proibir.jpg\" alt=\"Proibido proibir\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;\u00c9 proibido proibir&#8221; foi a palavra de ordem dominante<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O m\u00eas de junho foi o m\u00eas da restaura\u00e7\u00e3o. Lentamente, voltou-se ao trabalho nas empresas, nas escolas e nas universidades. Ainda houve manifesta\u00e7\u00f5es, mas sem o potencial indutivo das anteriores. Nas elei\u00e7\u00f5es programadas, as for\u00e7as da Ordem ganharam 358 das 485 cadeiras em jogo. Numa hist\u00f3ria sempre imprevis\u00edvel, o t\u00e9dio triunfou e recuperou sua capacidade de sedu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Morreu Maio. Sob suas cinzas, por\u00e9m, brasas incandescentes ainda arderiam nos embates e esperan\u00e7as das d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Daniel Aar\u00e3o Reis,\u00a0Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Email: daniel.aaraoreis@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA Fran\u00e7a entedia-se em paz. Deve-se lamentar a aus\u00eancia de greves, guerras e crises? O fato \u00e9 que h\u00e1 uma atmosfera esterilizante. 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