{"id":15882,"date":"2018-05-25T17:09:09","date_gmt":"2018-05-25T20:09:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15882"},"modified":"2018-05-25T17:09:09","modified_gmt":"2018-05-25T20:09:09","slug":"epicuro-e-a-felicidade-moderna-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/epicuro-e-a-felicidade-moderna-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Epicuro e a felicidade moderna (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>N\u00e3o sou do tipo que faz transfer\u00eancias ligeiras de fatos hist\u00f3ricos projetado no presente. Pelo menos n\u00e3o deveria ser. Como profissional da hist\u00f3ria, sei que o passado n\u00e3o se repete e que, mesmo respeitando Marx, nem mesmo como farsa acredito na reedi\u00e7\u00e3o do pret\u00e9rito. <\/strong><\/em><\/p>\n<p>Essas no\u00e7\u00f5es me vieram \u00e0 cabe\u00e7a ao retomar alguns pontos do epicurismo grego. Lembrando que a morte de Epicuro sempre foi um dos epis\u00f3dios mais empolgantes de minha mem\u00f3ria de estudante de filosofia, restou-me refazer pressupostos que justificam a tenta\u00e7\u00e3o \u201cpresentificadora\u201d.<\/p>\n<p>Nascido numa col\u00f4nia ateniense (Samos 341 \u2013 271 a.C.), jovem ainda Epicuro prestou servi\u00e7os militares em Atenas onde se aprofundou na contempla\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da vida. Voltou ao solo natal, mas retornou a Atenas onde foi professor por 35 anos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/EPICURO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15883\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/EPICURO.jpg\" alt=\"EPICURO\" width=\"218\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p>Independente de tra\u00e7os biogr\u00e1ficos, vale lembrar o radicalismo epicurista. Passados sete anos da morte do mestre Plat\u00e3o, em plena era de desconstru\u00e7\u00e3o do apogeu grego, Epicuro pregava o prazer imediato, em detrimento dos projetos imperiais, a longo prazo. Em s\u00edntese, para ele, o melhor a ser feito por qualquer um seria acumular boas lembran\u00e7as, guardar as sensa\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias para, na velhice ou nos momentos aflitivos, ter o que recordar. Morrer bem era o melhor da meta epicurista. Dizem que no caso pessoal, depois de graves dores motivadas por pedras nos rins, ele se despediu da vida rodeado de amigos e, quando pressentiu a chegada do fim, desnudou-se, entrou em banheira com \u00e1gua morna e sorveu boa ta\u00e7a do vinho mais reputado. Tudo cercado de admiradores. Assim, entrando em \u00eaxtase teria transcendido. Verdade ou n\u00e3o, essa narrativa sempre me encantou. Tanto pelo exerc\u00edcio da guarda de fra\u00e7\u00f5es de ocorr\u00eancias boas como pela consci\u00eancia, e at\u00e9 controle e escolha da pr\u00f3pria morte. Sinceramente, fico fascinado com as li\u00e7\u00f5es epicuristas.<\/p>\n<p>O que mais me atrai na possibilidade de pensar essas li\u00e7\u00f5es transpostas para o presente \u00e9 que vivemos tamb\u00e9m uma \u00e9poca de confus\u00e3o e desorganiza\u00e7\u00e3o progressiva de valores tidos como fundamentais para o conv\u00edvio social. Segundo Epicuro, \u00e9 exatamente nesse contexto que cabe a busca de compensa\u00e7\u00f5es pessoais, dos tais pequenos brindes. \u201cSer feliz e buscar o prazer\u201d era sua meta e isso contagiava seus pares decepcionados com o mundo em que viviam. Conv\u00e9m dizer que o epicurismo vingou por muito tempo, at\u00e9 que, 200 anos mais tarde, C\u00edcero, com veem\u00eancia, desmereceu tais preceitos acusando-os de hedonistas. Interessante assinalar que a no\u00e7\u00e3o de para\u00edso alcan\u00e7\u00e1vel na Terra, fora uma tentativa testada por Epicuro que criou o chamado \u201cJardim\u201d, espa\u00e7o apartado de Atenas, onde os adeptos teriam ampla liberdade de a\u00e7\u00e3o. As regras do espa\u00e7o ut\u00f3pico e imediato eram curiosas, pois, por exemplo, mantinha-se a propriedade privada e os estatutos pessoais (como a escravid\u00e3o por exemplo), mas os indiv\u00edduos tinham o respeito como base de conv\u00edvio e a ajuda m\u00fatua como pr\u00e1tica rotineira. Alguns disc\u00edpulos de Epicuro, como Tim\u00f3crates, o est\u00f3ico Epicteto e principalmente Di\u00f3genes La\u00e9rcio trataram de distorcer o ordenamento epicurista e isso contribuiu para seu descr\u00e9dito como grande pensador.<\/p>\n<p>Epicuro escreveu muito, mas apenas em 1928 foram encontrados fragmentos de sua extensa produ\u00e7\u00e3o. O descalabro do mundo contempor\u00e2neo, agora, se preocupa em reestudar esse pensador carism\u00e1tico, provocativo que, afinal, coloca em quest\u00e3o alguns dos grandes dilemas da contemporaneidade: somos felizes sozinhos, com nossas mem\u00f3rias boas, de gozo e prazer, ou apenas seremos felizes se somarmos coletivamente nossas alegrias e esquecermos os pontos ruins?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Hedonismo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15884\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Hedonismo-450x253.jpg\" alt=\"Hedonismo\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Hedonismo-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Hedonismo-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Hedonismo-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Hedonismo-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Hedonismo-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Hedonismo.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Para Epicuro, Jardim seria um espa\u00e7o onde os adeptos teriam ampla liberdade de a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O aclamado prazer pessoal, individual proposto por Epicuro, em an\u00e1lise mais profunda \u00e9 complexo, posto que, para ter validade, precisava ser contado em p\u00fablico. Os ouvintes, ou a plateia, seriam parte inerente a uma esp\u00e9cie de vanguarda da \u201csociedade do espet\u00e1culo\u201d. Nessa linha, Epicuro difundia a imperiosidade do afeto social. Para quem trabalha com quest\u00f5es da an\u00e1lise da mem\u00f3ria social, os preceitos epicuristas s\u00e3o fundamentais, pois implicam sele\u00e7\u00e3o (de fatos bons, gostosos, entusiastas) com o esquecimento das atrocidades da vida. \u00c9 neste sentido que se encontra raz\u00e3o para retomar o estudo de Epicuro. Sem d\u00favida, de maneira mec\u00e2nica, numa sociedade capitalista e que tem como base o consumo e a cumula\u00e7\u00e3o de bens, temos que perguntar: o que \u00e9 felicidade e prazer num contexto t\u00e3o r\u00e1pido e exigente de reposi\u00e7\u00f5es? E a que p\u00fablico temos que nos remeter? A met\u00e1fora do \u201cJardim\u201d permanece no nosso imagin\u00e1rio, mas sem no\u00e7\u00f5es epicuristas ele \u00e9 apenas um lugar f\u00edsico. Que Epicuro nos salve, agora e na hora de nossa morte. Am\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou do tipo que faz transfer\u00eancias ligeiras de fatos hist\u00f3ricos projetado no presente. Pelo menos n\u00e3o deveria ser. Como profissional da hist\u00f3ria, sei que &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15885,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15882","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15882","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15882"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15882\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15886,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15882\/revisions\/15886"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15885"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15882"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15882"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15882"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}